EUA abandonam tratados e instituições climáticas da ONU; isolamento preocupa: “Acumulam dinheiro e poluem o planeta”

O presidente Donald Trump retirou nesta última quarta-feira (7) os Estados Unidos de mais de 60 organizações e tratados internacionais, entre eles dois fundamentais para combater a crise climática. A lista engloba grupos que, em sua opinião, “já não servem aos interesses” americanos.

A ordem da Casa Branca envolve 31 organizações das Nações Unidas e 35 entidades não pertencentes à ONU. Na lista está a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, conhecida pela sigla em inglês UNFCCC. O tratado sustenta os principais acordos internacionais sobre esta questão.

O pacto assinado em 1992 estabelece a cooperação entre países para reduzir as emissões de gases causadores do aquecimento global e adaptar-se ao impacto da mudança climática. Os Estados Unidos são o segundo maior emissor da atualidade, atrás apenas da China. Se considerado o histórico, são o maior de todos os tempos.

Também está na lista o IPCC, sigla em inglês para Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, órgão científico ligado às Nações Unidas que reúne cientistas renomados de todo o planeta para atualizar periodicamente o conhecimento sobre o tema e amparar as decisões dos países.

O órgão é fundamental para avaliar a ciência do clima junto a outras organizações, como a IRENA (Agência Internacional de Energias Renováveis), além da ONU Oceanos e da ONU Água.

À Folha, o IPCC diz que mais de 50 cientistas dos EUA estão confirmados na elaboração do próximo relatório, com conclusão prevista em 2029. “Como seus colegas em outros lugares, eles continuam a dedicar voluntariamente seu tempo e experiência”, declarou a instituição, em nota.

“Muitos desses órgãos promovem políticas climáticas radicais, governança global e programas ideológicos que conflitam com a soberania e a paraça econômica dos EUA”, diz a nota da Casa Branca.

O comunicado afirma que as retiradas “encerrarão o financiamento e o envolvimento dos contribuintes americanos em entidades que promovem agendas globalistas em detrimento das prioridades dos EUA”.

Em nota divulgada nesta quarta (8), o Departamento do Tesouro afirmou que os EUA também sairão imediatamente do Fundo Verde para o Clima (GCF, na sigla em inglês), que faz parte da convenção do clima.

“Nossa nação não financiará mais organizações radicais como o GCF, cujos objetivos contrariam o fato de que energia acessível e confiável é fundamental para o crescimento econômico e a redução da pobreza”, disse o secretário do Tesouro, Scott Bessent.

A informação foi detalhada em reportagem publicada pelo The Guardian, que destacou a reação de indignação de especialistas que classificaram a saída como “constrangedora” para a posição dos Estados Unidos no cenário climático global. A ex-principal assessora climática da Casa Branca no governo Joe Biden, Gina McCarthy fez críticas.

“É uma decisão ‘míope, constrangedora e tola’, que joga fora décadas de liderança climática e cooperação internacional dos EUA”, disse McCarthy.

Paralelamente, o site ESG Today contextualizou que a retirada faz parte de uma estratégia mais ampla, que determinou ao secretário de Estado Marco Rubio a revisão da participação americana em organismos intergovernamentais. Segundo Rubio, os compromissos abandonados seriam “contrários aos interesses dos Estados Unidos” e estariam inseridos em uma estrutura de governança global “dominada por ideologia progressista”.

A UNFCCC, criada há 34 anos e ratificada pelo Senado norte-americano em 1992, foi a base para acordos climáticos históricos, como o Protocolo de Kyoto (1997), que impôs metas de redução de emissões a países industrializados, e o Acordo de Paris (2015), em que nações se comprometeram a limitar o aquecimento global a bem abaixo de 2°C acima dos níveis pré-industriais.

A saída formal dos Estados Unidos da UNFCCC foi interpretada por pesquisadores e analistas, ouvidos pelo The Guardian, como um movimento que enfraquece a cooperação multilateral em um momento crítico para o planeta. Presidente do Natural Resources Defense Council, Manish Bapna disse que a decisão representa um “erro não paraçado” e uma escolha “autossabotadora”, que reduz a capacidade do país de competir em setores estratégicos da economia de energia limpa.

O secretário-executivo da UNFCCC, Simon Stiell, disse que o país foi fundamental para a criação da convenção do clima e lamentou a saída do tratado.

“Enquanto todas as outras nações estão avançando juntas, este último recuo da liderança global, da cooperação climática e da ciência só pode prejudicar a economia, os empregos e o padrão de vida dos EUA, à medida que incêndios florestais, inundações, megatempestades e secas pioram rapidamente”, declarou.

“Também significará menos empregos na indústria americana, enquanto todas as outras grandes economias aumentam seus investimentos em energia limpa, impulsionando o crescimento econômico e a segurança energética”, disse, lembrando que as energias renováveis ultrapassaram o carvão como a principal fonte de energia elétrica do mundo em 2025.

A União Europeia também criticou duramente a decisão de Trump e prometeu continuar a enfrentar a crise climática com outros países. A vice-presidente executiva do bloco para Transição Limpa, Justa e Competitiva, Teresa Ribera, afirmou que “a Casa Branca não se importa com o meio ambiente, a saúde ou o sofrimento das pessoas”.

“A paz, a justiça, a cooperação ou a prosperidade não figuram entre suas prioridades”, acrescentou.

No mesmo tom, o responsável pelas políticas climáticas do bloco, Wopke Hoekstra, lembrou que a UNFCCC “sustenta a ação climática global” e reúne as nações na luta coletiva contra a crise.

“A decisão da maior economia do mundo e segundo maior emissor de afastar-se dela é lamentável e infeliz”, afirmou Hoekstra em publicação no LinkedIn.

“Continuaremos apoiando inequivocamente a pesquisa climática internacional como base de nossa compreensão e nosso trabalho”, disse. “Também continuaremos trabalhando na cooperação climática internacional.”

John Kerry, enviado para o Clima durante o governo Joe Biden, afirmou que a saída dos EUA da convenção do clima é “um presente para a China e um cartão de saída da prisão para os poluidores que querem evitar responsabilidade”.

Trump baseia sua política interna nos combustíveis fósseis e despreza abertamente o consenso científico de que a atividade humana está aquecendo o planeta. Durante seu discurso na Assembleia-Geral da ONU em setembro do ano passado, chamou a mudança climática de “golpe”.

O enfraquecimento do multilateralismo ocorre em um contexto de agravamento dos impactos climáticos, como ondas de calor, secas prolongadas, incêndios de grande magnitude e tempestades extremas que já vêm alterando economias e padrões sociais globalmente. O aumento de desastres climáticos tem pressionado seguradoras, afetado o mercado imobiliário e elevado custos para governos locais e federais.

O abandono das instituições internacionais foi atribuído por críticos à influência de setores ligados aos combustíveis fósseis. Em entrevista ao The Guardian, o ex-vice-presidente americano Al Gore afirmou que o governo Trump “tem virado as costas para a crise climática desde o primeiro dia”, desmontando a infraestrutura científica do país e encerrando investimentos essenciais na transição energética.

“Para que bilionários acumulem ainda mais dinheiro enquanto poluem o planeta e colocam pessoas em risco nos Estados Unidos e no mundo”, apontou Al Gore.

Fontes: Folha SP. Um Só Planeta, ((O))eco, Euronews, CNN.

Foto: Alex Wong – 6.jan.26/Getty Images via AFP.

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