Populações de insetos no Brasil sofrem declínio significativo

Uma análise de dezenas de estudos de longo prazo sobre as espécies de insetos do Brasil indica que elas estão sofrendo declínios significativos, a exemplo do que se vê em vários outros lugares do planeta. Muitos insetos, de borboletas a besouros, estão ficando cada vez menos abundantes, e há indícios de que a diversidade de espécies também pode estar caindo.

As conclusões acabam de ser publicadas no periódico especializado Biology Letters por uma equipe que reúne cientistas da Unicamp, da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Ainda são dados preliminares, e existem muitas lacunas de conhecimento sobre o tema do país, mas há boas razões para considerar que as pistas disponíveis até agora são preocupantes.

“Em conversas informais com colegas, o pessoal às vezes brinca: ‘Puxa, que bom, vai ter menos pernilongo e mosca para atrapalhar’. Mas é justamente o contrário, essas espécies urbanas, que se adaptaram aos ambientes que a gente cria, vão continuar por aí e até se multiplicar. O problema são as outras espécies de insetos, a grande maioria, importantíssimas para o funcionamento dos ecossistemas”, explica André Victor Lucci Freitas, coautor do estudo e professor do Departamento de Biologia Animal da Unicamp.

Monitorar os riscos que as espécies de insetos correm é bem mais complicado do que fazer o mesmo monitoramento com espécies de mamíferos ou aves, lembra Freitas. Entre as dificuldades estão o ciclo de vida rápido – que pode durar apenas algumas semanas ou alguns meses – e as grandes flutuações populacionais de estação para estação e de ano para ano.

“Eu, por exemplo, que trabalho com borboletas, em geral vejo só os adultos, e é mais difícil acompanhar lagartas, pupas e ovos. Não é como uma manada de elefantes, que você consegue recensear sobrevoando os indivíduos ou pode usar radiotransmissores para acompanhar”, compara.

Para tentar ter uma ideia do quadro geral do que está acontecendo com os insetos brasileiros, a equipe fez uma busca na literatura científica disponível online, tentando levantar todos os estudos que abordavam o tema com um acompanhamento das populações de insetos de pelo menos quatro ou cinco anos de duração. Também enviaram questionários para 156 pesquisadores da área.

Com isso eles chegaram a um total de 75 análises sobre tendências populacionais de insetos no país, que fazem parte de 45 estudos diferentes. A duração média dos levantamentos é de cerca de 20 anos, sendo maior no caso dos insetos terrestres (há também as espécies aquáticas, menos estudadas, mas muito importantes para a fauna dos pequenos cursos d’água).

Quantidade de insetos está diminuindo no Brasil

Nem todos os ecossistemas brasileiros foram igualmente cobertos nessa amostra, não há dados para o Pantanal e a Caatinga, por exemplo, e as áreas mais estudadas são as da Mata atlântica. Mesmo assim, a maioria dos estudos sobre abundância de insetos (ou seja, quantidade de indivíduos de cada espécie) revelou uma tendência de queda (em 19 estudos). Apenas cinco levantamentos indicaram aumento de abundância, enquanto 13 não indicaram tendência alguma.

Já quanto à diversidade de espécies, 14 estudos apontaram uma queda, enquanto cinco indicaram aumentos, mas a maioria dos levantamentos analisados (19) não apontou uma tendência clara.

“É uma tentativa de entender se está havendo o declínio ou não, e, por enquanto, os dados mais sólidos mostrando isso são os da diminuição de abundância”, resume o pesquisador da Unicamp. “Acho que é um dado que vai provocar muita gente e que vai servir de estímulo para mais estudos sistemáticos.”

Ainda é difícil ter certeza sobre o que está acontecendo com a trajetória de espécies individuais, mas já há alguns casos emblemáticos, como a borboleta-da-praia (Parides ascanius), que tem perdido boa parte de seu habitat nas restingas – “Muitas viraram campos de golfe”, lamenta Freitas – e as mamangavas Bombus bellicosus e Bombus bahiensis.

Tanto borboletas quanto abelhas são importantes para a polinização das flores, mas os insetos desempenham uma série de outras funções cruciais. “Inúmeras espécies de animais se alimentam de lagartas, por exemplo. E a gente esquece que, antes das bactérias e fungos, insetos como besouros e cupins ajudam a degradar a matéria orgânica das florestas e a incorporar nutrientes no solo. Sem a ação deles, os efeitos sobre o solo e o lençol freático podem ser sérios.”

Fonte: Folha SP.

Foto: Leonardo Ré Jorge/Wikimedia Commons.