A Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC), um extenso sistema de correntes oceânicas no Oceano Atlântico que desempenha um papel importante no transporte de calor ao redor do globo, corre o risco de colapsar por conta da aceleração das mudanças climáticas. Inclusive, neste mês de abril, um novo estudo afirmou que isso parece estar significativamente mais propenso a acontecer do que se pensava antes. Mas cientistas da Universidade de Utrecht, da Holanda, estão investigando uma possível solução para evitar este colapso, que poderia desencadear eventos climáticos catastróficos pelo planeta.
Em artigo publicado na revista científica Science Advances, eles indicam que a construção de uma barragem no Estreito de Bering, que liga os oceanos Pacífico e Ártico, poderia potencialmente ajudar a estabilizar a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC). O estreito é parte importante da história, pois a teoria mais aceita é que os primeiros seres humanos chegaram às Américas vindos da Ásia através da Beríngia, uma ponte terrestre e de gelo que conectava a Sibéria, na Rússia, ao Alasca, hoje território dos Estados Unidos, durante a última era glacial.
A proposta de interferir no Estreito de Bering se baseia em evidências históricas. Em períodos passados, quando a passagem esteve naturalmente bloqueada, a circulação atlântica apresentou maior estabilidade. Isso ocorre porque a água que flui do Pacífico para o Ártico é relativamente doce, e sua presença influencia o equilíbrio salino no Atlântico Norte – fator essencial para o funcionamento da AMOC.
Para testar essa hipótese, pesquisadores da Universidade de Utrecht recorreram a simulações computacionais. Os resultados foram publicados na revista Science Advances e indicam que o bloqueio artificial do estreito poderia, de fato, ajudar a estabilizar a corrente oceânica.
Mas isso dependeria de condições específicas. Segundo o modelo, a intervenção só teria efeito positivo se fosse realizada enquanto a AMOC ainda opera em níveis considerados normais. Nesse cenário, o aumento da salinidade ao redor da Groenlândia permitiria que o gelo derretesse em maior escala sem comprometer o sistema oceânico.
Usando modelos climáticos, Jelle Soons e Henk A. Dijkstra, ambos do Instituto de Pesquisa Marinha e Atmosférica de Utrecht, simularam diferentes estados iniciais do oceano, visto que nenhum modelo representa perfeitamente a realidade.
Eles observaram que, em alguns dos cenários, o fechamento do Estreito de Bering ajuda a estabilizar a AMOC, mesmo com o aumento dos níveis de carbono na atmosfera que vem piorando o aquecimento global e causando as mudanças climáticas. Em outros, ocorreria o oposto, e a circulação se torna mais vulnerável.
“Este estudo é uma prova de conceito”, afirmou Soons, em comunicado. “Mostramos que existem cenários em que uma barragem desse tipo poderia funcionar. Mas ainda não sabemos o quão realistas esses cenários são.”
O momento da intervenção também se revela crucial. Se a intervenção para implementada precocemente, poderá favorecer a circulação. Mas se a AMOC já tiver enfraquecido, o efeito poderá ser revertido. Com uma AMOC ainda forte, o fechamento do estreito causaria um fluxo menor de água doce do Oceano Ártico para o Atlântico, dizem os pesquisadores, o que ajudaria a manter o Atlântico Norte salgado e a circulação das correntes estável. Mas se a AMOC já estiver próxima do colapso, o fechamento do estreito teria o efeito oposto, desestabilizando-a ainda mais. Em outras palavras, o momento certo é crucial, afirmam.
Outro ponto a ser considerado é que mesmo que a construção seja teoricamente possível, está longe de ser certo que ela possa ser concretizada. O Estreito de Bering tem cerca de 80 quilômetros de largura e está localizado em uma área remota com pouca infraestrutura. E ainda há a questão ecológica, já que o estreito é uma importante rota migratória para mamíferos marinhos, e mudanças nas correntes e na salinidade afetariam ecossistemas inteiros.
Além disso, existe uma preocupação mais ampla: a de que soluções tecnológicas como essa possam desviar a atenção da raiz do problema: as emissões de gases de efeito estufa. Para Soons, a construção seria um último recurso. “É um pouco como a cirurgia de perda de peso. É melhor perder peso, mas se isso não funcionar, você pode considerar uma intervenção”, salientou.
Ao The New York Times, ele acrescentou que a humanidade poderá um dia ser paraçada a tomar medidas drásticas para evitar os piores efeitos do aquecimento global.
O jornal observa que os pesquisadores não avaliaram em detalhes como uma barragem no Estreito de Bering seria projetada e construída. Eles estimam que, em profundidade e volume total, ela seria comparável a dois diques gigantes já existentes: o dique de Saemangeum, na Coreia do Sul, e o de Maasvlakte 2, na Holanda.
E, essa eventual nova construção teria uma grande desvantagem, que é, uma vez construída, não poderia ser facilmente desmontada caso não funcionasse como previsto.
Thomas Haine, professor de Ciências da Terra e Planetárias da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos, disse ao NYT que as conclusões do estudo são muito incertas e as potenciais consequências para a pesca e o tráfego marítimo são demasiado grandes.
A barragem no Estreito de Bering parece roteiro de ficção científica. Ainda assim, dois cientistas holandeses decidiram estudar a ideia. O objetivo seria tentar impedir o colapso da AMOC, a grande circulação oceânica do Atlântico que ajuda a regular o clima em várias partes do planeta. O estudo, publicado na Science Advances, não propõe a obra como solução imediata. Ele mostra outra coisa: a crise climática já empurra a ciência para hipóteses extremas.
A preocupação não surgiu do nada. Em 2023, um estudo publicado na Nature Communications estimou que a AMOC poderia entrar em colapso entre 2037 e 2109, com maior probabilidade em meados deste século, se as emissões continuarem no ritmo atual. Agora, em abril de 2026, outro estudo publicado na Science Advances tornou o alerta ainda mais grave: a AMOC pode enfraquecer entre 43% e 59% até 2100. A média chega a 51%, quase 60% acima do enfraquecimento projetado por modelos climáticos anteriores.
É neste contexto que aparece a barragem no Estreito de Bering. A proposta não deve ser lida como obra pronta para sair do papel. Ela serve, antes, como sintoma de uma época em que cientistas já estudam intervenções antes vistas como impensáveis. Segundo a Universidade de Utrecht, a ideia poderia ajudar apenas em determinadas condições. Se a AMOC já estiver fraca demais, fechar o Estreito de Bering poderia piorar o problema.
Fontes: Um Só Planeta, Olhar Digital, CPG – Click Petróleo e Gás, Mar Sem Fim
Imagem: Brasil Escola.


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