Mais da metade das aves migratórias do mundo está em declínio, aponta revisão publicada na Nature

Mais da metade das espécies de aves migratórias do planeta está com suas populações em declínio, segundo uma revisão científica publicada na revista Nature Reviews Biodiversity. O estudo estima que 51% das espécies migratórias apresentam redução populacional em diferentes regiões do mundo e alerta que, sem ações mais eficazes de conservação, novas extinções serão inevitáveis.

A revisão, intitulada Status, threats and conservation of Earth’s migratory birds (“Situação, ameaças e conservação das aves migratórias da Terra”, na tradução livre) foi conduzida por pesquisadores de instituições como a Universidade de Georgetown, o Instituto Smithsonian de Biologia da Conservação e especialistas de diversos países. O trabalho reúne décadas de pesquisas, programas internacionais de monitoramento e bases globais de dados para oferecer um panorama sobre a situação das aves migratórias.

Além das espécies já classificadas como ameaçadas — cerca de 300, segundo os autores —, o estudo destaca que aves antes consideradas comuns também vêm sofrendo perdas significativas de indivíduos, indicando que o problema é mais amplo do que a lista oficial de espécies em risco de extinção.

“A perda de populações ocorre em todas as regiões do planeta e levanta preocupações urgentes sobre a persistência de um dos grupos mais visíveis e ecologicamente importantes da biodiversidade”, afirmam os autores na revisão.

Conservação é mais complexa para espécies migratórias

Os pesquisadores destacam que proteger aves migratórias é um desafio particularmente complexo porque esses animais percorrem milhares de quilômetros ao longo do ano, cruzando continentes, oceanos e fronteiras nacionais.

Durante esse percurso, dependem de diferentes áreas para reprodução, alimentação, descanso e invernada. Qualquer degradação em um desses ambientes pode comprometer todo o ciclo de vida da espécie.

Segundo a revisão, entre as principais ameaças estão a perda e a fragmentação de habitats, as mudanças climáticas, espécies invasoras, doenças, o uso de pesticidas e colisões com edifícios e outras estruturas construídas pelo ser humano.

Para Peter P. Marra, reitor do Earth Commons Institute, da Universidade de Georgetown, e um dos autores principais do estudo, o cenário é resultado de décadas de pressão sobre os ecossistemas.

“O que estamos vendo é a consequência previsível de décadas de degradação ambiental. No entanto, esses declínios não são inevitáveis”, afirmou Marra, em comunicado divulgado pela universidade.

Segundo o pesquisador, além de diagnosticar a situação, o trabalho identifica lacunas no conhecimento científico e propõe caminhos para reverter a tendência antes que mais espécies sejam levadas à extinção.

Monitoramento ainda é insuficiente

Os autores ressaltam que ainda há muitas incertezas sobre o estado de conservação das aves migratórias. A revisão aponta que o monitoramento global enfrenta limitações técnicas, financeiras e geográficas, especialmente no Sul Global, dificultando identificar exatamente onde as populações estão diminuindo e quais fatores são responsáveis pelas perdas.

Essa lacuna ocorre porque as aves percorrem diferentes ambientes ao longo do ano, o que torna mais difícil relacionar os declínios a ameaças específicas.

Para superar esse desafio, os pesquisadores apontam o avanço de tecnologias como dispositivos de rastreamento por satélite, monitoramento acústico com inteligência artificial, modelos populacionais e iniciativas de ciência cidadã, como a plataforma eBird, que reúne observações feitas por milhões de observadores de aves ao redor do mundo.

Essas ferramentas permitem mapear rotas migratórias, compreender como diferentes populações estão conectadas e identificar os fatores que limitam a sobrevivência das espécies.

A revisão conclui que as estratégias atuais de conservação, centradas principalmente na criação de áreas protegidas e no combate a ameaças localizadas, não são suficientes para proteger muitas aves migratórias. Isso porque grande parte dessas espécies passa a maior parte de seu ciclo de vida fora de unidades de conservação.

Os autores defendem uma abordagem baseada em todo o ciclo anual das aves, capaz de identificar os fatores que limitam as populações antes que elas entrem em declínio acentuado. Essa estratégia deve ser combinada com proteção de habitats em escala de paisagem, redução de ameaças específicas, fortalecimento da cooperação internacional, ampliação do financiamento e integração entre ciência, políticas públicas e participação social.

Entre as iniciativas citadas está o programa Road to Recovery, sediado na Universidade de Georgetown, que busca identificar precocemente os fatores responsáveis pela redução das populações e implementar medidas de conservação antes que as espécies passem a integrar as listas de ameaçadas, como explica reportagem da Galileu.

Apesar do cenário preocupante, os pesquisadores destacam que há exemplos de sucesso. Programas de conservação já conseguiram recuperar populações de aves aquáticas, garças, aves limícolas e aves de rapina que chegaram a ficar próximas da extinção.

“Sabemos que a conservação funciona. Esta revisão mostra que temos o conhecimento científico necessário para reverter muitos desses declínios. O desafio agora é reunir parcerias, recursos e o compromisso político e público para implementar essas soluções na escala que as aves migratórias exigem”, afirmou Marra, em comunicado da Universidade de Georgetown.

Fonte: Um Só Planeta.

Foto: Stephan Sprinz CC4.0/WikimediaCommons.

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