Petroleiras teriam que reflorestar cinco Amazônias para compensar emissões de carbono

Para manter a exploração de petróleo, gás e carvão sem compromissos com a redução das emissões, empresas de combustíveis fósseis têm apostado em soluções de compensação climática, como a compra de créditos de carbono, tecnologias de captura de carbono (CCS) e o reflorestamento. Mas um estudo recém-publicado na Communications Earth & Environment, da revista Nature, desmonta essa lógica: segundo os autores, essas soluções são logisticamente, financeiramente e ecologicamente inviáveis para neutralizar os impactos da queima das reservas fósseis atualmente conhecidas.

A pesquisa analisou as reservas de petróleo, gás e carvão das 200 maiores petroleiras do mundo e estimou que, se queimadas, elas poderiam liberar 673 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) na atmosfera — um volume incompatível com os esforços globais de mitigação climática. Para compensar essas emissões apenas com reflorestamento, seria necessário plantar árvores em 24,75 milhões de quilômetros quadrados. Isso corresponde a três vezes o território brasileiro ou cinco vezes a área da Floresta Amazônica.

O estudo define reflorestamento como o plantio intencional de florestas em áreas sem cobertura arbórea — ou seja, não inclui regeneração natural ou sistemas agroflorestais. A proposta exigiria sacrificar territórios hoje ocupados por comunidades, áreas agrícolas e ecossistemas funcionais. Mesmo que fosse possível encontrar todo esse espaço, os autores alertam para os riscos de desequilíbrio ecológico e perda de serviços ambientais já existentes.

Entre as alternativas analisadas, o reflorestamento seria a mais barata, com custo estimado em US$ 16 por tonelada de CO₂e, segundo a OCDE. Ainda assim, apenas 36% das empresas conseguiriam manter uma avaliação de mercado positiva se optassem por compensar todas as suas emissões potenciais. No caso dos créditos de carbono, considerados a segunda opção mais popular, o custo médio de US$ 83 por tonelada — conforme o mercado europeu de 2022 — levaria 95% das companhias a um prejuízo ambiental líquido.

Já a captura direta de carbono na atmosfera (DAC), uma das tecnologias mais citadas por setores da indústria, se mostrou a menos viável: ao custo atual de US$ 1.000 por tonelada, nenhuma das empresas analisadas conseguiria manter avaliação positiva.

Diante dos dados, os autores são categóricos: a única forma realista de evitar os impactos climáticos catastróficos é não queimar os combustíveis fósseis. Mesmo com o uso combinado de diversas estratégias de compensação, os custos ecológicos e econômicos superam os possíveis ganhos. Para os cientistas, seguir com a exploração total dessas reservas seria não apenas insustentável, mas financeiramente autodestrutivo para o próprio setor.

Fonte: ClimaInfo, Um Só Planeta, Exame.

Foto: © Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil.