Prédios que viram florestas

As florestas verticais deixaram de ser apenas um conceito experimental de arquitetura sustentável e passaram a integrar políticas urbanas e pesquisas acadêmicas voltadas à mitigação da poluição do ar, ao conforto térmico e à recuperação ambiental em grandes cidades.

A proposta consiste em incorporar vegetação arbórea e arbustiva diretamente às fachadas e varandas dos edifícios, transformando estruturas residenciais em superfícies vivas capazes de interagir com o ambiente urbano.

O projeto que consolidou o conceito

O caso mais documentado e amplamente estudado é o Bosco Verticale, conjunto residencial inaugurado em 2014 em Milão, com projeto do arquiteto Stefano Boeri.

O empreendimento é composto por duas torres com fachadas inteiramente ocupadas por vegetação, integrando cerca de 800 árvores de diferentes portes, milhares de arbustos e mais de 10 mil plantas perenes distribuídas ao longo dos pavimentos.

Segundo dados divulgados pelo escritório responsável e por estudos acadêmicos associados ao projeto, a massa vegetal equivale, em volume, à de um pequeno bosque urbano, mas organizada verticalmente.

A vegetação foi selecionada por botânicos com base em critérios climáticos, resistência ao vento, exposição solar e capacidade de adaptação ao ambiente urbano.

Poluição urbana e o papel das cidades

A relevância das florestas verticais está diretamente ligada ao impacto da poluição atmosférica. A Organização Mundial da Saúde aponta que a poluição do ar é responsável por cerca de 7 milhões de mortes prematuras por ano, associadas principalmente a doenças respiratórias e cardiovasculares.

Ao mesmo tempo, relatórios do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente indicam que as cidades concentram a maior parte do consumo energético global e das emissões de dióxido de carbono, apesar de ocuparem uma parcela reduzida da superfície terrestre.

Nesse contexto, a arquitetura verde surge como uma estratégia complementar de mitigação, voltada à escala local e integrada ao tecido urbano já consolidado, sem depender exclusivamente da criação de novas áreas verdes horizontais.

Evidências ambientais e microclima urbano

Estudos conduzidos por universidades europeias demonstram que fachadas vegetadas contribuem para a retenção de partículas finas em suspensão e para a absorção de gases poluentes como dióxido de nitrogênio e dióxido de enxofre.

Além disso, o sombreamento proporcionado pelas plantas e o processo de evapotranspiração reduzem a temperatura superficial dos edifícios, colaborando para a diminuição do efeito de ilhas de calor em áreas densamente construídas.

No caso do Bosco Verticale, medições térmicas indicaram redução significativa da incidência direta de radiação solar nas fachadas, o que se reflete em menor demanda por sistemas de climatização em determinados períodos do ano.

Esses efeitos, segundo os estudos, variam conforme a orientação do edifício, a densidade vegetal e o regime climático local.

Biodiversidade integrada à arquitetura

Outro aspecto amplamente documentado é o impacto das florestas verticais sobre a biodiversidade urbana. Monitoramentos realizados após a ocupação do Bosco Verticale registraram a presença contínua de aves, insetos polinizadores e outras espécies, atraídas pela diversidade de plantas e pela oferta de abrigo e alimento.

Esses edifícios funcionam como corredores ecológicos verticais, conectando áreas verdes fragmentadas e ampliando a capacidade das cidades de sustentar vida silvestre. Pesquisadores destacam que, embora não substituam parques ou reservas naturais, essas estruturas ampliam a complexidade ecológica do ambiente urbano.

Expansão do modelo em outras cidades

A experiência de Milão impulsionou projetos semelhantes em outras regiões. Em Viena, políticas habitacionais e ambientais passaram a incorporar fachadas verdes, telhados vegetados e sistemas de sombreamento natural em novos empreendimentos residenciais.

Diferentemente do modelo italiano, muitos projetos austríacos adotam soluções híbridas, integrando vegetação de forma distribuída em bairros inteiros.

Cidades como Singapura também avançaram na incorporação de vegetação em altura, apoiadas por regulações urbanas que exigem compensação verde em novos edifícios. Na América Latina, iniciativas em cidades como Cidade do México adotam fachadas verdes modulares, adaptadas a climas tropicais e subtropicais, com foco na melhoria da qualidade do ar local.

Custos, limites e avaliações técnicas

Relatórios técnicos indicam que edifícios com vegetação integrada apresentam custos iniciais superiores aos da construção convencional, geralmente associados ao reforço estrutural, à escolha de espécies adequadas e à instalação de sistemas automatizados de irrigação e drenagem.

Em contrapartida, análises de ciclo de vida apontam redução no consumo energético e benefícios indiretos relacionados à saúde e ao conforto térmico dos moradores.

A literatura científica, no entanto, é cautelosa quanto a extrapolações. Não há consenso que permita equiparar florestas verticais a grandes áreas de floresta natural em termos de sequestro global de carbono ou produção de oxigênio.

Os benefícios comprovados concentram-se na escala local, com ganhos mensuráveis em qualidade ambiental, microclima e biodiversidade urbana.

Uma mudança de paradigma na construção urbana

Mais do que uma solução isolada, as florestas verticais representam uma mudança de paradigma na arquitetura contemporânea. Ao integrar vegetação viva às edificações, esses projetos redefinem o papel dos prédios nas cidades, que deixam de ser estruturas passivas e passam a atuar como componentes ativos da infraestrutura ambiental urbana.

Pesquisadores e urbanistas destacam que, combinadas a políticas de mobilidade, eficiência energética e expansão de áreas verdes, as florestas verticais podem contribuir para cidades mais resilientes, adaptadas aos desafios climáticos e sanitários do século XXI.

Fonte: CPG – Click Petróleo e Gás.

Foto: Stefano Boeri/Divulgação.

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