Microplásticos na água podem gerar substâncias capazes de causar danos biológicos, aponta estudo

O planeta está infestado de plásticos. Sejam grandes ou fragmentados em partículas minúsculas — microplásticos e nanoplásticos —, eles chegaram aos locais mais remotos do globo, infiltraram-se na cadeia alimentar e alcançaram, inclusive, tecidos humanos. Sua presença não para de crescer, e a comunidade científica já manifestou preocupação com o possível impacto desses materiais — especificamente os menores — na saúde humana: o rastro que deixam ainda é, em grande medida, uma incógnita, mas já existem indícios de que os microplásticos podem danificar o DNA e desencadear doenças.

Agora, uma nova pesquisa, publicada nesta quarta-feira na revista *Nature*, lança um pouco mais de luz sobre como esses materiais atuam e identifica um mecanismo que pode ajudar a compreender como surgem os efeitos nocivos dessas partículas no organismo.  Este estudo encontrou evidências de que essas pequenas partículas conseguem gerar, por conta própria, moléculas altamente reativas conhecidas como espécies reativas de oxigênio.

Essas moléculas podem danificar células e tecidos quando produzidas em excesso e já haviam sido associadas, em pesquisas anteriores, aos efeitos tóxicos dos microplásticos.

O novo estudo indica que esse processo pode começar na própria superfície dos microplásticos, a partir do contato com a água.

Plásticos costumam ser tratados como materiais relativamente inertes, uma das razões pelas quais são usados em embalagens, garrafas e outros produtos do dia a dia. Quando se quebram em partículas muito pequenas, porém, a proporção de superfície exposta aumenta bastante.

Segundo o novo estudo, essa superfície pode participar de reações químicas capazes de produzir essas moléculas reativas.

O estudo rompe com a ideia, consolidada no imaginário científico, de que os plásticos são quimicamente inertes e, portanto, seguros para o uso humano — eles são utilizados, por exemplo, para embalar alimentos, fabricar brinquedos ou engarrafar água. Os pesquisadores descobriram que, na água, quando um fragmento de plástico se decompõe em partículas minúsculas, esses microplásticos podem alterar o ambiente aquático ao seu redor ao gerar moléculas muito específicas: as espécies reativas de oxigênio (ROS, na sigla em inglês). Os autores avaliam que, “muito provavelmente”, essas ROS geradas contribuem para os danos biológicos observados em animais expostos aos microplásticos. “Considera-se que os plásticos não participam facilmente de reações químicas em condições ambientais habituais. No entanto, nossa descoberta questiona um aspecto importante dessa concepção tradicional. Observamos que, embora o material plástico, como um todo, possa ser quimicamente estável, sua interação com a água pode apresentar uma atividade química inesperada”, sintetiza Wei Min, autor do estudo, em uma resposta por e-mail. O pesquisador, da Universidade de Columbia, esclarece que não é que as próprias moléculas do polímero sofram alterações profundas quando o plástico se quebra. Na verdade, explica ele, ao se fragmentar, aumenta a superfície de polímeros exposta à água e, com isso, amplia-se a importância dos processos químicos que ocorrem nessa superfície.

A pesquisa sobre microplásticos e saúde ainda navega em um oceano de incertezas. “Há cada vez mais evidências de que os microplásticos e nanoplásticos podem ter consequências adversas para a saúde dos sistemas biológicos, induzindo estresse, inflamação e citotoxicidade”, explicam os pesquisadores no artigo. Estudos epidemiológicos encontraram uma associação entre a exposição a esses materiais minúsculos e danos à saúde reprodutiva, problemas cardiovasculares, doenças neurológicas ou câncer. Contudo, os mecanismos moleculares por trás dessa associação — “provavelmente multifatoriais”, acrescentam os autores — permanecem pouco claros. Os pesquisadores acreditam que a composição do plástico, a morfologia das partículas e a forma como elas se comportam no ambiente em que circulam influenciam a maneira como interagem com os sistemas biológicos.

“Nossa pesquisa revelou que, quando os microplásticos interagem com a água — seja em água engarrafada ou após serem absorvidos pela nossa corrente sanguínea —, eles geram espontaneamente o que chamamos de espécies reativas de oxigênio (EROs)”, explica Naixin Qian, pesquisadora de pós-doutorado no laboratório de Wei Min e coautora principal do estudo, em um comunicado. “As EROs são o exemplo clássico de moléculas capazes de danificar tecidos animais e humanos.”

As EROs são produzidas naturalmente em nosso organismo e desempenham funções fundamentais em processos biológicos normais, como a sinalização celular e a defesa imunológica. O problema é que, quando produzidas em excesso, podem causar estresse oxidativo, aponta Min: “As EROs podem atacar moléculas biológicas essenciais, como proteínas, membranas celulares e o DNA, podendo alterar o funcionamento normal das células”. Além disso, ele indica que essas espécies reativas podem favorecer transformações químicas em moléculas próximas.

Uma conexão química

Min lembra que, há anos, cientistas relatam que os microplásticos podem causar estresse oxidativo, inflamação e outros efeitos nocivos. “Mas ainda restava uma pergunta importante: por que partículas constituídas por polímeros aparentemente inertes causariam esses efeitos? Nosso estudo traz uma possível peça que faltava para estabelecer essa conexão química”, ressalta o cientista. E explica como funciona: “Quando os microplásticos entram em contato com a água, suas interações podem adquirir atividade química e gerar espécies reativas. Posteriormente, essas espécies podem interagir com moléculas biológicas e, potencialmente, desencadear danos oxidativos e outras respostas celulares”.

Essa fonte de atividade química entre duas substâncias aparentemente comuns, como a água e o plástico, havia passado despercebida até agora, afirma Min, mas pode ser muito importante para compreender o impacto dos microplásticos na saúde, já que “a água está presente de forma onipresente tanto em ambientes naturais quanto em organismos vivos”. “Nossas descobertas revelam um novo mecanismo potencial pelo qual os microplásticos poderiam afetar a saúde humana”, aponta.

No entanto, o cientista ressalta que é preciso distinguir entre “um mecanismo potencialmente prejudicial e riscos à saúde humana que tenham sido comprovados”. Seu estudo não estabelece que a exposição a uma determinada quantidade de microplásticos cause doenças, nem determina a magnitude do risco. “O próximo passo fundamental consiste em investigar como esse mecanismo [descoberto] funciona em ambientes biológicos realistas e se ele contribui de forma significativa para danos celulares e para o desenvolvimento de doenças”.

Alba Hernández Bonilla, professora do Departamento de Genética e Microbiologia da Universidade Autônoma de Barcelona, ​​afirma que esta pesquisa — da qual ela não participou — “abre uma porta e oferece argumentos para observações anteriores cujas causas eram desconhecidas”. “Este estudo quebra um dogma, e isso é muito importante, porque há pessoas que se escudam na ideia de que os microplásticos são inertes para afastar a noção de que esses materiais podem ser nocivos. Se não são inertes e, em contato com a água, produzem radicais livres de oxigênio, isso é relevante e pode ter consequências”, aponta.

Para a pesquisadora, especialista no estudo do impacto dos microplásticos na saúde, essas descobertas acrescentam uma variável a ser considerada na análise do potencial nocivo desses materiais minúsculos. “Se antes observávamos a forma ou o tamanho dos microplásticos, agora há um elemento a mais em pauta: a reação que eles produzem ao interagir com a água pode ser tão ou mais importante do que o tipo de polímero, a forma ou o tamanho para determinar se são seguros ou não”, ressalta.

Em comentário divulgado pelo Science Media Centre (SMC) Espanha, June-Woo Park, pesquisador do Centro de Pesquisa sobre Segurança Ambiental do Instituto Coreano de Toxicologia, afirmou que trabalhos anteriores já haviam relacionado essas moléculas aos efeitos tóxicos dos microplásticos.

Por isso, ainda segundo ele, o diferencial do novo estudo é mostrar como elas podem ser geradas.

Park também considera que este estudo é “relevante, pois traz evidências científicas sobre o mecanismo pelo qual os microplásticos geram ROS”. “Por se tratar de um estudo que confirma os perigos dos microplásticos, ele pode servir como base para abordar questões relacionadas aos microplásticos e nanoplásticos, especialmente para o desenvolvimento de políticas de gestão”, afirma o especialista em declarações à SMC.

Fontes: El País, g1.

Foto: Alexander Stein/Ullstein Bild/Getty Images

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