Brasil está em estado de emergência para extinção dos jumentos, alertam cientistas

O Brasil está assistindo, em tempo real, ao processo de extinção de um dos animais mais simbólicos de sua história rural, os jumentos. Este é o alerta de um grupo de 12 cientistas brasileiros e internacionais em uma carta que foi enviada ao governo brasileiro em setembro de 2025, pedindo a suspensão imediata do abate da espécie no país.

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A reinvindicação não é nova. Os dados preocupam a comunidade há mais de uma década, desde quando a população de jumentos passou a sofrer uma queda expressiva. Desde 1999, estima-se que a espécie diminuiu em 94%, passando de 1,37 milhão para apenas 78 mil indivíduos. A situação foi classificada pelo grupo como uma “emergência iminente e irreversível”.

A mobilização nasceu durante o III Workshop Internacional Jumentos do Brasil: Futuro Sustentável, em junho, em Maceió. Desde então, os especialistas se reuniram para construir um documento com dez razões que justificam o fim do abate, publicado em agosto.

O documento foi enviado ao Ministério Público Federal, Ministério da Casa Civil, Secretaria Geral da Presidência, Ministério da Saúde, Ministério da Agricultura e Ministério do Meio Ambiente. Também receberam o documento o Ministério Público da Bahia e demais estados do Nordeste.

Entre os principais pontos estão o valor genético único do jumento nordestino, sua importância ecológica, o risco sanitário comprovado da prática e as implicações sociais e legais da cadeia produtiva. Também são mencionadas denúncias de trabalho infantil e condições análogas à escravidão, além do impacto negativo à imagem do agronegócio brasileiro.

A maioria dos jumentos abatidos nos últimos anos foi enviada à China, onde suas peles são utilizadas na fabricação do ejiao, um colágeno animal vendido como uma espécie de elixir rejuvenescedor. Entre 2018 e 2024, ao menos 248 mil animais foram mortos, concentrados principalmente na Bahia, único estado com frigoríficos autorizados para esse fim pelo Serviço de Inspeção Federal.

A prática ocorre mesmo sem dados atualizados sobre a real dimensão da população remanescente no país, o que, segundo os cientistas, é um fator agravante.

Para o professor Adroaldo Zanella, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, a situação exige medidas urgentes. “O jumento nordestino é reconhecido em estudos brasileiros e internacionais como um ecótipo exclusivo do nosso Semiárido, com papel importante na economia e cultura local. Estou muito preocupado. Existem soluções, e elas devem ser tomadas com urgência. O abate precisa parar.”

O pesquisador Pierre Escodro, da Universidade Federal de Alagoas, também critica a postura do país diante da crise. “O Brasil não pode continuar sendo o elo frágil de uma cadeia internacional que lucra com a morte de um animal tão representativo. Precisamos alinhar nossa legislação às boas práticas já adotadas por outros países do sul global”, afirma.

Além do apelo moral e científico, os especialistas destacam que já existem alternativas tecnológicas ao uso de peles de jumento. O pesquisador da USP Roberto Arruda de Souza Lima cita, por exemplo, a fermentação de precisão, técnica capaz de produzir colágeno em laboratório sem exploração animal. “Investir nessas tecnologias é estratégico do ponto de vista econômico, ambiental e sanitário”, considera.

A campanha é liderada pela organização internacional The Donkey Sanctuary, com sede no Reino Unido, que atua no Brasil em parceria com universidades, ONGs e profissionais da área de bem-estar animal. A coordenadora da campanha no país, a cientista Patricia Tatemoto, reforça que o momento é decisivo. “Este governo tem uma oportunidade única de proteger esses animais preciosos, que podem viver livremente na natureza ou ser reconhecidos como animais de companhia.”

No Congresso Nacional, tramita desde 2022 o Projeto de Lei 2.387, que propõe a proibição do abate de jumentos. O texto já teve parecer favorável em comissões temáticas, mas ainda aguarda votação na Comissão de Constituição e Justiça. Na Bahia, Estado onde o abate é mais concentrado, o projeto de lei 24.465/2022 também avança com dificuldades.

Embora tenha sido aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa, o texto enfrentou resistência na Comissão de Agricultura, com parecer contrário sob o argumento de possíveis impactos econômicos. Especialistas, no entanto, lembram que a Constituição Federal de 1988 obriga o poder público a proteger a fauna e proíbe práticas que levem à extinção de espécies ou envolvam crueldade contra os animais.

Diante da ausência de dados atualizados e do avanço da exploração comercial, os cientistas pedem ao governo que suspenda o abate até que haja informações claras sobre a população remanescente de jumentos, suas taxas de reprodução e as condições sanitárias e de bem-estar animal na cadeia produtiva.

Fonte: Globo Rural.

Foto: Getty Images.

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