Peixes recém-descobertos já enfrentam risco de extinção na Caatinga

As lagoas aparecem apenas quando a chuva chega. Por alguns meses, interrompem a monotonia da paisagem seca da Caatinga e se transformam em pequenas ilhas de vida. Quando a água desaparece, parece que tudo some junto com ela. Mas, enterrados no barro rachado, permanecem ovos microscópicos esperando o próximo inverno. Foi nesses ambientes passageiros do Baixo Piranhas-Açu, no interior do Rio Grande do Norte, que o zoólogo Yuri Abrantes encontrou não apenas uma, mas duas espécies desconhecidas pela ciência.

A descoberta dos peixes anuais Hypsolebias guararug e Hypsolebias negobispoi, publicada recentemente na revista científica Neotropical Ichthyology, ampliou o conhecimento sobre um dos grupos mais peculiares da fauna brasileira. Mas o que começou como uma busca por biodiversidade acabou revelando também um cenário de ameaça.

Quando voltou aos locais onde encontrou os peixes, Yuri percebeu que a preocupação já não estava apenas nos animais:

“O que mais me preocupa, quando eu volto nessas localidades, é ver o avanço dos sítios de empreendimentos eólicos. E ver que a exploração petrolífera continua, as águas estão contaminadas, como a gente analisou no nosso estudo, e os peixes estão ameaçados “, relata em entrevista à Agência Saiba Mais.

Os chamados “peixes das nuvens” receberam esse apelido porque surgem repentinamente após as primeiras chuvas. Durante décadas, moradores de várias regiões do Nordeste acreditaram que eles literalmente caíam do céu. A ciência mostrou outra explicação: seus ovos sobrevivem enterrados durante meses na seca extrema e eclodem quando as lagoas temporárias voltam a se formar.

Essa estratégia permitiu que ocupassem ambientes onde poucas espécies conseguem sobreviver. Em compensação, também os tornou vulneráveis. Cada população vive confinada a pequenas lagoas isoladas. Se uma delas desaparece, pode levar consigo uma espécie inteira. Foi justamente por isso que a descoberta surpreendeu o pesquisador.

A expectativa inicial era encontrar uma única espécie nova. As análises de DNA e morfologia, porém, contaram uma história diferente.

“Fiquei bastante surpreso quando notei que não era apenas uma nova espécie. Eram duas espécies novas que ocorrem na mesma região, com poucos quilômetros de distância entre elas, basicamente uns dez quilômetros “, conta.

Num bioma ainda marcado por grandes vazios de conhecimento científico, o resultado sugere que a biodiversidade escondida nas lagoas temporárias da Caatinga pode ser muito maior do que se imaginava. Mas a surpresa mais marcante não veio do laboratório. Durante as expedições, Yuri encontrou os peixes vivendo ao lado de uma atividade que molda a economia da região há décadas.

“O momento mais inesperado foi quando eu notei que os peixes ocorriam numa região de exploração petrolífera, basicamente bem próximo aos poços de petróleo. Isso foi bastante inesperado”, diz.

A constatação levou os pesquisadores a investigarem a qualidade da água. O estudo identificou hidrocarbonetos derivados de petróleo em todas as lagoas analisadas. Embora ainda não exista comprovação científica de que a contaminação esteja provocando alterações nos peixes, a coincidência chamou a atenção da equipe.

Nos mesmos ambientes, os pesquisadores observaram indivíduos com padrões incomuns de coloração, exemplares cegos e peixes com deformações na coluna vertebral. As causas ainda estão sendo investigadas. O alerta não se restringe ao petróleo. Segundo Yuri, os processos de monitoramento ambiental precisam avançar para acompanhar as transformações que atingem a região.

“O que a gente fica bastante preocupado é em relação ao monitoramento, aos processos de licenciamento que podem ser melhorados na região.”

Ao contrário do que poderia se imaginar, a descoberta não foi guiada por histórias populares ou relatos de moradores. Em outras partes do Nordeste, pesquisadores costumam encontrar pistas em narrativas transmitidas entre gerações. Desta vez, não foi o caso.

“Não havia nenhum morador que conhecesse e que tivesse me dado algum indicativo de que esses peixes estavam na região.”

O desconhecimento ajuda a explicar por que esses animais permanecem invisíveis para grande parte da população. Eles surgem por poucos meses, habitam poças temporárias e medem apenas alguns centímetros. Ainda assim, desempenham funções importantes no equilíbrio ecológico da Caatinga, alimentando-se de larvas de mosquitos e servindo como indicadores da qualidade ambiental.

Paradoxalmente, as duas espécies chegaram ao conhecimento científico já ameaçadas. As análises realizadas pelos pesquisadores apontam que Hypsolebias guararug deve ser classificada como Em Perigo, enquanto Hypsolebias negobispoi se enquadra na categoria Criticamente em Perigo.

É uma corrida contra o tempo. Animais que sobreviveram por milhares de anos aos ciclos de seca e chuva do semiárido agora enfrentam ameaças que surgiram em poucas décadas. Nas lagoas temporárias do sertão potiguar, onde a água desaparece todos os anos, a ciência acaba de descobrir duas novas formas de vida. O desafio agora é garantir que elas continuem existindo quando as próximas chuvas chegarem.

Fonte: Saiba Mais.

Foto: Yuri Abrantes.

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