Fumaça de incêndios florestais é quase duas vezes mais letal do que se pensava

A fumaça liberada por incêndios florestais é muito mais perigosa para a saúde do que se acreditava. Um novo estudo liderado pelo Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) aponta que as mortes por exposição de curto prazo às partículas finas PM2.5 — liberadas durante queimadas — têm sido subestimadas em 93%.

Segundo os pesquisadores, entre 2004 e 2022, cerca de 535 pessoas morreram, em média, todos os anos na Europa em consequência direta da inalação dessas partículas tóxicas. Pelos métodos convencionais, que equiparam a toxicidade da poluição por incêndios à de outras fontes, como o tráfego urbano, esperava-se apenas 38 óbitos anuais.

Ondas de calor intenso estão causando sérios problemas na Europa. Segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, da União Europeia, o continente está aquecendo mais rápido do que qualquer outro, quebrando recordes de temperatura e registrando expansão dos números de incêndios florestais.

Já são conhecidas as propriedades tóxicas da fumaça liberada por esses incêndios, porém um estudo publicado em 13 agosto na revista científica The Lancet Planetary Health sugere que ela é muito mais perigosa à saúde do que se imaginava.

Material particulado tóxico

A poluição do ar ameaça constantemente à saúde humana, e estudos indicam que os incêndios florestais possuem papel significativo para o alto número de mortes. Ainda assim, assumia-se que a toxicidade das partículas de incêndio, chamadas de PM2.5, era a mesma que outras partículas.

O material particulado que forma o PM2.5 é tão minúsculo que é capaz de penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea, causando problemas respiratórios, cardiovasculares e cerebrovasculares. Diante disso, os cientistas da ISGlobal investigaram os registros diários de mortalidade de 32 países europeus entre os anos de 2004 e 2022. Eles combinaram os dados com estimativas de poluição por PM2.5 no mesmo período.

Considerando a padronização de que as finas partículas de incêndios florestais ativos são tão letais quanto aquelas de outras fontes, esperava-se uma média de 38 mortes por ano. Entretanto, a média registrada atingiu 535 mortes por ano causadas pela inalação de PM2.5 na Europa.

“Nosso artigo mostra evidências de que — embora ocorra com menos frequência — o impacto na saúde para a mesma quantidade de partículas é mais forte quando se trata de partículas de incêndios florestais”, afirma Cathryn Tonne, epidemiologista ambiental do ISGlobal e coautora do estudo, em entrevista ao The Guardian.

De acordo com o estudo, para cada micrograma de PM2.5 adicional por metro cúbico de ar, a mortalidade para qualquer tipo de causa aumenta 0,7%. Já para doenças respiratórias e cardiovasculares, o aumento era de 1% e 0,9%, respectivamente.

Eventos climáticos extremos

Os resultados da pesquisa são divulgados enquanto a Europa atualmente enfrenta ressecamento de vegetações e incêndios florestais em larga escala, especialmente em países ao sul do continente, como Portugal e Espanha. De acordo com dados de monitoramento da União Europeia, as queimadas registradas em 2025 já emitiram mais que o dobro da quantidade de PM2.5 normalmente gerada até essa época do ano nas últimas duas décadas.

“As mudanças climáticas induzidas pelo homem estão contribuindo para o aumento da frequência e da intensidade dos incêndios florestais, pois criam condições favoráveis à sua propagação e aumentam o número de dias com risco de incêndio alto ou extremamente alto”, diz Anna Alari, pesquisadora do ISGlobal e primeira autora do estudo, em comunicado.

Invadindo as casas de mais de 1 bilhão de pessoas por ano, a poluição tóxica de incêndios florestais se torna uma causa de morte que pode passar despercebida. Tonne declara que a fumaça pode afetar populações muito distantes dos incêndios, sendo que muito mais pessoas são “expostas à fumaça do que à ameaça física e direta das chamas”.

O alerta chega em meio a uma temporada devastadora na Espanha. Só em 2025, mais de 895 mil hectares já foram consumidos pelo fogo na Europa — o dobro da média registrada nas últimas duas décadas para esta época do ano. Além das mortes diretas pelas chamas, especialistas ressaltam que os efeitos da fumaça atingem milhões de pessoas, mesmo a centenas de quilômetros de distância.

Para os pesquisadores, o avanço das mudanças climáticas intensifica a ameaça. O aumento das ondas de calor e a seca prolongada transformam vastas regiões em verdadeiros barris de pólvora. “O problema já não é apenas do Mediterrâneo, mas de toda a Europa”, alertou Victor Resco de Dios, professor da Universidade de Lleida.

Fontes: Revistas Galileu, Um Só Planeta, Superinteressante.

Foto: Maira Erlich/Bloomberg via Getty Images.

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