Uma em cada nove aves migratórias está ameaçada de extinção, e 45% das espécies migratórias — como cucos, rolas-bravas e andorinhas-do-ártico — apresentam declínio populacional, segundo um relatório global.
O maçarico-de-bico-fino (*Numenius tenuirostris*), uma espécie migratória, foi oficialmente declarado extinto no ano passado; tratou-se da primeira extinção global de uma ave na Eurásia continental e na África em séculos recentes. Em todo o mundo, confirmou-se ou suspeita-se que sete espécies de aves migratórias tenham sido extintas nos últimos 150 anos.
As ameaças às aves migratórias — causadas majoritariamente por atividades humanas e que incluem a intensificação da agricultura, a caça insustentável, a poluição, espécies invasoras e o aquecimento global — foram apontadas no relatório *State of the World’s Birds* (Estado das Aves no Mundo).
Aves marinhas e aves limícolas (que frequentam áreas úmidas costeiras), dependentes de habitats marinhos e zonas úmidas litorâneas, enfrentam uma situação particularmente crítica, de acordo com a análise realizada a cada quatro anos pela BirdLife International.
Stuart Butchart, cientista-chefe da BirdLife International, afirmou: “As aves migratórias são sentinelas, e seu declínio revela a pressão crescente sobre os sistemas naturais que nos sustentam. No entanto, a ciência é igualmente clara: a conservação funciona, e ações coordenadas evitam extinções e ajudam na recuperação das populações. As soluções existem; o que é necessário agora é implementá-las em toda a extensão das rotas migratórias.”
As ameaças às aves migratórias incluem a perseguição; estima-se que entre 13,1 milhões e 42,7 milhões de aves migratórias sejam mortas ou capturadas ilegalmente a cada ano na Europa, no Mediterrâneo, no Cáucaso e na Península Arábica. Muitas delas são aves canoras capturadas em redes de neblina ou em varetas com visgo para consumo humano.
Espécies invasoras, como roedores introduzidos acidentalmente em pequenas ilhas onde aves marinhas se reproduzem, também ameaçam as aves migratórias.
A perda ou degradação de habitats naturais é outra causa principal. Segundo o relatório, o monitoramento científico realizado na última década constatou que mais da metade (58%) das 1.099 áreas-chave de biodiversidade para aves migratórias encontra-se em condições precárias ou muito precárias.
No entanto, o relatório destaca como ações de conservação — muitas vezes transfronteiriças — estão permitindo a recuperação de algumas espécies.
A erradicação de coelhos, gatos, roedores e da ave weka — espécies não nativas — da Ilha Macquarie, na Austrália (um importante local de reprodução para aves marinhas), levou ao ressurgimento de populações de aves marinhas migratórias, incluindo o petrel-azul, o petrel-cinzento, o petrel-de-cabeça-branca e o prion-antártico.
Na China, um programa nacional ambicioso para remover a *Spartina alterniflora* (uma gramínea norte-americana introduzida em 1979 para estabilizar áreas de lama costeiras visando o desenvolvimento) restaurou 37.553 hectares — metade da área total — logo no primeiro ano, disponibilizando novamente para as aves limícolas áreas de lama ricas em alimento.
Na Grã-Bretanha, a restauração de áreas úmidas em terras agrícolas ameaçadas pela erosão costeira na Ilha Wallasea, em Essex, resultou no retorno de mais de 32.000 aves aquáticas ao local, incluindo 11.270 exemplares de seixoeira (*Calidris canutus*).
Durante a cúpula realizada no Quenia, foram apresentados planos do Banco Asiático de Desenvolvimento para mobilizar US$ 3 bilhões na próxima década visando proteger pelo menos 50 áreas úmidas prioritárias ao longo da rota migratória da Ásia Oriental e Australásia; os recursos também apoiarão cerca de 200 milhões de pessoas que dependem desses ecossistemas. O Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe está mobilizando entre US$ 3 bilhões e US$ 5 bilhões até 2050 para preservar mais de 30 paisagens terrestres e marinhas. Além disso, o Banco Mundial e a BirdLife comprometeram bilhões de dólares para apoiar rotas migratórias na África, Europa e Ásia, utilizadas por mais de 2 bilhões de aves migratórias.
A Princesa Takamado, do Japão, presidente honorária da BirdLife International, afirmou: “As aves migratórias não reconhecem fronteiras. Elas conectam a Ásia à África, o Ártico aos trópicos. A Declaração de Nairóbi sobre Rotas Migratórias reconhece essa realidade: a necessidade de cooperação e coordenação internacionais para garantir a segurança das aves migratórias. Sinto-me entusiasmada e orgulhosa ao ver a comunidade científica, as organizações de conservação e o setor financeiro unindo paraças para concretizar isso. Estamos diante de um momento decisivo. Esperamos por esse instante há muito tempo.”
Martin Harper, diretor executivo da BirdLife International, também classificou a Declaração de Nairóbi como um marco decisivo, mas ressaltou que governos, empresas e a sociedade civil precisam desempenhar o seu papel. “Os bancos de desenvolvimento estão assumindo o desafio. A parceria BirdLife está pronta para agir. Agora, precisamos que outros também se engajem para reverter o declínio das populações de aves e preservar a maravilha da migração.”
Fonte: The Guardian.
Foto: Travel/Alamy.


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