Por que o Brasil ainda investe mais na resposta a desastres do que na prevenção?

Enchentes, secas, deslizamentos de terra e queimadas não podem ser tratados como episódios “fora da curva” no Brasil. Nos últimos anos, esses fenômenos se tornaram cada vez mais frequentes e intensos, afetando cidades por todo o território. Embora a ciência tenha ampliado sua capacidade de prever riscos e emitir alertas, a prevenção ainda avança em ritmo muito mais lento do que a ocorrência dos desastres.

Os números ajudam a dimensionar esse cenário. Nos últimos 13 anos, 95% dos municípios brasileiros registraram ao menos um desastre natural, segundo levantamento da CNM (Confederação Nacional de Municípios). Nesse período, mais de 3,2 mil pessoas morreram e cerca de 494 milhões de foram afetadas.

Entre os eventos mais frequentes estão as secas e estiagens, responsáveis por cerca de 30 mil registros, seguidas pelos desastres relacionados ao excesso de chuvas, que somaram aproximadamente 22,8 mil ocorrências. Os impactos vão desde perdas agrícolas e interrupções no abastecimento de água até enchentes, deslizamentos e destruição de infraestrutura urbana.

Apesar desse histórico, o país ainda concentra seus esforços muito mais na reconstrução do que na prevenção. Segundo a CNM, entre 2013 e 2025 os municípios acumularam prejuízos estimados em R$ 785,4 bilhões provocados por desastres naturais. No mesmo período, os recursos federais destinados à prevenção e à resposta somaram cerca de R$ 9,5 bilhões — pouco mais de 1% do valor dos danos contabilizados.

“Manter o foco quase exclusivo na resposta e na recuperação significa agir apenas depois que o desastre já ocorreu, quando os custos são muito maiores e os danos à população, muitas vezes, irreversíveis”, afirma em entrevista à Revista Galileu, Paulo Ziulkoski, presidente da CNM.

Na avaliação da entidade, parte do problema está na forma como as responsabilidades foram distribuídas entre os diferentes níveis de governo. Embora a Constituição atribua à União a competência para planejar ações de defesa permanente contra calamidades públicas, Ziulkoski afirma que a Lei nº 12.608, de 2012 — que instituiu a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (PNPDEC) — transferiu grande parte da execução dessas políticas aos municípios, sem considerar as diferenças de capacidade estrutural e financeira entre cidades pequenas e grandes.

Os reflexos dessa desigualdade aparecem nos próprios dados da confederação. Cerca de 64% dos municípios brasileiros afirmam não estar preparados para enfrentar secas, incêndios, enchentes e outros eventos extremos. Mais da metade (55%) não possui sistemas de alerta ou alarme para desastres, enquanto 66% informam não desenvolver ações específicas de gestão climática. Outros 27% sequer atuam na área de prevenção, e 93% apontam a falta de recursos financeiros como o principal obstáculo para investir em adaptação e redução de riscos.

Para Ziulkoski, esse cenário reflete a dificuldade dos municípios em implementar medidas preventivas diante da burocracia e da insuficiência de recursos federais. “Diante da ausência de políticas públicas preventivas sólidas e de soluções definitivas, os Municípios sofrem os maiores impactos desses eventos, razões pelas quais a CNM aponta a urgência de capacitar a defesa civil local e corrigir essa disparidade, superando o ciclo de promessas governamentais nos momentos de crise”, afirma.

O Super El Niño

A perspectiva de um Super El Niño entre o fim de 2026 e o início de 2027 reforça o alerta sobre a necessidade de o Brasil se preparar melhor para eventos extremos. Embora o fenômeno faça parte da variabilidade natural do clima, pesquisadores afirmam que seus efeitos tendem a ser potencializados pelo aquecimento global, aumentando a probabilidade de secas severas, ondas de calor e chuvas intensas em diferentes regiões do planeta.

O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal durante vários meses. Essa alteração modifica a circulação da atmosfera e interfere na distribuição das chuvas e das temperaturas em diversos continentes. Quando o aquecimento das águas ultrapassa 2°C acima da média histórica, o fenômeno passa a ser classificado como muito forte, ou Super El Niño.

É justamente esse cenário que começa a ser desenhado pelos modelos climáticos. Em uma análise divulgada em 31 de julho, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em conjunto com outros órgãos federais, apontou que o fenômeno deve permanecer ativo pelo menos até o início de 2027.

Para o Brasil, os impactos devem variar de acordo com a região. Segundo Pedro Camarinha, diretor substituto do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a tendência é de intensificação das ondas de calor no centro-oeste, agravamento da crise hídrica e das queimadas em parte do sudeste e aumento do volume de chuvas na região sul. “O que sabemos é que eventos que antes ocorriam a cada 50 ou 100 anos estão acontecendo a cada 20 ou 10 anos”, afirma.

Embora o El Niño não seja responsável por todos os desastres registrados no país, ele pode intensificar eventos extremos em regiões já vulneráveis. Por isso, Camarinha reforça a importância da preparação e do acesso à informação, mas alerta contra o alarmismo. “Muitas pessoas tiveram traumas recentes, e isso está sendo muito resgatado por esse tipo de comunicação indiscriminada”, afirma.

O exemplo do Rio Grande do Sul

As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 se transformaram em um marco da vulnerabilidade brasileira diante dos eventos extremos. Em poucas semanas, cidades inteiras ficaram submersas, centenas de milhares de pessoas foram deslocadas e a infraestrutura do estado entrou em colapso. Mais do que uma tragédia provocada pelo excesso de chuva, o episódio expôs as dificuldades de coordenação entre governos, equipes de emergência e voluntários diante de um desastre de proporções inéditas.

Para Camarinha, o episódio também confirmou tendências que a ciência já observava havia décadas. Em um estudo sobre o desastre, ele e outros pesquisadores identificaram que os extremos de precipitação na região sul vêm se tornando mais frequentes e intensos desde a década de 1950. A pesquisa aponta o fenômeno El Niño-Oscilação Sul como um dos principais fatores associados à variabilidade das chuvas na região.

Enquanto a água avançava sobre Porto Alegre e municípios vizinhos, outro problema começava a surgir: milhares de voluntários queriam ajudar, mas faltava uma forma eficiente de coordenar os resgates. Foi nesse contexto que a profissional de Relações Públicas Mely Paredes, ex-docente da UniRitter e mestre em Políticas Públicas, passou a integrar uma iniciativa que se tornaria essencial durante a crise. Ao lado dos professores Sandra Henriques e Jean-Paul Lopes, ela criou a plataforma digital “Salve RS”, que reuniu pedidos de socorro e ajudou a coordenar mais de 21 mil resgates em áreas alagadas.

“Muitos voluntários estavam chegando, mas não existia uma forma de conduzi-los para as áreas de resgate, porque o GPS não funcionava. Não existiam mais ruas”, lembra.

A equipe desenvolveu um formulário capaz de funcionar mesmo em condições precárias de conexão. As informações enviadas pelas vítimas eram cruzadas com dados sobre correntezas, rotas acessíveis e localização das embarcações, permitindo direcionar equipes de resgate para quem mais precisava de ajuda.

O sistema também ajudou famílias separadas pela enchente. “Tinha gente abrigada em uma cidade a mais de 50 quilômetros de distância de casa, sem celular e sem saber onde estavam os seus [amigos e parentes]”, recorda Paredes.

Para ela, a tragédia evidenciou a falta de planos de resiliência capazes de integrar universidades, órgãos públicos, empresas e sociedade civil. Embora a burocracia e a fragmentação política dificultem essa coordenação, a mobilização espontânea da população ajudou a suprir parte dessas lacunas. “O brasileiro é fazedor, é sobrevivente”, resume.

O que impede o Brasil de se preparar melhor

Embora a ciência tenha ampliado sua capacidade de prever eventos extremos e emitir alertas cada vez mais precisos, transformar essa experiência em políticas públicas continua sendo um desafio. Para Victor Marchezini, sociólogo do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o Brasil avançou nos últimos anos na produção de conhecimento sobre riscos climáticos, mas ainda enfrenta dificuldades para fortalecer as estruturas responsáveis por agir antes que as tragédias aconteçam.

Um dos principais obstáculos está na própria organização das Defesas Civis municipais. Em muitas cidades, elas operam com equipes reduzidas, poucos recursos e alta rotatividade de servidores. Em alguns casos, explica o pesquisador, praticamente toda a equipe é substituída a cada troca de governo, comprometendo a continuidade de projetos, treinamentos e protocolos construídos ao longo dos anos.

Fonte: Revista Galileu.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil.

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