A crise ambiental pode estar deixando marcas não apenas nos ecossistemas, mas também na saúde emocional da população. Um estudo realizado pela Natura em parceria com a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) identificou que 44,7% dos participantes apresentaram pontuação acima do limiar clínico para ansiedade em uma pesquisa que investigou os efeitos emocionais da degradação ambiental.
O levantamento faz parte do Projeto Apoena, desenvolvido pela área de Ciências do Bem-Estar & Neurociências da Natura, e combinou conhecimentos de neurociência e psicologia com inteligência artificial para investigar a relação entre saúde mental e problemas como eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e degradação dos ecossistemas.
O estudo também validou a primeira escala científica brasileira voltada à mensuração da solastalgia, termo usado para descrever o sofrimento psicológico provocado pela deterioração do ambiente em que a pessoa vive.
Batizada de BSS-Br (Brief Solastalgia Scale – versão brasileira), a ferramenta foi aplicada a mais de 1.750 participantes de diferentes regiões e faixas etárias do país. Segundo a pesquisa, a média nacional foi de 3,90 em uma escala de 1 a 5, indicando níveis moderados a altos de sofrimento associado à perda da natureza.
Entre os sinais avaliados, a preocupação com o desaparecimento definitivo de elementos únicos da natureza foi o mais frequente, mencionada por 88% dos participantes.
As maiores pontuações de sofrimento foram observadas em áreas urbanizadas das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. O estudo relaciona esse padrão à exposição a fenômenos como queimadas, poluição e eventos climáticos extremos.
Uma das frentes mais inovadoras do projeto foi investigar se o sofrimento relacionado à degradação ambiental poderia ser identificado também por meio da voz.
Os pesquisadores analisaram pequenos áudios gravados pelos participantes e compararam 68 características acústicas entre pessoas com níveis altos e baixos de solastalgia. Foram identificados dez fatores capazes de explicar 57% da variação nos indicadores de bem-estar subjetivo.
Os resultados apontam uma associação entre determinados padrões vocais e níveis mais elevados de sofrimento ecoafetivo, abrindo uma frente de pesquisa para o desenvolvimento de ferramentas de monitoramento da saúde mental.
“A voz registra mudanças fisiológicas e emocionais que muitas vezes passam despercebidas. O que observamos é que experiências relacionadas ao sofrimento ambiental também deixam marcas nesses padrões vocais”, afirma Lucas Murrins, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
Segundo o pesquisador, a descoberta pode contribuir para pesquisas sobre formas mais acessíveis e preventivas de acompanhamento de populações vulneráveis ou afetadas por eventos extremos, como enchentes e secas prolongadas.
O estudo também identificou fatores associados a maior bem-estar e formas de enfrentamento diante das incertezas ambientais.
Permanecer em casa para descanso e lazer foi apontado como a principal fonte de lazer por 47,9% dos participantes. Entre as mulheres entrevistadas, o banho diário apareceu como uma das principais práticas associadas ao bem-estar, citado por 87% delas. Práticas de autocuidado com pele e cabelos vieram em seguida, com 71,9%.
O levantamento também encontrou uma associação positiva entre o cultivo de plantas em casa e indicadores de bem-estar. Para a Natura, os resultados reforçam a importância de ampliar o contato cotidiano com a natureza e de incorporar práticas de autocuidado às estratégias de prevenção e promoção da saúde emocional diante das mudanças ambientais.
“O Projeto Apoena traduz a forma como a Natura entende a ciência, conectada aos desafios reais da sociedade. Ao unir diferentes áreas do conhecimento, conseguimos transformar um fenômeno ainda pouco mensurado em evidências capazes de orientar pesquisas e novas formas de promover bem-estar”, afirma Manuel Rios, diretor executivo de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da companhia.
O projeto dá continuidade à atuação da empresa em pesquisas sobre bem-estar, comportamento humano e relação com a natureza. A Natura afirma que desenvolve, há mais de 25 anos, cadeias produtivas com comunidades amazônicas e mantém iniciativas relacionadas a populações afetadas por eventos climáticos extremos e à regeneração ambiental.
Fonte: Um Só Planeta.
Foto: Getty Images.


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