Emissões brasileiras atingem maior nível em 19 anos

A poucos dias da Conferência da ONU sobre o Clima, o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (SEEG) divulgou um número nada animador para a imagem do país no cenário internacional: as emissões brasileiras em 2021 tiveram sua maior alta em 19 anos.

No ano passado, o país emitiu 2,42 bilhões de toneladas brutas de CO2 equivalente. Em 2020, o número registrado havia sido 2,16 bilhões, o que representa um aumento de 12,2% quando comparados os dois períodos.

Os dados fazem parte do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg) e foram divulgados nesta quinta-feira (01/11). O projeto, que publica essas informações desde 2013, integra o Observatório do Clima, rede que reúne 77 organizações, entre ONGs, institutos de pesquisa e movimentos sociais.

O recorde é catalisado pela energia, pela pecuária e, principalmente, pelas taxas recordes de desmatamento na Amazônia durante o governo do presidente Jair Bolsonaro — no ano passado, a destruição dos biomas brasileiros poluiu mais a atmosfera que todo o Japão.

O volume representa cerca de 4% das emissões planetárias, atrás apenas de China, EUA, Índia e Rússia.

As emissões brutas brasileiras em 2021 foram 12,2% mais altas que em 2020, segundo os dados compilados pelo Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima, a principal rede da sociedade civil brasileira sobre a agenda climática, que reúne 77 organizações. As emissões líquidas cresceram 17%.

É o quarto ano consecutivo que o número aumenta, algo inédito desde que a série histórica começou em 1990. O crescimento deste ano só não é maior que o de 2003, quando o país viu suas emissões crescerem inéditos 20% devido ao aumento do desmatamento na Amazônia.

A emissão bruta per capita dos brasileiros é de 11,4 toneladas de CO2, acima da média global de 6,7 toneladas, mas os números variam bastante a depender do estado, indo de 2 a 94 toneladas — a meta global é que o índice se aproxime de uma tonelada de CO2 por habitante em 2050. O número brasileiro é similar ao chinês, de 9 mil toneladas, menor que o dos EUA, onde o número chega a 18 mil, e mais que o dobro do indiano, de 4 mil.

Os estados que mais emitem são o Pará, devido às mudanças no uso da terra, seguido pelo Mato Grosso, graças à agropecuária, São Paulo e Amazonas.

As emissões cresceram em todos os setores, exceto resíduos, mas 49% delas vieram de mudanças no uso da terra, ou seja, sobretudo ao desmatamento. O país vai na contramão das promessas feitas na COP26 e confirmadas à ONU em abril deste ano: cortar as emissões em 37% até 2025, em comparação com 2005, e reduzi-las pela metade até o fim da década. Também está distante de zerar o desmate ilegal, como disse que faria nos próximos seis anos, mesmo sem traçar planos para isso.

A meta, disse Azevedo, é pouco ambiciosa, e cumpri-la não é “nenhum bicho de sete cabeças”: para chegar lá, é necessário controlar o desmatamento. O aumento anual de 18,5% nas emissões brutas geradas por mudanças no uso da terra, entretanto, também é o maior dos últimos 19 anos, mostra a 10ª edição do relatório: a destruição dos biomas brasileiros por si só foi responsável por lançar 1,19 bilhão de toneladas brutas de CO2 na atmosfera em 2020.

Apenas o desmatamento na Amazônia responde por 77% da poluição causada pelo setor no último ano. Nos três primeiros anos do governo Bolsonaro, a área desmatada cresceu 73%, segundo dados do sistema Prodes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Pós-eleição

O relatório vem também dois dias após a confirmação da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, que fez sinalizações contundentes para a Amazônia em seu primeiro discurso depois do resultado. Disse que o “Brasil está pronto para retomar seu protagonismo na luta contra a crise climática, protegendo todos os nossos biomas, sobretudo a Floresta Amazônica”.

Entre 2004 e 2012, os governos petistas reduziram em 80% o desmate na região, e agora Lula promete “lutar pelo desmate zero”, dizendo-se comprometido com os povos indígenas, com o monitoramento da floresta e o combate ao garimpo, por exemplo. A guinada foi bem vista pela comunidade internacional e deve transformar o governo de transição em uma das estrelas da COP27.

— O desejo é que nada disso sucumba às agendas negociadas com o Centrão. Que ela permaneça uma agenda com o mesmo grau de importância de outras agendas tão vitais como o combate à fome e a recuperação econômica — disse Azevedo. — Temos todas as condições de reverter isso e sair desta posição de patinho feio.

Outros biomas também sofrem, já que os gases-estufa emitidos pela destruição da Mata Atlântica e do Cerrado subiram respectivamente 65% e 4%. O desmate não é o vilão único, já que as emissões do setor de processos industriais e usos de produtos cresceram 8,2%. No setor de energia, o incremento foi de 12,2%, o maior desde 1973, ano do chamado “milagre econômico” da ditadura militar — cenário que acompanha a tendência mundial na recuperação econômica pós-pandemia, após registrar quedas durante a crise sanitária.

Energia e pecuária

O setor energético emitiu 435 milhões de toneladas de CO2 em 2021, contra 387 milhões do ano anterior. O relatório também atribui a alta a outros dois fatores: a queda da safra de cana, que aumentou o preço do etanol, e a pior estiagem em nove décadas no Centro-Sul brasileiro em nove décadas, que secou hidrelétricas e demandou que termelétricas fossem acionadas.

— Não adianta você ter mais energia solar e eólica se você continua precisando ligar as termelétricas quando falta água — disse Azevedo, ressaltando que o desmate na Amazônia reduz a capacidade de geração de vapor d’água no Centro-Sul, impactando muito o Pantanal, mas também o restante do país.

A agropecuária também teve as maiores emissões de sua série histórica, após um crescimento de 3,8%: foram 601 milhões de toneladas de CO2, contra 579 milhões em 2020. A África do Sul inteira polui menos que todo o agro brasileiro — se fosse um país, o setor ocuparia o 16º lugar no ranking das nações mais poluidoras.

A maior responsável pelo recorde é a pecuária, que representa 79,4% das emissões do setor, após o rebanho bovino aumentar 3,1% em 2021, três vezes mais que a média dos últimos 18 anos, chegando a recordes 224 milhões de cabeças.

O aumento vai também na contramão de outro pacto assinado pelo Brasil no ano passado, em que 103 nações se comprometeram a cortar em 30% as emissões de metano até 2030. Na agricultura, os problemas centrais são o uso de fertilizantes nitrogenados e o volume de calcário nas lavouras.

Fonte: Um Só Planeta, DW, Ambiente Brasil.

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