As abelhas fazem muito mais do que produzir mel. Elas estão entre os principais polinizadores do planeta e desempenham um papel essencial na reprodução de plantas silvestres, na produção de alimentos e no funcionamento dos ecossistemas. No Brasil, cerca de 60% das 141 espécies de plantas cultivadas para alimentação humana, produção animal, biodiesel e fibras dependem, em algum grau, da polinização por animais, segundo estudo de pesquisadores liderados por Tereza Cristina Giannini, publicado em 2015 no Journal of Economic Entomology. As abelhas são as principais polinizadoras
Mesmo em culturas que não dependem diretamente dos polinizadores, a presença deles pode aumentar a produtividade. Na soja, por exemplo, foi identificado aumento de 18% na produção, segundo a pesquisadora da Embrapa Carmem Pires, em entrevista à Agência Pública e à Repórter Brasil em 2019. Ela cita o exemplo do maracujá, que tem na mamangaba, ou abelhão, um de seus principais polinizadores: sem esse inseto, a produção poderia depender de polinização manual, aumentando os custos e o preço do alimento. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 87 dos 115 principais alimentos dependem da polinização.
Esse serviço tem também um peso econômico. Segundo a primeira avaliação global sobre polinizadores da IPBES, plataforma intergovernamental de ciência sobre biodiversidade, entre US$ 235 bilhões e US$ 577 bilhões da produção anual de alimentos no mundo dependem diretamente da polinização feita por animais. O relatório, de 2016, aponta ainda que o volume da produção agrícola dependente de polinizadores cresceu 300% em 50 anos. No Brasil, o estudo de Giannini estimou que a contribuição dos polinizadores equivale a cerca de 30% (aproximadamente US$ 12 bilhões) da renda agrícola anual dos cultivos dependentes. Em São Paulo, um estudo estimou que reduzir o déficit de polinização poderia gerar ganhos de até R$ 4,2 bilhões por ano para a economia do Estado.
Mas os mesmos insetos que ajudam a sustentar a produção de alimentos e gerar renda para grandes e pequenos agricultores enfrentam uma combinação de pressões. Agrotóxicos, perda de habitat, mudanças climáticas, doenças e outras formas de degradação ambiental podem comprometer a disponibilidade de alimento, os locais de reprodução e a própria sobrevivência de diferentes espécies.
Desde 2013, a campanha internacional “Bee or not to be” (“Sem Abelha, Sem Alimento”) alerta a sociedade sobre o risco do desaparecimento das abelhas e explica como a polinização é vital para a biodiversidade e para a produção da maior parte do que comemos. Lançada em outubro de 2013 durante a Apimondia, o maior congresso de apicultura do mundo realizado em Kiev, na Ucrânia, pelo professor universitário e pesquisador Lionel Segui Gonçalves, ela conta também com representantes no Brasil. Desde 2014, a campanha mantém o Bee Alert, plataforma on-line em que apicultores e pesquisadores registram casos de desaparecimento e morte de abelhas.
Diversos casos têm sido relatados, como, por exemplo, a morte de cerca de 400 milhões de abelhas no Rio Grande do Sul em 2018, 100 milhões de abelhas no Mato Grosso em 2023 e 9 milhões em Goiás em 2024, entre outros. O uso inadequado de inseticidas tem sido a principal causa das mortandades.
Peso na agricultura
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), quase 90% das espécies de plantas silvestres com flores dependem, total ou parcialmente, da polinização feita por animais. O mesmo ocorre com mais de 75% das culturas alimentares e 35% das terras agrícolas do planeta. Além das abelhas, borboletas, morcegos, beija-flores e besouros também participam desse processo.
“A maior parte das abelhas é solitária e não vive em sociedade, mas todas atuam como polinizadoras importantíssimas”, disse Daniel Malusá Gonçalves, diretor da ONG Bee or not to Be, à reportagem da National Geographic Brasil sobre a importância das abelhas. Das mais de 20 mil espécies de abelhas do mundo, mais de 4 mil estão na América Latina, a maioria nativas e sem ferrão.
A polinização acontece quando as abelhas transportam o pólen de uma flor para outra, permitindo a fertilização e a reprodução das plantas. Em algumas espécies, esse processo é indispensável para a sobrevivência. Em plantas frutíferas, também pode influenciar a qualidade dos frutos, segundo a bióloga Marina Arbetman, pesquisadora do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina (Conicet), em entrevista à mesma revista.
O efeito vai além das plantas. Sementes e frutos alimentam outros animais e ajudam a sustentar cadeias alimentares inteiras. As abelhas também podem funcionar como bioindicadoras da qualidade ambiental.
Para sobreviver, as abelhas precisam de alimento, locais para construir ninhos e ambientes com menor exposição a substâncias tóxicas. O pólen fornece proteínas e o néctar, carboidratos. Por isso, a disponibilidade de flores ao longo do ano é fundamental.
A perda de vegetação pode comprometer tanto a alimentação quanto a reprodução. As abelhas do gênero Melipona, por exemplo, utilizam buracos em troncos de árvores para construir seus ninhos. A manutenção de árvores de grande porte e da vegetação nativa, portanto, é importante para essas populações.
A relação entre abelhas e plantas também varia conforme cada ecossistema. Uma pesquisa com participação do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA), vinculado à Semil, identificou as bromélias como algumas das principais fontes de alimento das abelhas nas restingas de Ilha Comprida e da Ilha do Cardoso, no litoral sul de São Paulo.
Agrotóxicos
Entre as principais ameaças está a exposição a agrotóxicos. Neonicotinoides, como clotianidina, imidacloprido e tiametoxam, atuam no sistema nervoso dos insetos. O fipronil também é associado à mortalidade de abelhas. A forma de aplicação também importa. Segundo pesquisa da Embrapa de 2004, 19% do agrotóxico aplicado por pulverização aérea se dispersa para fora da área de aplicação.
No Brasil, o Ibama iniciou em 2012 a reavaliação de defensivos agrícolas à base de fipronil e neonicotinoides devido ao risco de mortalidade para abelhas e outros polinizadores. Em decisão do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), a Justiça determinou que o Ministério da Agricultura aplique as restrições resultantes das reavaliações do imidacloprido, da clotianidina e do tiametoxam, fixou prazo para o Ibama concluir a do fipronil e manteve a proibição da pulverização aérea dos quatro produtos
Ameaças à vida das abelhas
A expansão urbana, o desmatamento e a substituição da vegetação por monoculturas também reduzem as áreas disponíveis para alimentação e reprodução. Em paisagens dominadas por uma única cultura, as abelhas podem encontrar uma grande quantidade de flores durante determinado período, mas enfrentar escassez de alimento depois da colheita. “Na entressafra não tem nada e isso as obriga a percorrer distâncias muito longas atrás de alimento”, explicou Arbetman à National Geographic Brasil.
As mudanças climáticas acrescentam outra camada de pressão. O aumento das temperaturas, as secas e as alterações no regime de chuvas podem modificar o período de floração das plantas e a disponibilidade de néctar e pólen, além de afetar diretamente o comportamento dos insetos.
Outro risco é o chamado descompasso entre plantas e polinizadores. Quando o calor antecipa a floração e as abelhas não acompanham o mesmo ritmo, diminui o tempo em que flores e insetos coincidem, e falta alimento. Ondas de calor, secas prolongadas, chuvas intensas e enchentes também podem afetar diretamente os ninhos e as colônias.
Doenças e novas ameaças
A movimentação de abelhas entre diferentes regiões também pode levar patógenos para populações que não estavam expostas anteriormente a determinadas doenças, segundo Arbetman. Nos Estados Unidos, mais de um terço dos enxames tem sido perdido a cada ano, em um fenômeno associado à chamada Síndrome do Colapso das Colônias (CCD, na sigla em inglês).
A pressão sobre os polinizadores não se limita aos riscos mais conhecidos. Um relatório publicado em 2025 pela Bee:wild identificou 12 ameaças emergentes que podem acelerar a perda desses insetos nos próximos 5 a 15 anos. A lista inclui poluição por microplásticos, antibióticos, metais pesados e luz artificial; mineração de metais como lítio e cobalto; plantios de árvores mal planejados em projetos de carbono; incêndios florestais associados a outras pressões e os chamados coquetéis de pesticidas.
“Identificar novas ameaças e encontrar maneiras de proteger os polinizadores precocemente é fundamental para evitar novos declínios significativos”, disse Simon Potts, professor da Universidade de Reading, no Reino Unido, e principal autor do relatório.
O que pode ser feito
A proteção das abelhas passa pela conservação e recuperação dos ambientes onde elas vivem, mas também por mudanças na forma como áreas agrícolas são manejadas.
Para oferecer alimento às colmeias também na entressafra da soja, a BASF e parceiros como a Fundação Eco+ e a Universidade Federal do Pampa (Unipampa) plantaram, em agosto, cerca de 5 mil mudas de 27 espécies nativas em aproximadamente 2,5 hectares no distrito de Catuçaba, em São Gabriel (RS), com o objetivo de ampliar a oferta de flores em diferentes períodos do ano. A iniciativa terá continuidade na safra 2026/27.
Em São Paulo, o Programa Abelhas Nativas da Fundação Florestal, vinculada à Semil, atua em mais de 25 Unidades de Conservação. As áreas protegidas abrigam 32 espécies de abelhas nativas sem ferrão, o equivalente a 51% das registradas no Estado, incluindo espécies ameaçadas de extinção, além de 41 espécies de abelhas solitárias. Criado em 2020, o programa O programa mantém cerca de 192 caixas racionais para estudo, reprodução e manejo sustentável e prevê 30 meliponários educativos.
O programa também se conecta à geração de renda. No PSA Juçara (pagamento por serviços ambientais), da Fundação Florestal, voltado à conservação e ao repovoamento da palmeira-juçara, as abelhas participam da polinização da espécie, e a criação de abelhas nativas pode gerar mel e própolis e complementar a renda das famílias. Atualmente, 61 famílias participantes já têm caixas de abelhas nativas, com 225 colônias implantadas, 450 ninhos-isca instalados e 42 ninhos naturais identificados e protegidos. O potencial, considerando as duas edições do programa, é chegar a cerca de 3.400 colônias até 2030.
Entre as espécies acompanhadas pelo programa estão a uruçu-amarela-do-cerrado (Melipona rufiventris), a uruçu-amarela da Mata Atlântica (Melipona mondury), a manduri (Melipona marginata) e a guaraipo-amarela (Melipona bicolor), todas consideradas ameaçadas de extinção.
“Conhecer onde estão essas espécies e como elas se relacionam com os diferentes ambientes é fundamental para orientar as ações de conservação”, disse Gustavo Feliciano Alexandre, gestor da APA do Carmo e coordenador do programa. Segundo ele, as Unidades de Conservação protegem não apenas a vegetação, mas também os polinizadores responsáveis por manter e regenerar esses ecossistemas.
“A conservação ganha escala quando conseguimos transformar o conhecimento produzido nas Unidades de Conservação em políticas públicas que também geram oportunidades para as comunidades”, afirmou o diretor-executivo da Fundação Florestal, Rodrigo Levkovicz.
Já o projeto Colmeia Viva, iniciado em 2013 com participação da Unesp e da UFSCar, mapeou entre 2014 e 2017 a perda de enxames em São Paulo. Foram identificados 107 produtores afetados em 78 cidades e cerca de 255 milhões de abelhas mortas. Das 88 amostras analisadas, 59, ou cerca de 67%, apresentaram resíduos de pesticidas.
As soluções também podem envolver medidas mais simples. Plantar espécies nativas, manter flores e árvores que ofereçam alimento aos polinizadores e evitar o uso de pesticidas em jardins e áreas verdes são algumas das recomendações dadas por especialistas. Entre as medidas estruturais estão ainda a redução da exposição a pesticidas nocivos, a conservação de habitats e o incentivo à agroecologia.
Para Arbetman, porém, a proteção dos polinizadores depende de uma mudança mais ampla na relação entre produção e conservação. “Enquanto nosso objetivo como humanos para voltado para o produtivo somente, sem considerar a saúde dos ecossistemas no longo prazo, ainda haverá impacto para as abelhas e isso prejudicará tanto o meio ambiente como a agricultura”, afirmou.
Fonte: Um Só Planeta.
Foto: Fundação Florestal/ Divulgação.


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