A possibilidade de Veneza desaparecer sob as águas deixou de ser um cenário distante e passou a ser uma preocupação concreta para cientistas e autoridades.
Um dos principais destinos turísticos do mundo, Veneza corre risco existencial com o avanço das mudanças climáticas. Um novo estudo, publicado na revista Scientific Reports na quinta-feira (16), afirma que a cidade pode precisar ser parcialmente ou totalmente realocada diante da elevação do nível do mar. A pesquisa avaliou as estratégias possíveis de adaptação da cidade italiana com base nas projeções climáticas do IPCC, o painel climático da Organização das Nações Unidas (ONU).
De acordo com os pesquisadores, a conclusão é assustadora: nenhuma das medidas disponíveis hoje é capaz de preservar, no longo prazo, a estrutura urbana e o patrimônio histórico de Veneza como conhecemos.
A cidade, situada em uma lagoa costeira rasa e reconhecida como Patrimônio Mundial da Unesco, já enfrenta um aumento progressivo das inundações ao longo dos últimos 150 anos. O fenômeno foi intensificado em função da crise climática.
Em 2019, uma enchente severa causou mortes e prejuízos de centenas de milhões de euros, atingindo inclusive a Basílica de São Marcos. Mesmo com intervenções recentes, como barreiras de proteção e planos de restauração, há críticas e alertas já que essas soluções são apenas paliativas.
O estudo aponta três caminhos possíveis para o futuro da cidade. O primeiro envolve a construção de diques ao longo da costa, alternativa considerada necessária caso o nível do mar suba mais de 0,5 metro — situação que pode se concretizar ainda neste século. O custo projetado fica entre € 500 milhões e € 4,5 bilhões, cerca de R$ 2,7 bilhões e R$ 24 bilhões.
Uma segunda opção seria a construção de um “superdique” para fechar a lagoa, capaz de proteger Veneza mesmo com elevações severas do nível do mar. Nesse caso, os custos ultrapassariam € 30 bilhões e envolveriam impactos significativos no ecossistema local.
Por fim, a alternativa mais extrema é o abandono da cidade. Essa estratégia envolve a realocação de moradores, monumentos históricos e estruturas urbanas. Trata-se de uma operação gigantesca e emocionalmente impactante, com custo estimado em €100 bilhões. Além disso, essa decisão implicaria deixar a lagoa à mercê de águas mais profundas, quentes e salinas — cujos efeitos ainda são desconhecidos.
“Sem estratégia ideal para Veneza”
“A nossa análise mostra que não existe uma estratégia ideal para Veneza”, afirma o professor Robert Nicholls, do Tyndall Centre para Climate Change Research, na Universidade de East Anglia.
O autor do estudo afirma que a construção de intervenções de grande escala, como barreiras permanentes, pode demorar entre 30 e 50 anos, o que torna essencial um planeamento antecipado.
“Qualquer abordagem adotada tem de equilibrar vários fatores, incluindo o bem‑estar e a segurança dos habitantes de Veneza, a prosperidade económica, o futuro dos ecossistemas da lagoa, a preservação do património e as tradições e cultura da região”.
Nicholls defende que todas as zonas costeiras baixas e habitadas, como as Maldivas ou os Países Baixos, enfrentarão com a subida do nível do mar nos próximos séculos e devem reconhecer o desafio da subida do nível do mar a longo prazo e “começar já a ponderar as implicações em termos de adaptação”.
“Dado o elevado valor cultural de Veneza, estes custos estão claramente subavaliados e nenhuma medida de adaptação conseguirá manter, a longo prazo, a Veneza que hoje conhecemos”, acrescenta.
Por que sobem os níveis do mar em Veneza?
Veneza já se encontra em risco durante as marés vivas, devido à sua posição numa lagoa costeira pouco profunda.
Segundo os Royal Museums Greenwich, os ventos sazonais de siroco podem ainda provocar “marés de tempestade”, empurrando água através do mar Adriático para dentro da lagoa e em direção à cidade. Quando marés altas e marés de tempestade coincidem, as inundações podem ser extremas.
O aquecimento global está igualmente a acelerar a subida do nível do mar em todo o mundo, devido a uma combinação do derretimento de glaciares com a expansão térmica da água do mar à medida que aquece.
Para agravar, o solo de Veneza está atualmente afundando cerca de 1 mm por ano devido a movimentos naturais da crosta. Esta tendência foi intensificada pela atividade humana, como a extração de água subterrânea sob a lagoa, prática que, entretanto, foi proibida.
Um futuro incerto exige decisões urgentes e planejamento de longo prazo
Diante de tantas variáveis, especialistas ressaltam que a escolha não será simples. Equilibrar custos financeiros, preservação cultural e impactos ambientais é um desafio complexo que exige planejamento imediato. Isso porque projetos de engenharia dessa magnitude podem levar até 50 anos para serem implementados.
Além disso, o estudo destaca que os esforços globais para reduzir as emissões de gases de efeito estufa ainda são insuficientes. Portanto, mesmo com ações locais, o avanço do nível do mar tende a continuar por décadas ou séculos.
Nesse contexto, cientistas alertam que soluções radicais precisam começar a ser consideradas desde já. Caso contrário, a estratégia atual pode se tornar obsoleta antes mesmo do final deste século.
Fontes: Euronews, CPG – Click Petróleo e Gás, Um Só Planeta.
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