Ultrapassar 1,5°C não pode ser normalizado

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente reconhece que o planeta deverá ultrapassar o limite de aquecimento de 1,5°C. O desafio agora seria limitar a intensidade e a duração dessa ultrapassagem – o chamado overshoot – e tentar fazer a temperatura retornar posteriormente ao patamar estabelecido pelo Acordo de Paris.

A mudança é histórica. Passamos do compromisso de evitar a ultrapassagem para uma estratégia de retorno futuro. Isso não significa que a meta de 1,5°C perdeu importância, mas evidencia o fracasso das políticas climáticas adotadas até aqui.

O risco é transformar esse reconhecimento em conformismo. Mesmo que a temperatura global possa ser reduzida no futuro, os danos produzidos durante o período de maior aquecimento não serão automaticamente revertidos. Mortes causadas por ondas de calor, enchentes e deslizamentos, deslocamentos populacionais, destruição de infraestrutura, perda de biodiversidade e colapso de ecossistemas permanecerão. Florestas tropicais, recifes de coral, manguezais, zonas úmidas costeiras e regiões polares podem ultrapassar limites críticos. Alguns desses processos poderão tornar-se irreversíveis.

Também é perigoso fundamentar essa trajetória na expectativa de que tecnologias futuras retirarão enormes quantidades de carbono da atmosfera. A restauração de florestas, solos e áreas úmidas será indispensável, mas possui limites ecológicos e territoriais. As tecnologias de captura e armazenamento de carbono, por sua vez, ainda não demonstraram capacidade de operar na escala exigida. A remoção de carbono deve complementar – nunca substituir – a redução imediata das emissões e a transição para além dos combustíveis fósseis.

Adaptação não pode continuar em segundo plano

O reconhecimento da provável ultrapassagem de 1,5°C também altera profundamente a agenda da adaptação climática. Eventos extremos mais intensos já atingem cidades, áreas rurais, regiões costeiras e ecossistemas naturais. Seus efeitos, entretanto, não são distribuídos igualmente. Populações de baixa renda, comunidades tradicionais e moradores de territórios sujeitos a enchentes, secas, deslizamentos e ondas de calor enfrentam os maiores riscos, embora tenham contribuído menos para o problema.

A adaptação precisa deixar de ser um conjunto de projetos isolados e passar a orientar o planejamento territorial, os investimentos públicos e as políticas de habitação, saneamento, saúde e proteção ambiental.

Planos diretores, zoneamentos, obras de infraestrutura e processos de licenciamento ainda utilizam parâmetros baseados no clima do passado. Esse modelo tornou-se tecnicamente insuficiente. As decisões atuais precisam considerar os cenários climáticos futuros e os efeitos cumulativos das transformações territoriais.

A proteção e a recuperação dos ecossistemas são parte essencial dessa resposta. Florestas, manguezais, várzeas, áreas úmidas, rios urbanos e espaços verdes ajudam a reduzir temperaturas, armazenar carbono, regular o ciclo da água e proteger populações contra eventos extremos. Mas as soluções baseadas na natureza não devem servir como compensação para políticas que continuam ampliando emissões, desmatamento e vulnerabilidade. Elas precisam integrar uma estratégia mais ampla de transformação econômica e territorial.

A ultrapassagem de 1,5°C não é uma passagem segura. Quanto mais elevado e prolongado para o overshoot, maiores serão as perdas e a possibilidade de danos irreversíveis. Cada décimo de grau evitado representa vidas, territórios e ecossistemas preservados. Reconhecer a gravidade do momento deve fortalecer – e não enfraquecer – a urgência da ação climática.

Fonte: ((O))eco.

Foto: Reuters/Folhapress.

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