Sistema usa bolhas para conter plástico nos rios

Durante décadas, o combate à poluição marinha concentrou-se no oceano aberto, onde milhões de toneladas de plástico já circulam livremente. Mas cientistas e engenheiros europeus decidiram atacar o problema em um ponto muito mais estratégico: antes que o lixo chegue ao mar. Foi assim que surgiu a chamada Great Bubble Barrier, um sistema aparentemente simples, mas tecnologicamente sofisticado, que usa apenas ar comprimido para criar uma barreira invisível capaz de capturar a maior parte do plástico transportado pelos rios.

Instalada inicialmente em canais urbanos da Holanda, a tecnologia mostrou resultados concretos, medidos em eficiência real, e rapidamente passou a ser considerada uma das abordagens mais promissoras do mundo para conter a poluição plástica de forma contínua, escalável e com baixo impacto ambiental.

Por que os rios se tornaram o foco central da batalha contra o plástico

Estudos científicos indicam que a maior parte do plástico que chega aos oceanos vem de rios, especialmente aqueles que atravessam grandes centros urbanos e áreas industriais. Uma vez no mar, a recuperação se torna extremamente difícil, cara e muitas vezes inviável. No ambiente fluvial, porém, o lixo ainda está concentrado, previsível e tecnicamente interceptável.

O sistema consiste em um tubo perfurado instalado no leito do rio e conectado a uma bomba de ar que cria uma cortina ascendente de bolhas. Posicionada diagonalmente em relação ao fluxo da água, ela conduz naturalmente o resíduo e outros materiais flutuantes suspensos na coluna d’água até um ponto de coleta na margem. A tecnologia cobre toda a largura e profundidade do rio, sem bloquear a passagem de peixes nem interferir no tráfego de embarcações.

A eficiência do sistema foi validada por universidades e institutos de pesquisa independentes, que apontaram uma taxa de captura de aproximadamente 86% do plástico presente na superfície da água. “Esse número é de fato bastante estável”, afirma Anne Marieke Eveleens, diretora de desenvolvimento de negócios da empresa. Atualmente, a Great Bubble Barrier está em operação em Amsterdã, Katwijk e Harlingen, na Holanda, e nas proximidades de Vila do Conde, em Portugal. Novas instalações estão em discussão na Europa e nos Estados Unidos.

Globalmente, menos de 10% do plástico é reciclado. O restante acaba chegando aos cursos d’água devido ao gerenciamento inadequado de resíduos ou por acidentes. Embora a limpeza de praias e as iniciativas de coleta no oceano sejam importantes, elas não conseguem atender à dimensão do problema. “A produção de plástico só aumenta”, diz Eveleens. “Esperamos que triplique até 2030. A demanda por esse material é muito alta. Usamos plástico em todas as nossas atividades diárias e, ao mesmo tempo, não sabemos realmente o que fazer com ele quando chega ao fim de sua vida útil.” Para a empresa, capturar o material ainda nos rios, antes que ele se disperse pelo oceano aberto, é uma estratégia muito mais eficiente.

A próxima meta é expandir a tecnologia para o Sudeste Asiático, região que concentra alguns dos rios mais poluídos do planeta. Mas o desafio vai além da engenharia. “É preciso garantir que as licenças estejam em vigor e que exista um sistema de coleta de resíduos para que nosso lixo não acabe alguns metros mais adiante no rio”, explica Eveleens.

Trabalhamos em conjunto com as comunidades locais, pedimos a ajuda delas para descobrir qual é o objeto mais frequente que encontramos e se podemos fazer algo a respeito localmente.” Cada nova instalação exige coordenação entre governos, gestores locais de resíduos e comunidades.

Segundo a empresa, o reconhecimento recebido com o Prêmio Earthshot, a premiação ambiental global do Príncipe William, acelerou a expansão internacional da solução. “Em quase todos os lugares do mundo que visitamos, as pessoas já ouviram falar de uma barreira de bolhas”, afirma Eveleens. “Isso nos impulsionou enormemente a internacionalizar e levar nossa solução para onde ela é necessária.” Além de remover resíduos dos rios, cada instalação gera informações sobre o que foi capturado, indicando quais tipos de plástico aparecem com maior frequência, onde e em que período.

“Quase em todo o lado aonde vamos no mundo, as pessoas já ouviram falar de uma barreira de bolhas”, diz Eveleens à Euronews Earth. “Isso deu-nos um impulso enorme para internacionalizar e levar a nossa solução aos locais onde é mais necessária.”

Para o futuro, Eveleens quer ver barreiras instaladas em focos de poluição nas grandes cidades do mundo, não só a recolher resíduos, mas também a gerar dados que possam orientar políticas públicas.

“Todos estes dados que estamos a recolhendo são também uma forma de criar novas políticas que evitem que o problema aconteça”, explica. “Ver estas barreiras a surgir em todos os pontos cruciais do mundo seria o maior sonho.”

Uma linha de defesa invisível, mas decisiva

À primeira vista, a ideia de barrar lixo com bolhas de ar parece frágil demais para um problema global. Mas os dados mostram o contrário. A Great Bubble Barrier prova que soluções inteligentes, baseadas em física simples e engenharia bem aplicada, podem superar abordagens pesadas, caras e invasivas.

Ao criar uma barreira invisível sob a água, o projeto não apenas intercepta plástico, mas redefine o conceito de infraestrutura ambiental: discreta, contínua, eficiente e adaptada à convivência com cidades, rios e ecossistemas.

Se replicada em escala global, especialmente nos rios mais poluídos do planeta, essa cortina de bolhas pode se tornar uma das ferramentas mais importantes na luta para impedir que o plástico continue dominando os oceanos.

Fontes: Ciclo Vivo, Euronews, CPG – Click Petróleo e Gás.

Foto: Pixabay.

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