Em 2013, o fotógrafo de ondas Zak Noyle fotografou o surfista Dede Suryana pegando um tubo em uma onda de lixo no mar de Java, na Indonésia. Intitulada A Onda da Mudança, a imagem se tornou símbolo do impacto do ser humano no mar e tem sido utilizada por Noyle para conscientizar o público sobre a importância de proteger os oceanos.
De lá pra cá, a situação dos oceanos só piorou. Por isso, o Instituto Ecosurf realizou pesquisa inédita – Raio-X Ecosurf 2024–2025 –, focada no Brasil e lançada em junho. Trata-se de um levantamento minucioso sobre a percepção socioambiental da comunidade do surfe sobre crise climática, poluição plástica, saúde do Oceano Atlântico, proteção das ondas e engajamento.
Para tanto, a organização entrevistou surfistas de 18 estados (obtendo 539 respostas válidas) e observou 725 locais de surfe. E, mais do que uma pesquisa de opinião, o estudo funciona como um exercício de ciência cidadã aplicada ao território costeiro.
A iniciativa reconhece surfistas e esportistas das ondas como observadores privilegiados das transformações ambientais, já que acompanham, ao longo dos anos, alterações na qualidade da água, no regime das ondas, na erosão costeira, na presença de resíduos e na biodiversidade marinha.
“O Raio-X Ecosurf transforma a vivência dos surfistas em dados para que a sociedade, a imprensa e os gestores públicos possam agir com mais responsabilidade diante da crise climática e da poluição no oceano”, explica Joao Malavolta, CEO do Instituto Ecosurf.
Observatório Ecosurf: plataforma interativa
Para tornar os dados acessíveis, comparáveis e úteis, o Instituto Ecosurf criou o Observatório Ecosurf, uma plataforma digital interativa que permite explorar os resultados da pesquisa de forma dinâmica: cruzar dados, filtrar informações por território, visualizar gráficos, comparar recortes nacionais e regionais e acessar respostas abertas e exportar bases de dados para análise externa.
A ferramenta foi desenvolvida para apoiar jornalistas, pesquisadores, educadores, organizações da sociedade civil e gestores públicos na interpretação dos dados e na formulação de políticas para proteção das praias, ondas e ecossistemas costeiros.
A recomendação do Ecosurf é que a navegação seja feita preferencialmente por computador, já que o observatório reúne mapas, gráficos interativos, painéis comparativos e recursos de exploração semântica que funcionam melhor em tela ampla.
“Sensor social e ecológico da zona costeira”
O principal alerta é bastante contundente: 91,8% dos surfistas afirmam que o Oceano Atlântico já está sendo afetado pelas mudanças climáticas. Entre os impactos mais percebidos estão:
– a elevação do nível do mar: 53,6% e
– a perda ou estreitamento das praias: 50,3%.
“O surfista é uma espécie de sensor social e ecológico da zona costeira. Ele observa o mar todos os dias, percebe mudanças na água, nas ondas, na areia, na fauna e na presença de lixo”, define Malavolta.
O estudo revela que a crise climática deixou de ser uma discussão abstrata para a comunidade do surf e está presente no cotidiano das praias.
Os surfistas têm observado fenômenos diretamente ligados à transformação das zonas costeiras, tais como erosão, ressacas mais intensas, alterações no comportamento das ondas, aquecimento da água e mudanças na paisagem das praias.
No contexto esportivo, esses dados têm implicação direta, pois as praias e as ondas não são apenas ambientes naturais, mas também o “campo de jogo” do surf.
Quando uma praia perde faixa de areia, sofre erosão ou tem sua dinâmica costeira alterada, não é apenas a biodiversidade que está em risco. A cultura, a economia, o turismo, o esporte e o modo de vida associado ao mar são profundamente impactados. Por isso, a pesquisa reforça que proteger o oceano é, também, proteger a infraestrutura natural do surf brasileiro.
Poluição plástica, rotina nas praias
Outro dado de destaque do Raio-X Ecosurf é a frequência com que os surfistas relatam encontrar resíduos plásticos nas praias.
93,9% dos entrevistados afirmam ver resíduos plásticos sempre ou frequentemente nos ambientes costeiros que frequentam. O dado indica que o lixo no mar deixou de ser percebido como ocorrência pontual e passou a fazer parte da rotina visual e ambiental.
A situação se agrava quando a pesquisa aborda a fauna: 43,2% dos surfistas dizem encontrar animais marinhos mortos sempre ou frequentemente. Importante destacar que este dado não estabelece, por si só, uma relação causal direta entre morte de animais e poluição plástica em todos os casos, mas indica percepção recorrente de degradação ecológica nos territórios do surf.
A pesquisa ainda revela que a comunidade não se coloca na posição de mera observadora e já mudou comportamentos. Em resposta à crise ambiental a olhos vistos, 97,2% afirmam ter alterado hábitos pessoais. E isto demonstra um alto nível de sensibilização e disposição individual para agir.
Ao mesmo tempo, os dados apontam que para uma cobrança sistêmica da comunidade sobre investimentos públicos no combate à poluição (99,6%) e maior responsabilização das empresas (98%).
Em resumo, esse conjunto de respostas revela que a comunidade do surf reconhece a importância das ações individuais, mas vai além: exige políticas públicas, fiscalização, infraestrutura e responsabilidade corporativa.
Alta percepção ambiental, baixo domínio conceitual
Para o Instituto Ecosurf, um dos dados mais relevantes da pesquisa está no contraste entre o que é vivenciado nos territórios e o conhecimento de conceitos técnicos.
Isto porque, embora 76,3% dos surfistas afirmem estar dispostos a se envolver ativamente na proteção do oceano, 53,2% desconhecem o conceito formal de ‘Ecossistemas de Surfe’, que define complexos integrados que unem ambiente costeiro, ondas de qualidade e cultura local.
Os ecossistemas de surfe englobam espaço geofísico (fundos marinhos e canais), biodiversidade (fauna e flora) e comunidades humanas (surfistas e pescadores) que dependem das ondas e da preservação do oceano para seu sustento e estilo de vida. A conservação desses locais é que garante a integridade das ondas e a sobrevivência dos habitats e vilarejos associados.
O desconhecimento desta diferenciação, é um paradoxo importante: os surfistas percebem mudanças ambientais, reconhecem problemas, alteram comportamentos e demonstram disposição para agir, mas ainda acessam muito pouco conceitos científicos e instrumentos de gestão que poderiam ajudar a fortalecer sua participação em políticas públicas costeiras.
Para a organização, essa lacuna representa uma oportunidade estratégica para programas de educação oceânica, cultura oceânica, comunicação cientifica e formação cidadã̃.
“Os dados mostram que a comunidade do surfe já entendeu a gravidade do problema. Agora, o desafio é transformar percepção em política pública, mobilização social, educação oceânica e responsabilidade empresarial”, acrescenta Malavolta.
Em outras palavras, a Ecosurf destaca que existe uma inteligência territorial já instalada nas praias brasileiras, mas ela precisa ser traduzida em linguagem técnica, mobilização, articulação institucional e política.
“Proteger as ondas é proteger a vida costeira, a biodiversidade, a cultura de praia e o futuro das cidades litorâneas”, finaliza o especialista.
Fonte: Conexão Planeta.
Foto: Zak Noyle.


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