Uma avalanche repentina na fronteira entre o Nepal e o Tibete nesta quarta-feira (26) deixou mortos e centenas de desaparecidos.
Encaixado entre a Índia e a China, o Nepal, abriga oito dos 14 picos mais altos do mundo. A região faz parte dos Himalaias, que é uma das maiores cadeias de montanhas da Terra e tem o Everest como seu pico mais famoso.
A causa da tragédia ainda é analisada. O Serviço Geológico dos EUA (USGS) chegou a afirmar que registrou um terremoto na região, mas depois corrigiu a informação e declarou que o evento sísmico de magnitude 5,2 foi, na verdade, resultado do colapso de uma geleira.
As coordenadas exatas do abalo apontam uma área nas encostas da montanha Langtang Lirung, no Nepal. Ele é o cume mais alto de uma subcordilheira dos Himalaias e fica a 5 quilômetros da fronteira com o Tibete.ra
Montanha, vales e geleiras
A região combina montanhas extremas, vales estreitos e geleiras que armazenam não apenas neve e gelo, mas também água líquida. Essas características ajudam a entender por que uma avalanche pôde desencadear um desastre de tamanha escala.
“Está confirmado que uma parte substancial da ponta da geleira desabou, desencadeando o evento, provavelmente incluindo ou arrastando uma quantidade considerável de rochas e sedimentos”, disse à Reuters Vikram Gupta, especialista em geologia de engenharia e professor da Universidade de Sikkim, na Índia.
O cientista da Terra Dan Shugar, professor associado da Universidade de Calgary, disse à Reuters que as imagens parecem indicar que uma grande quantidade de neve derreteu nas 24 horas anteriores ao desastre.
“Algumas das geleiras do vale estavam cobertas de neve ontem e hoje estão, em sua maioria, com o gelo à mostra. Portanto, em outras palavras (e ainda não vi nenhum dado de estações meteorológicas), provavelmente estava quente”, disse ele.
“Pelo que posso ver nas imagens de satélite desta manhã da Planet Labs, a parte inferior de uma geleira se desprendeu a cerca de 5.200 metros e desabou no fundo do vale, cerca de 1.200 metros abaixo”, disse Shugar.
Inundações e deslizamentos são frequentes durante a monção de verão, período de chuvas intensas que se estende de junho a setembro no Nepal e em toda a Ásia do Sul. Apesar disso, a tragédia atual é sem precedentes. O vale do Rio Bhote Koshi já sofreu uma inundação por rompimento de lago glaciar em julho de 2025, que deixou 17 pessoas desaparecidas.
Região de alto risco
Autoridades do Nepal e do Tibete disseram que o desastre não foi captado por suas ferramentas de monitoramento. Entretanto, a região é considerada de alto risco. Um estudo publicado em 2025 por pesquisadores de órgãos da província chinesa de Sichuan já apontava a vulnerabilidade da região.
Segundo o trabalho, o trecho da rodovia G216 no posto de fronteira de Gyirong sofre repetidamente com desmoronamentos de grande escala e alto impacto, em áreas elevadas e de difícil identificação. Os pesquisadores mapearam duas zonas de rochas perigosas, 86 massas rochosas instáveis e 12 áreas sujeitas à queda de pedras.
Liz Stephens, professora de Risco Climático e Resiliência na Universidade de Reading, explica que grandes volumes de gelo e rocha podem ter aumentado o nível do rio e provocado uma forte elevação repentina da água.
A avalanche também pode ter bloqueado temporariamente o rio, formando uma espécie de barragem. Quando esta, se rompeu, uma grande quantidade de água e sedimentos pode ter avançado rio abaixo.
O terreno difícil do Himalaia, inclusive no Tibete, seria o principal motivo para a ocorrência da avalanche.
Por isso, especialistas tentam analisar imagens de satélite, mas as nuvens de monções não têm ajudado muito desta vez, segundo eles.
Outra análise, divulgada após uma inundação provocada pelo rompimento de um lago glacial atingir a mesma região em julho de 2025, identificou 55 lagos glaciais na bacia a montante da Ponte da Amizade, com área total de cerca de 3,39 km². Os pesquisadores alertaram para a possibilidade de novos rompimentos e recomendaram reforçar o monitoramento e os sistemas de alerta, além de avaliar os riscos associados a terremotos fortes e eventos climáticos extremos.
Enchentes no Nepal e no Tibete: o que se sabe sobre a tragédia que deixou centenas de mortos e desaparecidos
Cerca de 24 horas após uma grande enxurrada repentina e um deslizamento de terra atingirem o Nepal e o Tibete, equipes de resgate correm contra o tempo para buscar sobreviventes, recuperar corpos e fornecer assistência a comunidades afetadas pelo desastre.
No Nepal, pelo menos 162 pessoas morreram e centenas de turistas estão desaparecidos após a tragédia, ocorrida na quarta-feira (26/8).
No Tibete, a mídia estatal chinesa relata três mortos e 558 desaparecidos.
Estima-se que pelo menos 403 pessoas estejam desaparecidas, incluindo 341 cidadãos estrangeiros. Entre os desaparecidos, há pessoas de 28 nacionalidades diferentes — incluindo mais de 100 da Índia, 54 dos Estados Unidos, 33 do Reino Unido e 53 da Ucrânia.
A área é bastante procurada por peregrinos e turistas que fazem trilhas.
O Itamaraty publicou uma nota nesta quarta-feira reafirmando que não há, até o momento, registro de brasileiros entre as vítimas.
“O governo brasileiro expressa profundo pesar e solidariedade às famílias das vítimas, ao povo e ao governo do Nepal e da China”, diz a nota.
“A Embaixada do Brasil em Katmandu e a Embaixada do Brasil em Pequim acompanham com atenção os desdobramentos da calamidade no país.”
O desastre é considerado o mais devastador no Nepal desde o terremoto de 2015, que matou quase 9 mil pessoas.
Segundo o órgão de turismo do Nepal, o NTB, uma parte significativa dos visitantes afetados pelo desastre seguia rumo ao Kailash Mansarovar, no Tibete, um local de peregrinação.
A rota afetada também dá acesso ao Parque Nacional de Langtang e ao lago sagrado de Gosainkunda.
O número de mortos e desaparecidos pode aumentar nos próximos dias, à medida que as equipes de resgate consigam avaliar a dimensão da tragédia.
Fontes: G1, BBC, CNN.
Foto: Prabin Ranabhat / AFP via Getty Image


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