À medida que cresce a preocupação com um possível El Niño de forte intensidade entre o fim de 2026 e o início de 2027, um estudo do MapBiomas reforça a importância da preservação ambiental como estratégia para enfrentar eventos climáticos extremos. Dados divulgados pela iniciativa mostram que áreas onde a vegetação nativa foi mantida sofreram menos impactos dos episódios recentes do fenômeno, enquanto regiões dominadas pela agropecuária registraram efeitos mais severos de secas e alterações no regime de chuvas.
A conclusão ganha relevância para o Rio Grande do Norte, estado que historicamente enfrenta redução das chuvas durante episódios de El Niño e que está entre os beneficiados por um pacote federal de R$ 1,3 bilhão voltado à mitigação dos impactos climáticos. As medidas foram anunciadas pela ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, e incluem ações de segurança alimentar, combate a incêndios florestais, monitoramento climático e obras de segurança hídrica.
O levantamento do MapBiomas aponta que a cobertura de vegetação nativa do Brasil caiu de 79% para 65% do território entre 1985 e 2025. No mesmo período, a agropecuária ampliou sua presença de 18% para 32% da área nacional. O cruzamento dessas informações com dados climáticos revelou que os efeitos dos anos de El Niño tendem a ser mais intensos em áreas onde predominam atividades agropecuárias do que em regiões com cobertura vegetal preservada.
A análise considerou três episódios recentes de forte El Niño, 1997/98, 2015/16 e 2023/24, e identificou um agravamento dos extremos de precipitação. Os pesquisadores observaram que a redução das chuvas vem se intensificando em diferentes regiões do país, tornando áreas já transformadas pelo desmatamento e pela expansão agropecuária mais vulneráveis aos efeitos do fenômeno.
Para o meteorologista e pesquisador Rafael Fernandes, os dados reforçam a necessidade de preparação antecipada no semiárido nordestino. “O El Niño é um aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico que altera a circulação atmosférica em várias partes do planeta. No Nordeste brasileiro, esse fenômeno costuma reduzir a ocorrência de chuvas, aumentando o risco de estiagens mais prolongadas e seus impactos sobre o abastecimento de água, a agricultura e a geração de energia”, explicou à Agência Saiba Mais.
Segundo ele, os efeitos já são conhecidos pelos estados do semiárido. “Historicamente, os episódios de El Niño costumam provocar redução das chuvas no semiárido potiguar, o que exige planejamento antecipado”, afirmou.
As projeções para os próximos meses também preocupam especialistas. De acordo com o Painel El Niño 2026-2027, elaborado por órgãos como Inmet, Inpe, Agência Nacional de Águas (ANA) e Cemaden, o Nordeste pode enfrentar um cenário de chuvas abaixo da média e temperaturas acima do normal.
Diante desse cenário, o governo federal anunciou medidas voltadas à ampliação da oferta de água e à prevenção de desastres ambientais. Entre as ações previstas para o Nordeste estão a contratação de brigadistas federais, aquisição de equipamentos para combate a incêndios florestais e reforço do monitoramento ambiental.
O Rio Grande do Norte também está entre os estados contemplados por obras associadas ao Projeto de Integração do Rio São Francisco. Segundo o governo federal, os investimentos na transposição beneficiam cerca de 12 milhões de pessoas em quatro estados nordestinos. Além disso, o estado integra a lista de unidades da federação que receberão recursos para obras de segurança hídrica fora do sistema da transposição, incluindo construção e recuperação de adutoras, canais, cisternas, reservatórios e barragens.
Na área da segurança alimentar, o governo anunciou a compra de 180 mil toneladas de milho e 310 mil toneladas de arroz para recompor estoques públicos. Também serão adquiridas 350 mil cestas de alimentos destinadas a povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, pescadores artesanais e agricultores familiares, grupos considerados mais vulneráveis aos impactos da seca.
Para o MapBiomas, os dados indicam que a preservação da vegetação nativa tem papel importante na capacidade dos territórios de enfrentar eventos climáticos extremos. O coordenador-geral da iniciativa, Tasso Azevedo, destaca que, embora o desmatamento tenha desacelerado nos últimos anos, muitas regiões brasileiras já passaram por transformações profundas que reduziram sua resiliência climática.
“Essa desaceleração imprime um ritmo menor de transformação da cobertura da terra, porém muitas regiões do Brasil já passaram por mudanças profundas nas últimas quatro décadas, o que afeta a sua resiliência aos eventos climáticos extremos, como o El Niño iniciado em 2026”, afirmou.
Para um estado semiárido como o Rio Grande do Norte, onde a redução das chuvas costuma ser um dos principais efeitos do fenômeno, a combinação entre conservação ambiental, planejamento hídrico e monitoramento climático aparece como uma das principais estratégias para reduzir os impactos do El Niño nos próximos meses.
Fonte: Agência Saiba Mais.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.


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