Emissões de gases-estufa caem pelo terceiro ano consecutivo no Brasil

Pelo terceiro ano consecutivo, as emissões brutas de gases do efeito estufa caíram no Brasil, que jogou na atmosfera 2,06 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa (GtCO2e) no ano passado, redução de 6% em relação aos 2,19 GtCO2e de 2024. A queda se deve à redução do desmatamento, principalmente na Amazônia e no Cerrado.

O índice é o menor desde 2018, restaurando o patamar anterior à gestão de Jair Bolsonaro (PL). O ex-presidente, hoje preso por tentativa de golpe de Estado, promoveu um desmonte da fiscalização ambiental que fez o desmate explodir em seus quatro anos de mandato.

As informações são do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg) do Observatório do Clima. Publicado nesta quarta-feira (21/10), o relatório monitora há 14 anos o que acontece em todos os setores da economia.

“Isso é uma ótima notícia. Nos últimos anos vimos reduções de mais de 5%, ano a ano, o que não víamos desde os anos 2000 “, comenta David Tsai, coordenador do Seeg.

Os gases de efeito estufa geram o aquecimento global. Eles são liberados pela queima de combustíveis fósseis, desmatamento, agropecuária e outras atividades humanas. A redução dessas emissões é fundamental para diminuir os efeitos das mudanças climáticas, que podem intensificar eventos climáticos extremos, elevar o nível do mar, causar a extinção de ecossistemas e criar áreas inabitáveis no planeta.

O recuo apontado em 2025 no Brasil é um espelho do que se passou nas florestas do país. No ano passado, todos os biomas nacionais foram menos desmatados – só na Amazônia, a queda no desmatamento foi de 23,5% em comparação com o período anterior. E toda vez que o desmatamento diminui, as emissões respondem da mesma forma.

As emissões líquidas, descontando o crescimento de vegetação secundária e a remoção de carbono por áreas protegidas, foram de 1,41 bilhão de toneladas. Com isso, o Brasil se aproximou da meta estabelecida no Acordo de Paris, que é reduzir a emissão desses gases a 1,20 bilhão de toneladas até 2030.

O governo reporta os esforços nacionais de mitigação à ONU com o dado de emissões líquidas. Com o resultado apontado pelo Seeg, o país ficou 6% abaixo da sua meta climática, conhecida pela sigla NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada). A promessa do governo brasileiro como parte do Acordo de Paris, tratado internacional para conter o aquecimento do planeta, era de chegar a 1,32 GtCO2e até 2025.

“Nós teríamos cumprido a NDC de 2025, não fosse pelo governo Bolsonaro”, afirma o coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima, Claudio Angelo. “A partir de 2023, tivemos que correr muito atrás do prejuízo. O Brasil partiu de um lugar muito mais desfavorável para o cumprimento da NDC, com taxas de desmatamento acima de 10 mil km² na Amazônia.”

O desmatamento é a principal fonte das emissões de gases-estufa do Brasil e, em 2025, houve redução na perda de vegetação nativa na Amazônia e no Cerrado, os maiores biomas do país, pelo segundo ano consecutivo.

Com isso, as emissões brutas do setor de mudança de uso da terra, que abarca sobretudo o desmatamento, caíram 15% em relação a 2024, indo de 957 MtCO2e (milhões de toneladas de gás carbônico equivalente) para 814 MtCO2e.

Se consideradas as emissões líquidas, a redução foi de 48% no mesmo período (de 311 MtCO2e para 162 MtCO2e). Em 2022, último ano do governo Bolsonaro, a taxa era de 860 MtCO2e — o que representa queda de 81% no setor no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Nas emissões brutas a redução foi de 46%: de 1.505 MtCO2e em 2022 para 814 MtCO2e em 2025.

Em quase todos os outros setores da economia, a poluição climática variou pouco. As emissões brutas da agropecuária permaneceram em 626 milhões de toneladas de CO2e em 2025 (diferença de 0,1%), assim como ficaram estáveis as de processos industriais e uso de produtos, com 0,2% de alta, permanecendo em 94 MtCO2e.

Em energia, houve alta de 1,2%, de 422 MtCO2e em 2024 para 427 MtCO2e em 2025. O maior crescimento foi no setor de resíduos, com 3,6% —foi de 92 MtCO2e para 96 MtCO2e no período.

Com a queda no desmate, a participação do setor de mudanças no uso da terra nas emissões brasileiras também vem caindo. Em 2024, era de 44% e chegou a 39% no ano passado. Agropecuária foi de 29% para 30% e energia, de 19% para 21%. Processos industriais e resíduos representaram, cada um, 5% das emissões de 2025 e 4% em 2024.

Assim, vai se tornando cada vez mais importante que os outros setores também cortem sua poluição de carbono, o que não está acontecendo de maneira substancial.

“É importante não só continuar controlando o desmatamento, mas iniciar medidas contundentes nos outros setores”, diz o engenheiro químico David Tsai, coordenador do Seeg.

Na agropecuária, a digestão dos animais ruminantes, o “arroto do boi”, representa quase dois terços das emissões. Em energia, mais da metade vem da queima de combustíveis pelo transporte. No setor de resíduos, a predominância das emissões é de aterros e lixões, enquanto em processos industriais, a produção de metais prevalece com maior participação.

“Esse retrato nos ajuda a identificar onde estão as principais oportunidades de redução de emissões”, avalia Tsai.

O coordenador da plataforma ressalta outro dado, o da intensidade econômica das emissões brasileiras. Em relação a 2009, quando foi instituída a Política Nacional sobre Mudança do Clima, o PIB (Produto Interno Bruto) cresceu 31%, mas as emissões brutas cresceram 15%.

O índice mostra que o país está caminhando para uma economia de baixo carbono, puxada pela redução do desmate (aumento de 3% nas emissões no período).

As emissões de resíduos, por sua vez, aumentaram mais do que o PIB e chegaram a 39%, e as de processos industriais foram equivalentes ao crescimento da economia. As emissões por energia cresceram 27% de 2009 a 2025 e da agropecuária, 21%.

Há, ainda, as remoções do carbono da atmosfera e que volta a ser estocado nos ecossistemas. A maior parte é feita por áreas protegidas (60%), seguida pela recuperação de vegetação secundária, que absorve o CO2 da atmosfera pela fotossíntese que as plantas fazem à medida que crescem (28%). Em 2025, as remoções totalizaram mais de 650 milhões de toneladas de carbono.

Angelo também defende que o Brasil comece a computar as remoções por solos agrícolas em seus dados oficiais. “Graças a técnicas de recuperação de pastagem e manejo de solos, nós já capturamos carbono em solo agrícola. É um volume importante, mais de 150 milhões de toneladas em 2025, segundo nossos dados preliminares.”

Essa também é uma demanda do agronegócio brasileiro, que busca que suas iniciativas que sequestram carbono entrem na conta das emissões do país. Esse reconhecimento poderia oferecer mais respaldo e oportunidades de negócios para o setor.

Fontes: DW,  Folha SP.

Foto: Wang Tiancong/Xinhua/picture alliance

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