Calor extremo na gravidez eleva risco de parto prematuro e morte fetal, alerta ONU

O calor extremo favorece partos prematuros e pode causar baixo peso em recém-nascidos, afirmou nesta segunda-feira (5) o chefe de Clima da ONU, enquanto Fiji sedia um fórum preparatório para a COP31, que será realizada em novembro.

As reuniões do fórum “pré-COP” da ONU desta semana, na cidade de Nadi (Fiji) e no país insular de Tuvalu, têm como objetivo chamar a atenção mundial para a ameaça das mudanças climáticas.

O chefe de Clima das Nações Unidas, Simon Stiell, pediu uma ação urgente. Ele citou uma nova pesquisa que mostra que mais de dois terços dos profissionais de saúde em cinco continentes observaram complicações causadas pelo calor intenso nos últimos cinco anos.

“O calor extremo provocado pelo clima durante a gravidez está cada vez mais associado ao parto prematuro, à morte fetal, ao baixo peso ao nascer e a complicações maternas“, apontou.

O que os profissionais de saúde estão observando

Segundo ele, “o quadro é claro e muito preocupante”. Stiell citou  novos dados de uma pesquisa com profissionais de saúde materna na Austrália, Brasil, Índia, Reino Unido e Zimbábue.

Quase três em cada quatro, ou 73%, afirmaram que os casos ou complicações relacionadas ao calor aumentaram nos últimos cinco anos.

Cerca de 81% dos entrevistados se declararam preocupados com o fato de as altas temperaturas estarem colocando cada vez mais em risco a saúde de mães, fetos e recém-nascidos.

Além disso, praticamente todos os profissionais consultados disseram ter tratado uma grávida ou um bebê cuja saúde consideravam afetada pelo calor.

Aumento da ansiedade

O chefe de Clima da ONU disse que por trás desses números está “a jornada de uma gestante até uma clínica, atrasada pelo calor perigoso; uma parteira trabalhando em temperaturas inseguras; um recém-nascido que precisa de cuidados especializados”.

Ele adicionou que para milhões de pessoas, a gravidez está se tornando um período de ansiedade, à medida que os impactos climáticos introduzem novos riscos na vida diária.

Stiell enfatizou que ninguém está a salvo das ondas de calor, mas seus efeitos não são distribuídos igualmente.

O calor pode agravar as desigualdades

Trabalhar ao ar livre, morar em uma casa sem proteção adequada contra altas temperaturas, percorrer longas distâncias para chegar a uma clínica ou depender de centros de saúde sem água, eletricidade e refrigeração agravam os riscos.

Stiell declarou que “manter a calma simplesmente não é uma opção quando não há nenhum lugar fresco para ir”.

O responsável pelas questões climáticas observou que a segurança do parto já depende, com muita frequência, do local onde a mulher vive, de sua renda e de seu acesso a serviços de saúde. Sem medidas adicionais, alertou, o aumento das temperaturas irá agravar essas desigualdades.

Incluir a gravidez nos planos de adaptação

Stiell pediu que os países incorporem explicitamente os cuidados durante a gravidez e com recém-nascidos nos planos de adaptação às mudanças climáticas e nas estratégias de saúde relacionadas ao calor.

O argumento é que aquilo que não é mencionado em um plano muitas vezes fica sem financiamento, sem avaliação e sem proteção.

O Acordo de Paris estipula que a adaptação deve ser sensível à questão de gênero. O chefe de Clima observou que isso significa incluir a saúde materna e neonatal nos planos nacionais de adaptação e de ação contra o calor.

Stiell também destacou o Plano de Ação de Gênero de Belém, que foi acordado no ano passado, na COP3, no Brasil, e busca fortalecer a integração das questões de gênero na ação climática, nos dados, no financiamento e na participação.

O Pacífico Sul é uma das regiões mais vulneráveis do mundo ao aquecimento global, devido ao aumento do nível do mar, que ameaça as moradias locais, e ao branqueamento dos corais.

A ministra do Clima de Fiji, Lynda Tabuya, instou os países industrializados a apoiarem uma “transição justa” para a energia renovável, com assistência aos países mais expostos aos efeitos das mudanças climáticas.

Os níveis do mar estão subindo em ritmo recorde devido ao aquecimento dos oceanos e ao derretimento das geleiras, segundo um relatório da ONU.

Região ameaçada

Até 1,2 bilhão de pessoas poderiam ficar deslocadas até 2050, e as ilhas do Pacífico poderiam enfrentar aumentos no nível do mar duas vezes superiores à média mundial, alerta o relatório divulgado em agosto.

Os países em desenvolvimento precisam de entre 310 bilhões e 365 bilhões de dólares para se adaptar, mas contavam com apenas 26 bilhões de dólares disponíveis em 2023.

Em declarações a jornalistas, Tabuya pediu “compromissos” dos países desenvolvidos para a redução das emissões de gases de efeito estufa e para o abandono dos combustíveis fósseis. Mas não uma transição qualquer, e sim “uma transição justa”.

O ministro de Mudanças Climáticas da Austrália, Chris Bowen, que também preside as negociações para a COP31, disse que eles convocam o mundo a unir “ambição e ação”.

Poucos convidados

No entanto, as autoridades tiveram que admitir que a lista de convidados é menor do que esperavam. Apenas um pequeno grupo de líderes mundiais confirmou presença.

E, nas ruas de Nadi, a maioria das pessoas parecia não saber que um fórum mundial estava em andamento.

A Austrália anunciou em setembro que 4.000 pessoas de 60 países participariam, sem fornecer detalhes.

Entre os participantes está o chanceler nepalês, Shisir Khanal, cujo país sofreu, em agosto, um desastre causado pelo derretimento de gelo no Himalaia, que deixou quase 1.500 mortos e mais de 5.800 desaparecidos no Nepal e na China.

Tuvalu, um país insular de baixa altitude, elaborou planos para transferir toda a sua população caso o território seja coberto pelo oceano.

Dois dos nove atóis de coral do país já foram cobertos pela elevação do nível do mar.

Ação decisiva

O aumento do nível do mar “não é uma ameaça futura, é uma realidade presente”, declarou o primeiro-ministro de Tuvalu, Feleti Teo, na recente Assembleia Geral da ONU.

“A mensagem de Tuvalu é clara: o mundo deve agir já”, acrescentou ele, ao pedir uma ação urgente e coletiva “para proteger o futuro das gerações futuras”.

A Austrália, importante exportadora de carvão, é criticada por ativistas por adotar um “discurso duplo” como líder nas negociações climáticas.

“Ao se preparar para presidir as negociações da próxima COP31 em parceria com o Pacífico, a Austrália precisa fazer muito mais para transformar sua retórica em ações reais e acabar com a asfixia causada pelos combustíveis fósseis”, declarou Shiva Gounden, chefe do Greenpeace para o Pacífico.

Fontes: ONU News, g1.

Foto: Unfpa Moçambique/Mbuto Machilli.

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