Em setembro de 2024, áreas de preservação federal e parques estaduais foram fechados devido aos incêndios florestais que atingem grande parte do País. Segundo o ICMBio, no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, próximo a Cuiabá (MT), os principais atrativos (Morro São Jerônimo, Véu de Noiva, Circuito das Cachoeiras, Cachoeirinha e Cachoeira dos Namorados) estão fechados.
A Floresta Nacional de Brasília também segue fechada nesta segunda-feira, 9, assim como o percurso do morro Araçoiaba na Floresta Nacional de Ipanema, a 120 km da cidade de São Paulo.
Segundo informações da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) do Estado de SP, 81 parques estaduais paulistas também se encontram fechados desde o início do mês.
Desde a última quinta-feira, 5, o fogo também atinge o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, declarado Patrimônio Mundial Natural pela Unesco. A unidade está aberta e funciona normalmente, já que, segundo a Parquetur, concessionária responsável pela gestão do parque, “os locais do incêndio estão distantes das trilhas acessadas por turistas”.
O ICMBio informa que, até o momento, foram queimados 2.729 hectares no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, 2.176 hectares na Floresta Nacional de Brasília e 7 mil hectares no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.
Parques atraem turistas e fomentam preservação
Em 2023, os parques nacionais do País atingiram a marca histórica de 11,8 milhões de visitantes. Ao atraírem turistas, eles movimentam a economia local e fomentam a preservação dos ecossistemas.
O ecoturismo tem sido responsável por 60% do faturamento do turismo no Brasil, segundo uma pesquisa do Sebrae Nacional realizada com o apoio do Ministério do Turismo.
Em nota, a pasta informou que “o fortalecimento do ecoturismo sustentável é um dos principais pontos do Plano Nacional de Turismo (PNT) 2024-2027, lançado em agosto, que finca as bases para que a sustentabilidade seja palavra de ordem nas ações do MTur”.
Além do Centro-Oeste, destinos turísticos no Cerrado de Minas Gerais também estão queimando. No último fim de semana, o recanto ecológico da pousada Vale do Céu em Delfinópolis (MG), na Serra da Canastra, foi devastado pelo fogo. Um incêndio já havia atingido o Parque Nacional da Serra da Canastra na semana passada, mas foi controlado.
A serra mineira abriga as nascentes das bacias dos rios São Francisco, Araguari e Santo Antônio, além de numerosas espécies em extinção.
Impacto na receita e segurança hídrica de municípios
Servidor há 14 anos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente, o coordenador de manejo integrado do fogo João Morita vê em 2024 um cenário “muito parecido, senão pior” do que o de 2020 em relação ao fogo que atinge concomitantemente unidades de conservação administradas pelo instituto.
Segundo ele, além da ocorrência de focos em várias unidades ao mesmo tempo, a semelhança também está no comportamento extremo do fogo e em sua propagação violenta novamente em 2024, facilitada pelo tempo seco, o vento forte e as temperaturas altas.
Além dos prejuízos econômicos para a comunidade local provocados pelos incêndios, João Morita, enfatiza o dano ambiental e os impactos de longo prazo para a região e seu entorno.
“Os parques não só possibilitam a interação da população com a natureza, gerando benefícios de forma direta, mas são protegidos também por causa das nascentes”, afirma Morita.
No caso de Brasília, onde vive, ele aponta que a Floresta Nacional é responsável pelo abastecimento hídrico de todo o norte do Distrito Federal. Ela protege nascentes e trechos de córregos da Bacia do Paranoá e teve quase metade de sua área queimada neste ano.
Prevenção ao fogo e turismo como parte da solução
Segundo Morita, nem todas as unidades de conservação são de propriedade exclusiva do Estado; em algumas delas, há sobreposição com territórios indígenas e quilombolas e pessoas morando dentro das reservas, o que torna complexa a gestão do fogo.
Ao mesmo tempo, com o treinamento das brigadas voluntárias e a criação de espaços de governança que congreguem essas populações e as instituições responsáveis pela prevenção e combate ao fogo, habitantes dos territórios podem ser os maiores aliados para evitar os incêndios florestais.
Nesse ponto, a especialista em turismo e mudanças climáticas Isabel Grimm afirma que “o turismo pode atuar como agente transformador, incentivando os visitantes a adotarem comportamentos responsáveis nas áreas naturais e preparando guias e operadores turísticos para colaborar na detecção precoce e na rápida resposta a possíveis focos”.
Para ela, o turismo também pode se tornar uma ferramenta de apoio à preservação e de recuperação das áreas afetadas por incêndios através do incentivo ao desenvolvimento do turismo sustentável e regenerativo.
Segundo a professora do Programa de Mestrado da Universidade de Vassouras e da Universidade Santa Úrsula e diretora-geral do Instituto Superior de Administração e Economia, o ecoturismo pode ainda ajudar desenvolver planos de contingência mais eficazes em parceria com agentes de interesse e promover o engajamento comunitário em programas de preservação, “oferecendo incentivos para que essas comunidades atuem como guardiãs dos dos parques”.
Fonte: Estadão.
Foto: Divulgação.