3% das geleiras respondem a mais da metade do degelo do planeta

Nem todas as geleiras do planeta estão perdendo gelo no mesmo ritmo. Embora representem apenas 3,2% das geleiras do mundo, aquelas que terminam em lagos, oceanos ou plataformas de gelo são responsáveis por mais da metade da perda de gelo glacial. É o que revela um novo estudo publicado nesta sexta-feira (23) na revista Nature Communications.

A pesquisa, liderada por cientistas das universidades de Birmingham e Leeds, na Inglaterra, descobriu que essas geleiras perderam, juntas, cerca de 134 bilhões de toneladas de gelo por ano entre 2000 e 2019.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram 216.502 geleiras espalhadas pelo planeta, sem incluir as calotas polares da Groenlândia e da Antártida. O objetivo era compreender como o ambiente em que uma geleira termina influencia sua velocidade de deslocamento e a quantidade de gelo perdida.

Os cientistas classificaram as geleiras em quatro categorias, de acordo com o local onde terminam: terra firme, lagos, oceanos ou plataformas de gelo. Em seguida, compararam o comportamento de cada grupo.

Embora representem uma pequena parcela do número total de geleiras, aquelas que terminam em ambientes aquáticos ou plataformas de gelo costumam ser muito maiores, ocupando, juntas, mais da metade da área glacial do planeta.

Por que algumas geleiras perdem gelo mais rapidamente?

Um dos resultados que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi o comportamento das geleiras que terminam em lagos. Mesmo depois de considerar fatores como clima, tamanho e altitude, elas apresentaram uma perda de gelo aproximadamente 57% maior, em relação ao seu tamanho, do que aquelas que terminam em terra firme.

A velocidade de deslocamento também apresentou diferenças. Em média, as geleiras que terminam em lagos fluem 10% mais rapidamente do que as que terminam em terra, enquanto aquelas que desembocam nos oceanos se movimentam 44% mais rápido.

Os cientistas ainda não sabem exatamente quais fatores explicam essas diferenças. “Geleiras que terminam em lagos realmente se destacam: elas estão perdendo gelo muito rapidamente. Ainda não sabemos exatamente por quê. Pode ser devido aos próprios lagos, ao tamanho e formato das geleiras, ou um pouco de ambos”, explicou Joe Mallalieu, pesquisador que conduziu o estudo na Universidade de Birmingham e atualmente trabalha na Universidade de Leeds, em comunicado.

Uma das hipóteses envolve a interação entre o gelo e a água. Nas geleiras que terminam em lagos, grandes blocos podem se desprender de suas extremidades, formando icebergs. Além disso, a água pode derreter o gelo que fica abaixo da superfície do lago, contribuindo para acelerar a perda de massa glacial. Segundo os pesquisadores, essas geleiras estão presentes em todas as principais regiões glaciais do planeta.

Qual o futuro das geleiras da Terra?

Com o aumento das temperaturas, algumas geleiras estão mudando de ambiente. Em partes do Ártico, por exemplo, geleiras que antes terminavam no oceano estão recuando em direção à terra firme. Em outras regiões do planeta, ocorre o movimento contrário: o crescimento dos lagos glaciais faz com que geleiras que antes terminavam em terra passem a desembocar diretamente na água.

De acordo com o estudo, essas transformações podem provocar efeitos diferentes. Enquanto as geleiras que recuam para terra firme tendem a apresentar uma redução na velocidade de recuo, aquelas que passam a terminar em lagos podem perder gelo mais rapidamente.

A descoberta também aponta uma limitação importante dos modelos científicos utilizados atualmente para prever as mudanças nas geleiras. Muitos deles ainda não consideram completamente as características das geleiras que terminam em lagos. Por isso, a nova classificação desenvolvida pelos pesquisadores poderá contribuir para previsões mais precisas sobre a elevação do nível do mar, a disponibilidade de recursos hídricos e os riscos naturais associados às mudanças nas geleiras.

“A última década testemunhou um enorme aumento na quantidade de dados globais sobre geleiras e clima disponíveis para pesquisadores”, disse Nicholas Barrand, da Universidade de Birmingham. Segundo ele, reunir essas informações permite comparar o comportamento das geleiras em diferentes ambientes, algo que se tornará cada vez mais importante à medida que o aquecimento global transformar as paisagens glaciais.

Fonte: Revista Galileu.

Foto: W. Bulach/Wikimedia Commons.

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