Poucos projetos navais combinaram tantas soluções incomuns quanto o NR-1, embarcação operada pela Marinha dos Estados Unidos que unia propulsão nuclear, mergulho profundo e capacidade de trabalhar praticamente colada ao relevo submarino.
Compacto para os padrões militares, ele foi empregado em missões de busca, recuperação, pesquisa oceanográfica, levantamentos geológicos e instalação ou manutenção de equipamentos no fundo do mar.
Submersível nuclear único na história naval
A singularidade do veículo começava pela própria definição.
O U.S. Naval Undersea Museum o descreve como o primeiro e único submersível nuclear da Marinha americana, enquanto a documentação histórica da paraça o registra como uma plataforma de pesquisa e engenharia oceânica sem equivalente direto em sua categoria.
Não se tratava, portanto, de um submarino de combate em miniatura, mas de uma peça especializada para tarefas que exigiam permanência, precisão e observação contínua em grande profundidade.
Rodas retráteis permitiam “andar” no fundo do mar
O dado que mais o diferenciava aparecia abaixo da linha d’água…
O casco levava duas rodas retráteis de borracha, alojadas em poços na quilha, que podiam ser baixadas para manter distância fixa em relação ao leito marinho e facilitar o deslocamento durante operações delicadas com manipuladores e sensores.
Em material reproduzido no projeto JASON, da NASA, com conteúdo atribuído ao Departamento da Marinha, esse sistema é apresentado como um recurso para trabalhar sobre o fundo com mais estabilidade, algo raro mesmo entre submersíveis especializados.
Robert Ballard, em artigo publicado pelo U.S. Naval Institute, observou que o NR-1 passava a maior parte do tempo no mar sobre o fundo oceânico ou muito perto dele.
Essa característica ajudava a explicar por que a embarcação podia inspecionar áreas sensíveis, contornar obstáculos e executar tarefas minuciosas em regiões onde plataformas maiores, mais rápidas ou menos manobráveis tinham limitações operacionais claras.
Dimensões compactas e operação em grandes profundidades
As dimensões reforçavam essa condição fora do padrão.
Segundo o museu naval, o submersível tinha 145,8 pés de comprimento, o equivalente a cerca de 44,4 metros, diâmetro de 12,5 pés, aproximadamente 3,8 metros, e deslocamento de 366 toneladas longas, ou 410 toneladas curtas.
Sua velocidade submersa usual era de 3,5 nós, com máximo de 5 nós, e a profundidade operacional chegava a 3.000 pés, perto de 914 metros.
Para sustentar missões prolongadas, contava ainda com o apoio do navio SSV Carolyn Chouest, usado como plataforma logística e científica.
Autonomia nuclear e rotina austera a bordo
A autonomia vinha do reator nuclear, um dos pontos centrais do projeto.
De acordo com o U.S. Naval Undersea Museum, a tripulação de 11 submarinistas, todos certificados em propulsão nuclear, podia permanecer submersa por até 30 dias, com o limite definido basicamente por alimentação e insumos de purificação do ar.
Isso dava ao NR-1 uma permanência em profundidade incomum para um veículo de pesquisa, permitindo operações longas mesmo em áreas remotas e em janelas de mar mais difíceis.
Em contrapartida, a vida a bordo estava longe de ser confortável.
O espaço interno era extremamente apertado, com apenas quatro beliches em sistema de revezamento, sem chuveiro e com estrutura mínima para aquecer refeições, condição citada em relatos históricos sobre a rotina da embarcação e coerente com o diâmetro reduzido do casco.
A configuração privilegiava alcance, profundidade e capacidade de trabalho, não bem-estar prolongado para a tripulação, o que ajudou a consolidar a reputação do NR-1 como uma máquina altamente especializada e austera.
Sensores avançados e alta precisão operacional
A instrumentação embarcada também explicava sua relevância.
O conjunto incluía sonar lateral, sonar de desvio de obstáculos em grande profundidade, perfilador de subfundo, câmeras de baixa luminosidade, três vigias de observação, garra de recuperação, braço manipulador e quatro thrusters dutosos para aumentar a manobrabilidade em baixa velocidade.
Essa combinação permitia ao submersível mapear, observar, identificar e manipular objetos no leito oceânico com um nível de controle que, para a época, era particularmente valioso em operações científicas e de recuperação.
Origem do projeto e perfil híbrido entre ciência e defesa
A origem do programa ajuda a entender esse perfil híbrido entre engenharia militar e exploração submarina.
O projeto foi concebido sob a influência do almirante Hyman G. Rickover, nome central da era nuclear da Marinha dos EUA, e a configuração geral aproveitou referências já usadas em submarinos balísticos para reduzir custos e acelerar o desenvolvimento.
O resultado foi uma plataforma compacta, silenciosa e profunda, desenhada não para patrulha ofensiva, mas para permanecer sobre um alvo, examinar o terreno e operar com método em ambientes complexos.
Missões reais: resgates, arqueologia e exploração oceânica
Ao longo da carreira, o histórico de missões públicas consolidou essa vocação.
O museu naval registra a recuperação de um caça F-14 e de um míssil Phoenix perdidos no Atlântico, a busca por componentes do ônibus espacial Challenger em 1986, o levantamento do HMHS Britannic, a descoberta de naufrágios romanos no banco de Skerki e a investigação dos restos do encouraçado USS Monitor.
Não eram apenas operações vistosas: cada uma exigia localizar, documentar ou resgatar materiais em profundidade, muitas vezes sob condições de visibilidade e acesso difíceis.
No caso do USS Monitor, a atuação da Marinha aparece também em registros da NOAA.
O órgão informa que, após uma operação de 41 dias em 2002, a torre do navio foi içada com apoio da U.S. Navy, num dos trabalhos arqueológicos submarinos mais conhecidos já realizados em águas norte-americanas.
A participação do NR-1 nesse tipo de missão mostra como a embarcação podia servir tanto a objetivos técnicos e militares quanto a pesquisas históricas e científicas de grande visibilidade pública.
A utilidade do submersível apareceu também em campanhas voltadas à oceanografia.
Em 2007, na área do Flower Garden Banks, no Golfo do México, a NOAA registrou que o NR-1 foi levado à região por seu navio de apoio e passou a operar em profundidade para examinar zonas além do alcance do mergulho autônomo convencional.
Em outra frente, Ballard relatou uma campanha no sul da Islândia em que a embarcação percorreu picos vulcânicos a cerca de 3.000 pés, navegando muito perto da rocha sem tocá-la, o que ilustra a precisão que tornou o veículo tão raro em serviço.
Fim de operação e legado preservado
A trajetória operacional terminou em 21 de novembro de 2008, data de sua inativação informada pela documentação naval e por registros históricos da Marinha.
Parte do conjunto de controle foi preservada pelo U.S. Naval Undersea Museum, que recebeu equipamentos do veículo em maio de 2018, mantendo viva a memória de uma embarcação que reuniu, num mesmo casco, reator nuclear, rodas retráteis, sensores avançados e capacidade real de trabalhar como se o fundo do oceano fosse uma superfície de manobra.
Fonte: CPG – Click Petróleo e Gás.
Imagem: Reprodução.


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