Quando o presidente Donald Trump emitiu uma ordem abrupta no mês passado obrigando a produção de glifosato, o controverso herbicida conhecido como Roundup, ele irritou ativistas da saúde que há muito tempo fazem campanha para banir o produto por suas ligações com o câncer.
O Roundup é um produto utilizado em lavouras e ‘protagonista’ de uma longa disputa científica e judicial sobre impactos à saúde humana e ao meio ambiente. Nos Estados Unidos, processos judiciais já foram movidos por pessoas que afirmam ter desenvolvido câncer após exposição prolongada ao produto.
Organizações ambientais alertam que a medida reitera a proteção de um produto que há anos causa controvérsia. Além da questão de saúde pública, o glifosato está em milhões de hectares de cultivo e também já foi detectado em solos, cursos d’água e alimentos em diferentes regiões do mundo.
De acordo com reportagem do The New York Times, a decisão do governo americano foi justificada por razões de “segurança nacional. A ordem, inclusive, protege as operações da Bayer nos Estados Unidos, empresa responsável pela fabricação do herbicida.
A Bayer, que fabrica o glifosato, também é a única empresa nos EUA que produz uma forma de fósforo elementar chamada fósforo branco, que ela usa para fazer o herbicida. Esse fósforo branco também é usado para fabricar munições empregadas como cortinas de fumaça e dispositivos incendiários que podem queimar violentamente propriedades ou pessoas.
Preocupações sobre a disponibilidade de fósforo para defesa desempenharam um papel significativo na decisão de Trump de considerar as operações da Bayer uma prioridade de segurança nacional, de acordo com duas pessoas com conhecimento direto das deliberações do governo. Um dos indivíduos também enfatizou sua importância à luz das recentes ações militares dos EUA.
O lugar da Bayer na cadeia de suprimentos militar e industrial dos EUA é um aspecto pouco conhecido de uma empresa alemã que está por trás de medicamentos domésticos, incluindo aspirina e Alka-Seltzer. O fósforo branco se inflama espontaneamente quando entra em contato com o oxigênio. Ele produz uma fumaça branca densa e pode atingir temperaturas altas o suficiente para queimar metal.
A empresa tem pressionado por medidas no Congresso, bem como em legislaturas estaduais em todo o país, que a protegeriam de tais processos. A Bayer também pediu à Suprema Corte para se pronunciar sobre um caso que poderia limitar a responsabilidade da empresa. O tribunal está programado para ouvir argumentos nesse caso em abril.
O papel da Bayer como única fabricante americana de fósforo branco dá à gigante alemã de produtos farmacêuticos e agroquímicos uma posição de alavancagem tanto na indústria agrícola quanto na de defesa. Também traz riscos reputacionais para a Bayer, associando a empresa a um herbicida amplamente criticado, bem como às Forças Armadas dos EUA em um momento em que o presidente colocou o país em pé de guerra.
Jennifer Kavanagh, diretora de análise militar da Defense Priorities, um think tank de política externa, disse que munições de fósforo branco eram tipicamente usadas em operações terrestres e por paraças especiais, não em ataques aéreos do tipo que os Estados Unidos estão realizando no Irã.
Usá-lo não é ilegal, embora empregá-lo deliberadamente contra civis ou em um ambiente civil viole as leis de guerra.
Alguns grupos ambientais disseram que o foco do presidente em aplicações militares está desviando a atenção das preocupações de saúde ligadas a um herbicida. A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer da OMS (Organização Mundial da Saúde) considerou o glifosato “provavelmente carcinogênico para humanos”.
Os esforços de lobby da Bayer
A Bayer gastou mais de US$ 9 milhões no ano passado para pagar 53 lobistas registrados para representar os interesses da empresa junto à Casa Branca e várias agências federais, bem como no Congresso, de acordo com a OpenSecrets, um grupo apartidário que rastreia dados de lobby e financiamento de campanha.
Alguns dos lobistas da Bayer têm laços estreitos com a campanha e o governo Trump. Entre eles está Brian Ballard, que arrecadou mais de US$ 50 milhões (R$ 262 milhões) para a campanha de Trump em 2024, de acordo com registros da Comissão Eleitoral Federal, e cujos ex-sócios incluem a chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, e a procuradora-geral, Pam Bondi.
Em junho, Bill Anderson, CEO da Bayer, se reuniu com Lee Zeldin, chefe da Agência de Proteção Ambiental, para solicitar uma atualização sobre o glifosato, bem como sobre o caso da Suprema Corte, de acordo com emails internos obtidos pelo Center para Biological Diversity por meio de um pedido de registros públicos.
“Estamos tendo uma imagem muito mais clara do acesso irrestrito que uma das corporações de pesticidas mais poderosas do mundo tem aos principais funcionários”, disse Nathan Donley, diretor de saúde ambiental do centro, que processou o governo por causa do glifosato.
Brian Leake, porta-voz da Bayer, disse que a empresa “se reúne com agências como parte normal do processo regulatório” e que a empresa tem sido “transparente sobre nossa posição nesses tópicos e muito pública sobre os problemas que enfrentamos como empresa”.
Leavitt disse que “sugerir que o governo sucumbiu a esforços de lobby no processo de tomada de decisão, nesta questão ou em qualquer outra, é completamente falso”.
As ações do governo sobre o glifosato têm sido profundamente impopulares entre partes da base política de Trump, incluindo alguns apoiadores da agenda “Make America Healthy Again” (“Faça os EUA saudáveis de novo”) do secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. O grupo de eleitores conscientes sobre saúde e majoritariamente feminino havia abraçado Trump por sua promessa de abordar as preocupações dos americanos sobre “toxinas em nossos ambientes e pesticidas em nossa comida”.
Também houve críticas aos esforços de lobby da empresa de dentro do partido Republicano. Falando no plenário da Câmara em 20 de fevereiro, o deputado Thomas Massie, republicano de Kentucky, criticou a campanha de lobby da Bayer, dizendo: “Os três poderes deste governo estão sob cerco de lobistas e advogados de uma empresa alemã chamada Bayer”
Fontes: Folha SP, New York Times, um Só Planeta.
Foto: Reuters.


Seja o primeiro