Cientistas alertam para aumento de riscos climáticos no litoral brasileiro

Uma carta divulgada na última semana por pesquisadores brasileiros alerta que decisão recente do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre proteção das restingas é um tiro no pé quando o assunto é resiliência climática.

Em novembro passado, o STJ entendeu que só são áreas de preservação permanente (APP) as restingas localizadas nos primeiros 300 metros a partir do ponto mais alto alcançado pela maré ou aquelas que ajudam a proteger dunas e manguezais, o que reduziu significativamente a proteção deste ecossistema.

Na carta, publicada na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências, os cientistas afirmam que a medida deixa de fora grandes porções de vegetação, expondo a região litorânea ao desmatamento e à ocupação humana. Como consequência, cidades e populações costeiras ficam mais expostas a ressacas potentes e à elevação do nível do mar, ambas situações agravadas pela crise no clima.

“As restingas e outros ambientes de transição entre mar e terra são indispensáveis para enfrentar as mudanças climáticas”, destacou Walter Beys, pesquisador no Centro de Biotecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), integrante da Rede MaRe e primeiro autor do artigo. “Contudo, estamos eliminando essas barreiras naturais”, alertou.

Defesas encolhidas

No julgamento, o STJ rejeitou a tese do Ministério Público de Santa Catarina de que toda a vegetação de restinga deveria ser tratada como APP. A decisão foi definida com base nas normas do Código Florestal (Lei 12.651/2012) e da Resolução 303/2002 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), alegou o tribunal.

“Esse entendimento não leva a uma proteção insuficiente do ecossistema, pois ele foi contemplado em diversos níveis de salvaguarda”, afirmou, na ocasião, a relatora do processo, a ministra Maria Thereza de Assis Moura.

Contudo, os cientistas que assinam o artigo chegaram a uma conclusão oposta. Eles classificam o limite de 300 metros como insuficiente, arbitrário e sem base científica, pois as restingas não são faixas homogêneas ao longo da costa e têm funções ecológicas que vão muito além do litoral.

A própria linha de base usada na decisão está mudando devido às ressacas e à elevação do nível do mar, lembrou Beys. “A faixa de terra perde espaço para a erosão e a faixa onde o mar alcança vai aumentando”, disse. “A decisão afrouxa e legaliza uma ocupação crescente na porção mais agredida do litoral brasileiro”.

Frente a este cenário, os autores do artigo defendem maior atuação dos órgãos ambientais e dos Ministérios Públicos, regras mais firmes para a ocupação costeira e uma participação mais ampla e efetiva de pesquisadores nas decisões judiciais e nos licenciamentos.

Trocando proteção por ocupação

Além da vegetação rasteira junto à praia, as restingas também abrigam arbustos, banhados e até florestas com árvores de grande porte. É esse conjunto que reduz a erosão costeira, abriga inúmeras espécies animais e vegetais e ajuda a absorver as águas da chuva e das inundações.

As restingas são associadas sobretudo aos biomas Mata Atlântica e Pampa. Além disso, são quase exclusivas do Brasil, pois há apenas ambientes semelhantes em outras partes do mundo.

Todavia, o MapBiomas aponta que desde 1985 mais de 100 mil ha de restingas foram eliminados – similares a duas vezes a área de Porto Alegre (RS). Num boletim de 2025 do Museu de Biologia Mello Leitão, pesquisadores estimaram que restam apenas 16% das áreas originais de restingas e dunas no país. “É a destruição desenfreada e justificada pelo desenvolvimento econômico”, avaliou Beys.

Fonte: Observatório do Clima.

Foto: Luiz Souza / NurPhoto / NurPhoto via AFP.

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