Antes de saber o nome de um candidato, o eleitor costuma pesquisar alguns detalhes como o número na urna, o partido, talvez uma polêmica recente. Mas poucas dessas buscas chegam a um dado que deveria pesar bem mais na decisão de voto: se aquele candidato está envolvido com a destruição de florestas. E para piorar, tem muitos que, apesar de infratores, seguem recebendo crédito rural.
Levantamento do Greenpeace Brasil a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do Ibama e do Banco Central do Brasil (BACEN) encontrou exatamente esse cruzamento.
As informações demonstram que uma pessoa candidata a cargos públicos, além de ter uma multa ambiental ativa no currículo, pode continuar recebendo financiamento pelo crédito rural, que conta com recursos e subsídios públicos, para investir em propriedades rurais.
Candidatos de 2026 que possuem de multas ambientais registradas entre 2008 e 2026 e acesso à concessão de crédito rural entre 2013 e 2026.
– Carlos Ernesto Augustin, MT, PSB
– Ulisses Vieira Coutinho Dos Santos, MT, PL
– Maurício Buffon, TO, PL
– Francisco Guarnieri De Lima, MT, PSDB
– Carlos Vinicios De Melo Vieira, MT, MDB
– Anderson Menezes, SE, PSD
– Reinaldo Azambuja Silva, MS, PL
– Abmael Borges Da Silveira, MT, PL
– Alcides De Andrade Neto, AL, PL
– Ederildo Paparico Bacchi, RS, PL
– Ederildo Paparico Bacchi, TO, Podemos
– Luciano Pereira De Oliveira, TO, PSD e
– Daniel Rodrigo Andrade Andraschko, PR, Podemos.
O retrato dos candidatos multados
Entre 2008 e 2026, 137 candidatos de 21 partidos diferentes acumularam ao menos uma multa ambiental, principalmente por infrações à flora, como desmatamento e queimadas ilegais.
No total, esse histórico de multas soma R$ 161,5 milhões, e mais da metade ainda ativa, ou seja, R$ 84,2 milhões não foram pagos, cancelados, substituídos ou suspensos.
Candidatos infratores (por partido)
Quantidade de candidatos de 2026 com histórico de multas ambientais, independente do status, entre 2008 e 2026:
Partido Liberal (PL): 20
Movimento Democrático Brasileiro (MDB): 15
Podemos: 13
Partido Novo: 10
Partido Social Democrático: 10
Republicanos: 10
Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB): 8
Progressistas (PP): 7
União Brasil: 7
Democracia Cristã (DC): 6
Partido Renovação Democrática: 5
Partido Socialista Brasileiro (PSB): 5
Partido dos Trabalhadores (PT): 4
Avante: 3
Democrata: 3
Partido Democrata Trabalhista (PDT): 3
Partido Verde (PV): 3
Agir: 2
Mobilização Nacional (PNM): 1
Partido Comunista do Brasil (PCdoB): 1
Solidariedade: 1
Crédito rural para candidatos infratores ambientais
O levantamento também mostra como 25 candidatos com multa ambiental registrada acessaram, juntos, R$ 253,6 milhões em crédito rural entre 2013 e 2026. Olhando por partido, o PL concentra R$ 118,1 milhões desse total (46,5%), seguido do PSB com R$ 69 milhões (27,2%).
Juntos, os dois respondem por quase 3/4 de todo o crédito do grupo. Um segundo pelotão traz PSDB, União Brasil, PSD e Podemos.
Um recorte menor, de 17 nomes com multas ainda ativas e não quitadas somando R$ 11,2 milhões, acessaram R$47,6 milhões em crédito rural no mesmo período.
O fato de candidatos a cargos públicos possuírem registros de infração ambiental, sobretudo multa, é recorrente no Brasil. Se incluirmos na conta todas as candidaturas entre 2012 e 2026, o total em crédito rural liberado a candidatos infratores entre 2013 e 2026 chegam ao inacreditável valor de R$ 1,37 bilhão. Os estados do Mato Grosso, Maranhão, Pará e Tocantins concentram o maior volume de crédito a infratores entre 2013 e 2026.
E, se nada para feito, continuaremos bancando a destruição ambiental e elegendo infratores.
As brechas que estão ‘Bancando a Extinção‘
O total de crédito rural liberado para os 25 candidatos multados que obtiveram financiamento, R$ 253,6 milhões, é mais do que o dobro do total das multas devidas pelos 137 candidatos multados, R$ 113,2 milhões.
Neste caso, existe mais dinheiro indo em direção a infratores do que dinheiro voltando aos cofres públicos por conta de infrações ambientais. Isso levanta um questionamento importante, já que o crédito rural conta com recursos e subsídios públicos: o povo brasileiro estaria, involuntariamente e inadvertidamente, pagando pela destruição, além de todo o impacto que já sofre com isso?
No Brasil, uma multa ambiental, por maior que seja, não torna uma pessoa inelegível, tampouco impede um produtor de acessar o crédito rural, e o dinheiro segue fluindo porque, pela regulamentação vigente, as restrições são limitadas.
Uma infração ambiental pode ter como penalidade a multa ou o embargo, ou ambos, mas apenas propriedades rurais com ocorrência de embargo por desmatamento são alvo de restrição ao crédito rural.
Embargos por uso ilegal do fogo ainda não entram nessa restrição, e quem incendeia pode seguir pegando empréstimo normalmente, ou quem apresenta uma ficha suja de multas ambientais, como evidenciado neste levantamento.
Regras atuais para a concessão de Crédito Rural
São brechas e detalhes técnicos que muitas vezes parecem um contrassenso, e são brechas como essas que permitem que o dinheiro continue chegando a infratores ambientais.
O relatório Bancando a Extinção – bancos e investidores como sócios no desmatamento publicado pelo Greenpeace Brasil em 2024, demanda ao BACEN e às instituições financeiras maior rigor nos critérios para a concessão de financiamentos, entre outros aprimoramentos, recomendando a consideração de todos os tipos de infrações ambientais para impedir acesso ao crédito, em detalhes:
– ocorrência de infrações ambientais (muito mais amplo que apenas embargo);
– que se apliquem a qualquer tipo de infração (e não apenas àquelas relacionadas ao desmatamento);
– e também se apliquem ao CPF do proponente, independentemente de onde se registrou a multa ou embargo.
Quem vota as regras que os protegem
Outras decisões tomadas no âmbito do Legislativo e do Executivo são propostas e votadas, entre outras, pelos mesmos partidos que concentram os nomes multados. Eles também tentam influenciar quais, como e quando as regulações do crédito rural serão aplicadas, o que acaba por beneficiar parte da própria base eleitoral dessas siglas. São políticos desses partidos que também decidem o desenho do licenciamento ambiental, o orçamento destinado à fiscalização do Ibama, dentre outras. Esses políticos legislam pelo povo ou em benefício próprio?
Compreender esse ciclo é essencial nas eleições de 2026, e o cruzamento de dados públicos por organizações da sociedade civil, como o Greenpeace Brasil, ajuda a trazer transparência e informação tão necessárias para uma democracia plena e para a defesa do meio ambiente.
Então, antes de decidir o voto, vale a pena descobrir não só quem já foi multado, mas quem terá poder para influenciar essas e outras importantes decisões.
Há algumas ferramentas que auxiliam nessa pesquisa a partir do histórico de decisões tomadas por legisladores, como Farol Verde, da Virada Parlamentar Sustentável e Monitor do Congresso, ((o))eco.
A proposta da campanha #VotaQueVale do Greenpeace Brasil é justamente conscientizar sobre como as decisões tomadas lá em Brasília impactam nossa vida cotidiana. São essas mesmas pessoas que decidem como o país deve enfrentar seus problemas.
O que observar nas candidaturas às Eleições 2026?
Antes de escolher seu voto, vale olhar para além das promessas. Pergunte:
– A candidatura defende fortalecer ou enfraquecer a fiscalização ambiental?
– Apoia recursos para prevenção e combate às queimadas?
– Como já votou quando teve mandato?
– Quais políticas públicas pretende defender?
– Quem serão seus aliados para colocar essas propostas em prática?
Fontes: Conexão Planeta, Greenpeace.
Foto: Ibama / Divulgação.


Seja o primeiro