Pela primeira vez, a Mongabay Latam analisou mais de 39 estudos científicos publicados entre 1997 e 2024, que confirmam a exposição de 249 comunidades indígenas e ribeirinhas à contaminação por mercúrio no Peru, na Bolívia e no Brasil.
Quase todas apresentam níveis acima dos limites considerados seguros pela Organização Mundial da Saúde. Reportagens de campo feitas por três equipes jornalísticas mostram os impactos sobre escolas, mães lactantes e muitas comunidades indígenas.
A Mongabay Latam seguiu o rastro do mercúrio por 2.763 quilômetros de três rios amazônicos: Madre de Dios (Peru), Beni (Bolívia) e Madeira (Brasil).
A análise revela que outras 702 comunidades situadas a menos de 2 quilômetros dos rios analisados estão em risco e podem estar enfrentando a mesma situação, mas sua condição continua incerta porque não houve avaliação.
O mercúrio é um metal pesado usado no garimpo ilegal de ouro, uma atividade ilícita, violenta, altamente lucrativa e em plena expansão. Na bacia do Madre de Dios, durante 27 anos (1997 a 2024), o garimpo destruiu mais de 95 mil hectares de floresta, uma área quase equivalente a toda a zona urbana de Lima, capital do Peru, segundo a plataforma de análise por satélite MapBiomas. A situação se repete nas bacias dos rios Beni e Madeira, onde as áreas devastadas superam 9 mil e 28 mil hectares, respectivamente. E a atividade avança a cada dia, impulsionada pela alta do preço da onça de ouro (equivalente a 31 gramas), que ultrapassou 5 mil dólares em janeiro de 2026.
À medida que o ouro se valoriza no mercado internacional, aumentam a violência e o impacto mortal do mercúrio na Amazônia. Usado para separar o ouro dos sedimentos, o metal é despejado nos rios e contamina de forma irreversível a água, os peixes consumidos pelas comunidades indígenas e os locais onde elas se banham. Os efeitos sobre a saúde são devastadores e vão desde perda de memória e dores de cabeça até danos ao sistema nervoso central.
Qual é a abrangência da contaminação por mercúrio na Amazônia? Quantas comunidades e quantos moradores já se tornaram vítimas de seus impactos? Apesar da gravidade da situação, não há estudos regionais que permitam compreender por completo a escala desse enorme problema ambiental e de saúde pública. O que existe são pesquisas dispersas, feitas em algumas comunidades da bacia amazônica nesses três países.
Para quantificar o problema e preencher essa lacuna de informação, a Mongabay Latam revisou 39 estudos científicos publicados entre 1997 e 2024, que incluem medições dos teores de mercúrio em pessoas que vivem ao longo de 2.763 quilômetros dos rios Madeira, Beni e Madre de Dios, além de análises em peixes consumidos nessas áreas. O trabalho exigiu processar diferentes metodologias e padronizar medições para estabelecer com clareza o impacto, além de obter uma visão abrangente da situação.
O resultado é um banco de dados com 7.725 amostras de mercúrio coletadas em pessoas e 5.939 amostras de tecidos de peixe obtidas nessas publicações, que envolveram ao menos 130 cientistas. A análise, feita com apoio e orientação do Centro de Inovação Científica Amazônica (Cincia), vinculado à Universidade Wake Forest, nos Estados Unidos, traça o caminho da contaminação nos três emblemáticos rios amazônicos, que são hidrologicamente conectados e levam o mercúrio para as vidas de centenas de famílias.
Os dados analisados são claros: pelo menos 249 comunidades foram expostas ao mercúrio nas últimas duas décadas. Dessas, 220, ou 88%, apresentam níveis do metal pesado muito acima dos considerados seguros pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Mas esse não é o pior cenário. O mercúrio se espalhou em cada um desses rios e contaminou não apenas as 249 comunidades onde foram coletadas amostras, mas também aquelas localizadas rio abaixo.
A análise da Mongabay Latam identificou cerca de 702 comunidades em risco localizadas às margens desses três rios, a uma distância máxima de dois quilômetros, entre áreas de garimpo ilegal ativo e comunidades contaminadas. Ao todo, 951 comunidades estão sendo envenenadas por mercúrio ou vivem em situação de vulnerabilidade. Há anos, milhares de pessoas convivem com uma ameaça silenciosa, recebendo pouco ou nenhum apoio para se proteger de seus efeitos.
“A contaminação por mercúrio é um genocídio silencioso contra os povos indígenas”, diz Eusebio Ríos Iviche, vice-presidente da Federação Nativa do Rio Madre de Dios (Fenamad), organização regional do Peru que representa os povos indígenas dessa bacia hidrográfica.
A Mongabay Latam visitou 15 dos territórios mais afetados por altos níveis de mercúrio: sete no Peru, cinco na Bolívia e três no Brasil. As histórias incluem gestantes e bebês com teores extremamente elevados do metal, crianças em idade escolar com problemas de aprendizagem e moradores que dependem da pesca ou do garimpo para sobreviver enquanto, paradoxalmente, envenenam-se ao comer e trabalhar.
“Todos nós somos afetados pelo mercúrio. E estamos assim porque comemos peixe. Mas, se nós deixássemos de pescar, poderíamos morrer de fome, não teríamos dinheiro para nada”, diz Dora Quispe, moradora de Puerto Motor, pequena comunidade indígena de 28 famílias no departamento de Beni, na Amazônia boliviana.
“Os povos indígenas não têm nada a ver com a mineração, mas estamos sendo contaminados e vamos ser exterminados por esse metal”, acrescenta Ríos.
Segundo especialistas, a resposta dos três governos envolvidos nesta investigação —Bolívia, Brasil e Peru — tem sido insuficiente nas três bacias hidrográficas, já que as ações se concentram sobretudo em operações policiais, apreensão de mercúrio e destruição de dragas, que voltam a operar poucos dias depois. A saúde não tem sido prioridade.
Há vítimas expostas a níveis extremamente altos desse metal há mais de 27 anos, embora não haja garimpo em suas comunidades. Como explica Óscar Campanini, diretor do Centro de Documentação e Informação da Bolívia (Cedib), “muitos povos indígenas não têm mineração em seus territórios, mas os impactos documentados em diferentes estudos se devem à atividade realizada a centenas de quilômetros de distância.”
O mercúrio pode se deslocar por quilômetros, independentemente das fronteiras nacionais, sobretudo quando envolve bacias hidrográficas interligadas. A poluição gerada em um país, como Peru ou Bolívia, é levada pelas correntes até atingir outras áreas, como o Brasil, e pode ir ainda mais longe.
“Ele não é transportado apenas pelo rio; também se movimenta por meio do transporte global e pode se deslocar pela atmosfera até os polos. Por isso precisamos enxergá-lo de forma abrangente, por meio de suas interconexões”, explica Vega, do Cincia.
“Nós sabemos que, em nossas comunidades, isso já está afetando gestantes, crianças em seu crescimento e desenvolvimento. O mercúrio já afeta as futuras gerações dos povos indígenas. É um dano que a humanidade está deixando para os povos indígenas”, diz Ríos.
As 5.939 amostras de tecidos de peixes coletadas entre 1997 e 2024 e incluídas no banco de dados desta investigação mostram que os três rios abrigam várias espécies com altas concentrações de mercúrio: pelo menos 19 no Brasil, 15 na Bolívia e duas no Peru. Os peixes são centrais nessa história porque são a base da alimentação de comunidades indígenas e ribeirinhas. Há uma relação direta entre os altos níveis de mercúrio encontrados nos moradores e o consumo de peixes que acumulam o metal pesado nos tecidos, devido a um fenômeno conhecido como bioacumulação.
Depois de entrar nos rios, o mercúrio liberado pelo garimpo pode se transformar em metilmercúrio, sua forma mais tóxica. O plâncton absorve o metal, que sobe pela cadeia alimentar quando os peixes pequenos se alimentam de plâncton e depois são comidos pelos maiores. Nesse percurso, o mercúrio vai se concentrando cada vez mais, em um processo conhecido como biomagnificação. Por isso, peixes predadores tendem a apresentar os mais altos níveis de mercúrio, oferecendo maior risco às comunidades que dependem deles para se alimentar.
Eduardo Bessa, professor de biologia da Universidade de Brasília (UnB), explica que a parte mais consumida do peixe é o músculo que, infelizmente, também é um dos tecidos mais contaminados. “E nós não comemos apenas um peixe ao longo da vida; comemos várias vezes”, diz. E ainda mais quando se trata de uma comunidade amazônica.
Pesquisas feitas desde os anos 1990 já alertavam para altas concentrações de mercúrio em peixes amazônicos e populações ribeirinhas. Quase 30 anos depois, a situação pouco mudou. Como explica Vega, do Cincia, o garimpo “não parou; ao contrário, acelerou, com expansão e contaminação em escala gigantesca.” Ela acrescenta: “Não são necessariamente as comunidades mais próximas do garimpo que têm os níveis mais altos de mercúrio, e sim aquelas mais isoladas e que dependem principalmente da proteína do peixe.” As mais distantes, diz Vega, não têm acesso a outra fonte de proteína.
O Estado e seus planos fracassados
Nos anos 1950, centenas de moradores de Minamata, uma pequena cidade pesqueira do Japão, começaram a apresentar tremores, movimentos involuntários, perda de coordenação e dificuldades para falar ou ouvir. Mulheres que pareciam saudáveis deram à luz crianças com graves comprometimentos neurológicos. Durante anos, uma empresa química havia despejado compostos de mercúrio na baía, contaminando peixes e mariscos consumidos pela população. A tragédia, que deixou quase 3 mil vítimas oficialmente registradas pelo governo japonês, tornou-se um símbolo mundial dos riscos que esse metal tóxico representa para a saúde humana e os ecossistemas. Ela também revelou que seus efeitos podem se estender por gerações..
Décadas depois, as lições daquela catástrofe e a conclusão de que “o mercúrio e seus compostos têm importantes efeitos negativos em nível global, que justificam a adoção de medidas internacionais”, levaram à adoção da Convenção de Minamata em outubro de 2013. O tratado global, juridicamente vinculante, estabeleceu regras rígidas sobre o uso, o comércio e a produção de mercúrio, com o objetivo de eliminar gradualmente o metal. A convenção entrou em vigor em agosto de 2017.
Peru, Bolívia e Brasil são signatários da Convenção de Minamata há mais de dez anos. Mesmo assim, apesar das amplas evidências científicas e de décadas de alertas das comunidades envolvidas, especialistas consultados para esta investigação afirmam que os esforços para enfrentar a contaminação por mercúrio nos três países ainda são insuficientes.
Fonte: Mongabay.
Fotos: Javier Mamani.


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