Como químicos industriais vão parar no meio de oceanos

Mesmo regiões mais remotas do planeta, onde a influência humana parece inexistente, podem sofrer com a contaminação. Uma análise internacional de mais de 2,3 mil amostras de água do mar revelou que centenas de compostos sintéticos — muitos deles vindos de produtos cotidianos — estão amplamente distribuídos nos oceanos do mundo todo, incluindo as áreas consideradas praticamente intocadas.

Esses resultados, detalhados em um artigo publicado em  16 de março na revista Nature Geoscience, indicam que esses compostos não apenas chegaram aos mares, mas passaram a integrar a própria matéria orgânica marinha, levantando preocupações sobre seus efeitos nos ecossistemas e no ciclo global do carbono. “Os organismos marinhos podem estar nadando em uma mistura de dezenas ou centenas de substâncias produzidas pelo ser humano”, sugere Michael Beman, um dos colaboradores da pesquisa, em comunicado.

Presença global persistente

A investigação, liderada por cientistas da Universidade da Califórnia em Riverside, nos Estados Unidos, reuniu dados coletados entre 2017 e 2022 nos oceanos Pacífico, Atlântico e Índico. Ao todo, foram identificados 248 compostos de origem humana não naturais (ou xenobióticos, no jargão científico), em diferentes concentrações.

Pesticidas e fármacos já eram esperados de se encontrar nas áreas costeiras. No entanto, os pesquisadores foram surpreendidos ao constatar que compostos industriais tipicamente usados na fabricação de plásticos, lubrificantes, cosméticos e fragrâncias sintéticas dominavam o “sinal químico” humano no oceano.

Concentração varia, mas contaminação é generalizada
Os dados mostram que a concentração desses compostos varia significativamente conforme a região:

– Em áreas costeiras, até 20% da matéria orgânica dissolvida pode ser composta por substâncias sintéticas;

– Em ambientes extremos, como estuários afetados por esgoto, esse índice ultrapassa 50%;

– No oceano aberto, a presença é menor, mas constante, variando de cerca de 0,5% a 4%; e

– Mesmo a mais de 20 km da costa, compostos humanos ainda representam cerca de 1% da matéria orgânica detectada.

“Em escala global, isso representa uma quantidade enorme de material”, destaca Petras. Além disso, recifes de corais, frequentemente vistos como ecossistemas preservados, também apresentaram sinais claros de contaminação associada a atividades humanas como agricultura, turismo e urbanização.

Poluição difícil de detectar

Um dos aspectos mais preocupantes do estudo é que muitos dos compostos identificados raramente são monitorados por programas ambientais tradicionais. Isso significa que a contaminação pode estar sendo subestimada.

A pesquisa utilizou técnicas avançadas de espectrometria de massa de alta resolução, capazes de detectar uma ampla gama de moléculas naturais e artificiais simultaneamente. Ainda assim, os próprios autores reconhecem que diversas substâncias, como certos poluentes persistentes, não foram capturadas pelas análises.

“Embora alguns compostos possam não ter efeito ou se degradar, a grande preocupação é se eles afetam negativamente a vida marinha”, alerta Beman. Apesar da ampla detecção, os efeitos cumulativos dessas substâncias permanecem pouco compreendidos.

Os cientistas destacam que esses compostos podem interferir em processos fundamentais, como o ciclo do carbono e o funcionamento dos ecossistemas marinhos. “Esses químicos contribuem substancialmente para o conjunto de matéria orgânica do oceano. Isso significa que podem desempenhar um papel ainda não reconhecido nos ecossistemas”, observa Petras.

A incerteza também se estende à saúde humana. Como lembra a Revista Oceanographic, cresce a preocupação de que os mesmos compostos presentes no oceano estejam entrando no corpo humano, com potenciais efeitos hormonais e biológicos.

Outro ponto ressaltado pelos pesquisadores é a origem difusa dessa poluição. Atividades comuns, como dirigir, lavar roupas ou usar produtos de higiene pessoal, contribuem para a liberação de substâncias químicas que acabam nos oceanos por meio de rios e sistemas de esgoto. “Alguns dos compostos artificiais detectados no oceano são nomes familiares”, afirma Beman. “Reduzir o uso de plásticos e descartar corretamente produtos químicos e medicamentos pode ajudar.”

Próximos passos

Apesar de sua abrangência, o estudo ainda apresenta limitações geográficas. A maior parte dos dados vem da América do Norte e da Europa, com pouca representação do hemisfério sul e quase nenhuma de regiões como Sudeste Asiático e Índia.

Os pesquisadores enfatizam que a ausência de dados não significa ausência de contaminação — apenas que essas áreas ainda não foram suficientemente estudadas. Para eles, o trabalho representa um primeiro panorama global. Novas pesquisas serão necessárias para quantificar com precisão os compostos e compreender seus efeitos de longo prazo. “É claro que estamos alterando basicamente todos os ecossistemas”, avalia Petras. “Agora, precisamos entender melhor como isso ocorre e mitigar essas consequências”.

Fonte: Revista Galileu.

Foto: Universidade da Califórnia em Riverside.

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