57% dos brasileiros vivem em apenas 15% do território, calcula novo estudo

Um novo estudo do INMA (Instituto Nacional da Mata Atlântica), publicado no início de agosto nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, sugere que mais de 116 milhões de brasileiros — o equivalente a 57% do país — vivem dentro dos limites da Mata Atlântica, que ocupa apenas 15% de todo o território nacional. Essa pesquisa atualiza a estimativa da população que vive no bioma com base no Censo Demográfico de 2022 e propõe critérios mais claros para definir a ocupação da área.

O levantamento revisa estimativas anteriores, que apontavam que 60% a 72% dos brasileiros estariam na Mata Atlântica. Segundo os responsáveis pelo estudo, a diferença nas estimativas está relacionada à falta de detalhamento dos critérios usados em cálculos anteriores. Não à toa, pelos novos critérios geográficos, a concentração parece ser ainda mais acentuada em algumas partes do país. No Sudeste, por exemplo, agora se calcula que entre 83% e 85% da população viva nos limites do bioma.

Bioma é lar para maior parte dos brasileiros

Apesar da associação frequente da Mata Atlântica às áreas de floresta, a maior parte das pessoas contabilizadas pelo estudo vive em cidades e regiões urbanizadas localizadas dentro dos limites do bioma. Algumas das maiores metrópoles brasileiras estão nessa área. O Sudeste reúne mais da metade da população que vive na Mata Atlântica, e cerca de um terço de todos os brasileiros residentes no bioma está concentrado especificamente no estado de São Paulo.

Essa característica faz da Mata Atlântica um território que não é apenas relevante para a conservação da biodiversidade, mas também diretamente relacionado ao cotidiano de milhões de pessoas. O bioma participa de processos que ajudam a garantir abastecimento de água, proteção do solo, regulação do clima e polinização.

A alta concentração populacional em uma área relativamente pequena também aumenta a pressão sobre os recursos naturais. “Com mais de 116 milhões de habitantes distribuídos em uma área relativamente pequena, a Mata Atlântica enfrenta desafios como escassez hídrica e degradação de bacias hidrográficas, fragmentação florestal e vulnerabilidade a eventos climáticos extremos”, explica Mileide Formigoni, autora do estudo, em comunicado enviado à imprensa.

Mudanças no cálculo

Uma das principais contribuições do novo estudo está na metodologia usada para chegar aos seus resultados. Os pesquisadores afirmam que muitas estimativas divulgadas nas últimas décadas não deixavam claro como os cálculos haviam sido feitos, o que dificultava avaliar sua precisão e reproduzir seus resultados.

Dessa forma, para chegar a uma estimativa considerada mais consistente, o novo estudo combinou dados oficiais do Censo 2022 com dois referenciais reconhecidos para definir os limites da Mata Atlântica: a área estabelecida pela Lei da Mata Atlântica e o mapa elaborado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Outro critério adotado foi considerar apenas cidades com pelo menos 50% de seu território dentro do bioma. “Esse procedimento reduz erros comuns, como considerar municípios com presença mínima do bioma como totalmente inseridos na área”, afirma Sérgio Lucena Mendes, coautor do levantamento.

Impacto dos achados

O novo cálculo reforça a dimensão urbana da Mata Atlântica e mostra que a conservação do bioma está diretamente ligada às condições de vida de uma parcela majoritária da população brasileira. A concentração de moradores em cidades e regiões densamente ocupadas coloca diferentes desafios para o planejamento urbano e ambiental, especialmente em um cenário de eventos climáticos extremos e pressão crescente sobre os recursos hídricos, como se vive atualmente.

Ao estabelecer um método transparente e que pode ser repetido por outros pesquisadores, o estudo também busca fornecer uma base mais segura para a construção de políticas públicas. A proposta é que os dados sobre população, conservação ambiental, desenvolvimento urbano e adaptação às mudanças climáticas possam ser analisados de forma integrada.

Para além da discussão sobre quantos brasileiros vivem na Mata Atlântica, o levantamento ainda chama atenção para o tamanho da dependência da população em relação aos serviços fornecidos pelo bioma. Em outras palavras, proteger a Mata Atlântica não diz respeito apenas às áreas de floresta remanescente, mas também envolve as condições ambientais de onde vive a maior parte dos habitantes do país.

Fonte: Revista Galileu.

Foto: Thais Condez.

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