Guerra nuclear e uso malicioso da IA podem acabar com a humanidade até 2100, alertam cientistas

O uso malicioso da inteligência artificial (IA), inclusive para desenvolver armas biológicas, e a possibilidade de uma guerra nuclear estão entre as ameaças que podem levar à extinção da humanidade até o ano de 2100, segundo uma avaliação global publicada pela revista médica The Lancet.

O levantamento identificou 17 grandes ameaças à saúde humana nos próximos 75 anos, incluindo mudanças climáticas, pandemias, resistência antimicrobiana, desnutrição infantil e redução da ajuda internacional. Segundo os especialistas, esses riscos estão interligados e precisam ser enfrentados de maneira conjunta.

A análise foi elaborada pela Comissão Lancet sobre Ameaças Globais à Saúde no Século 21, formada por 35 especialistas. As conclusões foram apresentadas durante a Cúpula Mundial da Saúde, em Berlim, na Alemanha, neste domingo (11).

O relatório afirma que uma guerra nuclear poderia provocar uma fome em escala global caso partículas lançadas na atmosfera bloqueassem parte da luz solar, prejudicando a produção de alimentos. Outro cenário envolve o desenvolvimento de armas biológicas com o uso malicioso da IA.

Um editorial da Lancet publicado junto com o estudo alerta para a dimensão das possíveis consequências desses eventos. “A escala dos danos, caso se concretizem, infligiria um apocalipse à humanidade”, afirma o texto.

A investigação foi realizada pela nova Comissão Lancet sobre ameaças globais à saúde no século XXI, um grupo composto por 37 especialistas em saúde, economia, segurança e tecnologia.

Em conjunto, recorreram aos anos de vida ajustados pela incapacidade, conhecidos pela sigla inglesa DALYs, como métrica para comparar cada ameaça entre 2025 e 2100 em 204 países e territórios, por idade, sexo e causa.

O estudo mostra, em essência, quantos anos de vida saudável poderão ser perdidos devido a cada ameaça global, segundo cenários otimistas e pessimistas. Dá também uma ideia do impacto que a humanidade pode ter se agir já ou se optar por nada fazer.

As 17 ameaças variam entre 1,02 mil milhões e 23,1 mil milhões de DALYs. Para comparação, a pandemia de COVID-19 causou cerca de 500 milhões de DALYs. A carga acumulada evitável mais elevada é atribuída à obesidade.

O objetivo da Comissão é incentivar e capacitar os governos a agir, fornecendo-lhes a informação e as ferramentas necessárias para se prepararem para estas ameaças globais e tomarem desde já medidas decisivas para evitar os piores cenários.

Deixam, no entanto, claro que o trabalho não pretende estabelecer uma hierarquia de ameaças ou prioridades políticas, mas sim descrever e analisar os riscos globais como parte de um processo dinâmico, cujos resultados evoluem à medida que surgem novas provas e dados.

Embora “a utilização maliciosa da IA incluindo armas biológicas, e um conflito nuclear com fome nuclear impliquem riscos de extinção nos próximos 75 anos”, os especialistas alertam que todas as ameaças estão interligadas e, por isso, apelam a “um quadro de ação holístico assente na ciência, nos direitos humanos e na solidariedade”.

A Comissão recomenda, em primeiro lugar, que os governos nacionais invistam na construção de “sistemas de saúde preparados para ameaças”, para os colocar em posição de vantagem perante desafios globais como os vistos na pandemia de COVID-19.

Defendem também mais investimento em “soluções de rutura”, como a fusão nuclear e tecnologias de remoção de carbono que possam alterar de forma profunda os resultados das alterações climáticas e de outras questões que ameaçam o planeta, ou em vacinas como as desenvolvidas durante a pandemia.

A Comissão pede ainda uma monitorização e avaliações regulares destes riscos, com resultados apresentados a organizações internacionais como o G20 e as Nações Unidas, para aumentar a urgência em lidar com os problemas antes de se agravarem e se tornarem crises, e para incentivar uma resposta mais ampla em vez de cada país atuar isoladamente.

“Não estamos partindo do princípio de ‘olha, queremos assustar vocês porque temos X ameaças à humanidade'”, disse ao jornal britânico The Guardian Ibrahim Abubakar, membro da comissão e professor de epidemiologia de doenças infecciosas da UCL (University College London).

“Estamos partindo da premissa de que, se você é um formulador de políticas hoje, seja no nível multilateral global ou no nível nacional, essas são as ameaças potenciais que você pode enfrentar, e essa é a magnitude com que, se você agir, poderá realmente fazer a diferença.”

Para Christopher Murray, copresidente da comissão e diretor do Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde da Universidade de Washington, “as decisões tomadas pelos líderes hoje moldarão a saúde e o bem-estar da próxima geração”.

Os autores defendem que os governos invistam em inovação tecnológica, fortaleçam os sistemas de saúde e ampliem a capacidade de antecipar e prevenir crises. A avaliação deverá ser atualizada anualmente, com a revisão das ameaças identificadas e a inclusão de novos riscos.

“Iniciamos esse processo há três anos, pensando que havia três grandes ameaças: conflitos, mudanças climáticas e pandemias”, disse Murray ao Guardian.

“Há um número muito maior de ameaças com as quais precisamos nos preocupar, e os governos realmente precisam dedicar recursos financeiros e humanos à tarefa de antecipação, prevenção e preparação para esse conjunto mais diversificado de ameaças.”

Fontes: Euronews, Folha SP, Olhar Digital

Fonte: Reprodução.

Seja o primeiro

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *