Pecuária brasileira consome mais água por ano do que SP, RJ, BA, PR e DF juntos, aponta estudo

A produção de carne bovina e soja no Brasil, produtos oriundos do agronegócio e do comércio global de commodities, está fortemente exposta à escassez hídrica, a riscos associados às mudanças climáticas e ao desmatamento. É o que revela uma nova análise da Trase, iniciativa internacional que rastreia cadeias produtivas e seus impactos socioambientais.

De acordo com o levantamento, apenas a pecuária brasileira consome entre 10,1 bilhões e 10,4 bilhões de metros cúbicos de água por ano, um volume incrivelmente superior ao utilizado, somados, pelas populações de Estados do porte de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Paraná e Distrito Federal – que é de 7,8 bilhões de m³.

Já a produção de soja demanda entre 188 bilhões e 206 bilhões de metros cúbicos de água anuais, em sua maioria provenientes da chuva, no entanto, a pesquisa aponta uma participação crescente da irrigação em regiões mais secas.

Os dados se baseiam em informações do MapBiomas e da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), considerando o período entre 2015 e 2017, e foram detalhados em reportagens da plataforma Trase e da Folhapress.

Segundo os pesquisadores, grande parte desse uso de água não é considerado por consumidores e mercados internacionais. Empresas costumam monitorar apenas o consumo direto em suas operações, mas ignoram o chamado uso indireto — o que engloba cadeias de fornecimento, muitas vezes localizado em bacias hidrográficas distantes.

“Queremos mostrar justamente o uso indireto de água, aquele consumido através de produtos”, afirma o pesquisador sênior do Instituto de Meio Ambiente de Estocolmo, Michael Lathuillière, um dos autores do estudo.

“O Brasil, de certa forma, está exportando recursos hídricos”, complementou Lathuillière, em entrevista, exposta pela Folhapress.

Dependência

A análise da Trase mostra que os principais comerciantes globais de carne bovina — como JBS, Minerva, Marfrig e Mataboi — dependem significativamente das bacias do Paraná, Tocantins-Araguaia e Amazônica, regiões que já enfrentam níveis elevados ou críticos de escassez hídrica, segundo a ANA.

No caso da soja, grandes traders como Bunge, ADM, Cargill, Louis Dreyfus e Cofco concentram parte relevante de sua produção irrigada na bacia do rio São Francisco.

Embora o gado consuma água principalmente por meio de pequenos reservatórios nas fazendas, cerca de dois terços desse volume se perde por evaporação, reduzindo a disponibilidade hídrica para outros usos, como abastecimento humano, ecossistemas aquáticos e geração de energia.

“Há uma questão em relação às outorgas de captação de água no Brasil, em que muitos reservatórios são construídos sem autorização”, alerta Lathuillière. “Existe um problema político e de gestão nas fazendas”.

Sobreposição

Outro ponto do estudo é a sobreposição entre escassez hídrica e desmatamento. Em regiões como o oeste da Bahia, no Matopiba, pesquisas identificaram mais de sete mil quilômetros de rios e riachos que deixaram de correr o ano inteiro, afetados pela expansão agrícola, irrigação intensiva e retirada desordenada de água.

Esse cenário amplia a vulnerabilidade de comunidades locais, ameaçando segurança alimentar, meios de subsistência e identidades culturais. Estudos citados pela Trase mostram que, na Amazônia, o desequilíbrio climático causado pelo desmatamento gerou prejuízos superiores a US$ 1 bilhão à produção de soja e milho entre 2006 e 2019. No Cerrado, a vazão dos rios caiu 27% desde os anos 1970, acompanhada por uma redução de 21% nas chuvas.

Respostas

Para os autores, a exposição das cadeias globais de carne e soja à escassez hídrica exige respostas coordenadas de empresas, governos e instituições financeiras. Entre as recomendações estão a adoção de metas de uso de água ao longo das cadeias de suprimentos, maior transparência ambiental além do controle do desmatamento e o alinhamento de políticas de crédito rural a práticas que protejam recursos hídricos.

“Exportadores, governos e financiadores têm um papel a desempenhar”, afirma o relatório da Trase. “A ação coordenada pode reduzir riscos e contribuir para sistemas alimentares mais resilientes”.

Fonte: Um Só Planeta.

Foto: Agência Brasil.

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