Número de dias de calor extremo dobrou nos últimos 75 anos, mostra novo estudo

O número de dias em que o calor extremo torna perigoso demais sair para passear com o cachorro, varrer a varanda e realizar outras atividades comuns dobrou em todo o mundo nos últimos 75 anos, de acordo com uma nova pesquisa.

Cientistas apontaram que, em média, pessoas com 65 anos ou mais enfrentam um mês por ano em que o calor as impede de realizar atividades rotineiras. O número de horas restritas para idosos ao ano passou de 600, na década de 1950, para 900 atualmente. Partes da Ásia, África, Austrália e América do Norte estão se tornando inabitáveis para esse grupo, afirmaram os pesquisadores.

Adultos mais jovens também estão perdendo tempo, já que o calor provocado pelas mudanças climáticas restringe suas vidas por 50 horas ao ano. Na década de 1950, eram 25 horas.

No geral, mais de um terço da população mundial vive em regiões onde o calor afeta severamente a vida cotidiana, segundo o artigo revisado por pares publicado nesta terça-feira (10) na revista Environmental Research: Health.

Embora pesquisas anteriores tenham demonstrado o impacto do calor extremo na saúde humana, os autores do novo estudo afirmam que este é o primeiro a documentar as consequências do aumento das temperaturas na vida cotidiana.

“O calor extremo não está afetando apenas nossa capacidade de sobreviver ou trabalhar em empregos fisicamente exigentes, mas também de realizar tarefas simples, leves e diárias”, disse Luke Parsons, cientista climático da organização ambiental sem fins lucrativos The Nature Conservancy e autor principal do artigo.

Os pesquisadores analisaram registros de calor e umidade de 1950 a 2024. Eles usaram o Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, que mede a saúde e os padrões de vida de cada país, como indicador de vulnerabilidade ao aumento das temperaturas.

Os cientistas, que desenvolveram um modelo fisiológico dos impactos do calor em diferentes faixas etárias, determinaram quando fica quente demais para as pessoas realizarem tarefas quando expostas a temperaturas externas na sombra.

No Qatar, por exemplo, o calor agora torna arriscado para idosos realizar atividades rotineiras durante um terço do ano. Mesmo pessoas de 18 a 40 anos naquele país precisam reduzir tarefas diárias por mais de 800 horas ao ano, ou 10% do seu tempo.

Idosos nos EUA perdem 270 horas de atividades normais devido aos riscos de superaquecimento. No sul dos EUA, “estamos falando de muitas centenas de horas de limitações de habitabilidade para idosos todos os anos”, disse Parsons.

Essas áreas, junto com a Europa, o sul da América do Sul, o sul da Austrália e partes da Ásia e África, registraram os maiores aumentos nas restrições à vida cotidiana desde 1995, segundo o artigo.

A coautora do estudo, Jennifer Vanos, professora associada da Universidade Estadual do Arizona que estuda o calor extremo urbano, disse que a pesquisa mostra que o superaquecimento pode representar uma ameaça para pessoas como funcionários de restaurantes que caminham muito no trabalho com baixo esforço físico.

“Mesmo que não vejamos isso como atividade física de alta intensidade, pode se tornar uma situação muito perigosa por causa da exposição ao calor ao longo do tempo”, afirmou.

Embora cidadãos de nações ricas como Qatar e Emirados Árabes Unidos possam se refugiar em casas com ar-condicionado, Parsons observou que esses países dependem de grandes populações de trabalhadores migrantes que atuam na construção civil e outros trabalhos ao ar livre.

As temperaturas globais atingiram um recorde em 2024, ano em que o aquecimento ultrapassou 1,5°C pela primeira vez em relação aos níveis pré-industriais.

“Este estudo nos fornece um vislumbre realmente sombrio e infeliz de como potencialmente é um mundo 1,5°C mais quente”, disse Parsons.

Fonte: Folha SP.

Foto: Silvio Avila – 11.fev.25/AFP

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