Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo, Marta. Estes foram os nomes das tempestades que, em ordem cronológica e alfabética, assolaram Portugal durante três semanas entre o fim de janeiro e meados de fevereiro. Rios transbordaram, telhados caíram, árvores tombaram — e a água e a ventania levaram de roldão reputações políticas e a confiança dos portugueses em seus sistemas de mitigação de eventos climáticos extremos.
As borrascas, no entanto, não afetaram igualmente todas as cidades portuguesas. Em Coimbra, o rio Mondego transbordou, e cerca de 3.000 pessoas tiveram que ser evacuadas de suas casas, enquanto em Lisboa as enchentes foram pontuais, e os maiores prejuízos foram árvores caídas e prédios destelhados.
O evento extremo serviu de teste para o PDGL (Plano Geral de Drenagem de Lisboa), uma obra orçada em 250 milhões de euros (cerca de R$ 1,5 bilhão) que prevê um sistema de túneis subterrâneos para evitar danos de chuvas torrenciais.
O CCC 2030, como vem sendo chamado, deverá consumir 8,2 bilhões de euros (aproximadamente R$ 50 bilhões) até 2030, e prevê uma redução de 80% das emissões de gases de efeito estufa em relação aos níveis de 2002.
“Estão previstas várias políticas que incluem reabilitação de edifícios e praças e também a criação de áreas verdes que funcionem como refúgios climáticos”, diz o arquiteto Miguel Amado, do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa. A faculdade é referência em planejamento urbano e abastece o poder público com dados e projetos na área de sustentabilidade.
O CCC 2030 dá sequência a várias políticas urbanas que vêm sendo adotadas desde a primeira década do século. Em 2020, Lisboa recebeu da Comissão Europeia o prêmio de Capital Verde da Europa, sendo a primeira cidade do sul do continente a conquistar a honraria.
Na ocasião, o cartão de visitas da capital portuguesa era o sistema de “corredores verdes” — espaços arborizados ligando as praças e bosques da cidade.
A ideia surgiu na década de 1980 do século passado e saiu da prancheta de Gonçalo Ribeiro Teles (1922-2020), o decano dos paisagistas portugueses. Criador dos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, os mais famosos de Lisboa, Ribeiro Teles se definia como ecologista, monarquista e esquerdista.
“O objetivo era que ninguém ficasse sem um espaço de lazer, de passear, de correr, de andar de bicicleta a menos de 300 metros de sua casa”, disse Sá Fernandes à Folha. “Idealizamos esse esquema e o concretizamos em parte, o que nos garantiu o prêmio da Comissão Europeia — e depois não se fez mais nada.”
Disponíveis em vários portais públicos, os números de emissões de gases de efeito estufa mostram que Lisboa está numa situação melhor que a média da União Europeia e em linha com cidades de porte semelhante, como Estocolmo, Barcelona e Atenas.
Quando se olha o índice per capita, no entanto, o quadro é bem mais preocupante. Lisboa tem uma pontuação pior que metrópoles como Londres e Madri e se aproxima de Varsóvia, Paris e Berlim, as campeãs europeias de emissões.
O retrato que emerge dos números mostra um desafio claro: o excesso de automóveis movidos a combustíveis fósseis. Lisboa pontua bem nas áreas de consumo de renováveis e eficiência energética dos edifícios.
A cidade se beneficia da bem-sucedida transição para eólica e solar que vem ocorrendo na Península Ibérica — em janeiro deste ano 80% da energia consumida em Portugal veio de fontes renováveis. O boom turístico e imobiliário de Lisboa também impulsionou uma onda de restaurações de prédios antigos, que, com a modernização, se tornaram mais eficientes do ponto de vista energético.
O boom turístico e imobiliário, no entanto, também trouxe a gentrificação, que empurrou parte da classe média para os municípios da Área Metropolitana de Lisboa. A capital portuguesa tem uma semelhança com Paris: uma cidade relativamente pequena que se comporta como centro de uma grande conurbação.
Lisboa tem apenas 550 mil habitantes, enquanto sua área metropolitana —que inclui cidades de porte médio como Sintra, Almada, Oeiras, Cascais e Setúbal— atinge 2,8 milhões.
“O resultado é a entrada de cerca de 400 mil carros na cidade por dia, o que gera um trânsito completamente caótico”, diz Sá Fernandes.
A enxurrada de veículos se reflete nos números. Em 2019, os transportes movidos a combustíveis fósseis respondiam por 49% das emissões de gases de efeito estufa na cidade. Em 2023, o número aumentou para 60%.
Em contrapartida, as emissões oriundas de residências e comércio, onde predomina a eletricidade oriunda de fontes renováveis, caíram, respectivamente, 14% e 46%.
“A cidade também vem diminuindo o consumo de energia na iluminação pública, com a implantação de lâmpadas de LED, mais eficientes”, diz o arquiteto Miguel Amado.
Pode ser, no entanto, que tudo isso — novas linhas de transporte público, criação de “refúgios climáticos”, iluminação pública de LED — não seja suficiente para atingir a meta prevista no CCC 2030. Estima-se que de 2002 a 2023 a redução de emissões tenha sido da ordem de 53% —e faltam menos de quatro anos para se chegar aos almejados 80%.
Especialistas ouvidos pela reportagem consideram que a administração pública deveria dar sinais claros de compromisso com um futuro mais sustentável, em linha com outras cidades europeias que tocam projetos semelhantes. São sempre citados os casos de Copenhague, que praticamente substituiu os carros pelas bicicletas, e Paris, onde a prefeita Anne Hidalgo reduziu drasticamente a circulação de veículos no centro histórico.
“Como capital do país, Lisboa deveria dar o exemplo”, diz Sá Fernandes.
Fonte: Folha SP.
Foto: Claudia Maximino/Arquivo Pessoal.


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