Por que os insetos terrestres estão em declínio no Brasil

Nova pesquisa brasileira mostra que os insetos terrestres estão diminuindo tanto em abundância quanto em diversidade; populações de insetos aquáticos permanecem estáveis.

Dada a falta de dados de longo prazo sobre insetos tropicais, os cientistas adotaram meios criativos para coletar dados, entre eles contatar 150 especialistas para obter dados ainda não publicados.

Os cientistas acreditam que os principais fatores responsáveis pelo declínio dos insetos são a destruição de habitats, o uso de pesticidas e as mudanças climáticas.

A história da grande morte de insetos, que estourou nas manchetes da mídia em 2018 com alertas apocalípticos e reações contrárias que os acusavam de exagero, também contou com a publicação de inúmeros estudos no mundo inteiro. Contudo, essa atenção sempre teve uma falha óbvia: a carência de notícias e de pesquisas nos trópicos.

Descobertas sobre insetos terrestres e aquáticos

Thomas Lewinsohn, professor de Ecologia na Universidade de Campinas e seus colegas examinaram 75 projetos que acompanharam insetos no Brasil. Ao todo, 17 estudos mostram queda na abundância de insetos terrestres, enquanto apenas três mostraram um aumento da população. Onze estudos encontraram redução na diversidade, enquanto um mostrou o aumento da mesma. Na média, esses estudos terrestres abrangem 22 anos de acompanhamento.

“No geral, estudos no mundo todo estão vendo um declínio de insetos, e o estudo que fizemos é mais uma prova dessa tendência”, diz a coautora Kayna Agostini, da Universidade Federal de São Carlos.

Os resultados para insetos aquáticos foram bem diferentes. Apenas dois estudos mostraram declínio de abundância, e dois apresentaram o contrário. Três estudos encontraram diminuição da diversidade, enquanto quatro mostraram aumento dela. A maior parte dos estudos avaliados, contudo, encontrou uma tendência estável para os insetos aquáticos em termos de abundância e diversidade.

O motivo da divergência entre insetos terrestres e aquáticos é incerto. O artigo sugere que as descobertas diferentes podem se dever à realização de menos estudos sobre insetos aquáticos, e que estes geralmente são feitos em períodos menores de tempo (11 anos, em média, contra 22 anos nos estudos terrestres). Também, em alguns casos, insetos aquáticos podem ter se recuperado depois que áreas poluídas foram limpas.

Ainda assim, as descobertas dos cientistas brasileiros sobre insetos aquáticos refletem as conclusões de outras pesquisas, sobretudo de um estudo de grande porte de 2020, publicado na revista Science, que revelou que as populações de insetos terrestres estão caindo quase 1% ao ano, mas estão aumentando nos corpos d’água, provavelmente devido a esforços no mundo todo para recuperar ecossistemas de água doce. Entretanto, esse estudo em particular se concentrou principalmente na Europa e América do Norte.

Perdendo espécies antes mesmo de conhecê-las

Dados publicados sobre as tendências da população de insetos no mundo e no Brasil continuam escassos. Por isso, Lewinsohn e sua equipe não pesquisaram apenas artigos publicados, mas também contataram mais de 150 pesquisadores em todo o Brasil para obter dados adicionais. Por fim, avaliaram as tendências sobre insetos em estudos publicados e não publicados, na literatura cinzenta (relatórios técnicos e teses) e em revistas tão pequenas que nem aparecem nas buscas de literatura científica.

Embora a equipe tenha lançado uma ampla rede de investigação, ainda há inúmeras limitações no estudo. A maior parte das pesquisas reunidas se concentra no bioma da Mata Atlântica, enquanto o Cerrado e a Amazônia estão representados em um número menor de estudos. Não foram encontrados estudos para dois grandes biomas brasileiros: a Caatinga e o Pantanal – prova, mais uma vez, da falta de pesquisas sobre insetos tropicais.

Lewinsohn diz que “ainda há pouquíssimos [estudos nos trópicos] para estabelecer qualquer tendência geral, ou falta de tendências.”

A maior parte das pesquisas que acompanham a queda da abundância e da diversidade de insetos foi realizada na Europa e na América do Norte, com os declínios mais surpreendentes registrados na Alemanha. Este fato aponta para uma falha problemática: os pesquisadores continuam focados principalmente em espécies de clima temperado, muito embora a maior parte dos insetos do mundo, até agora, seja encontrada nos trópicos. De fato, os artrópodes tropicais (insetos, aracnídeos, miriápodes e centopeias) são sem dúvida o grupo de seres vivos mais biodiverso em nosso planeta, e a maior parte das espécies de insetos tropicais ainda não foi descrita pela ciência.

A razão para esta falta de dados é clara: a maior parte dos países tropicais não têm recursos científicos e financiamentos para monitorar insetos no longo prazo a fim de avaliar sua diversidade e abundância.

Ainda assim, onde quer que cientistas tenham estudado, em geral documentaram declínios nas populações de insetos tropicais. Por exemplo, um estudo de 2018 encontrou graves reduções na abundância de insetos em Porto Rico (de seis vezes) e no México (de oito vezes). Outro estudo na Costa Rica encontrou uma queda de 40% nas lagartas comuns na Área de Conservação de Guanacaste, onde Janzen e Hallwachs trabalham.

Nem todas as pesquisas tropicais mostram queda: um artigo recente na revista Biology Letters revelou que a abundância da mariposa-tigre tinha na verdade aumentado nos últimos 12 anos na Ilha de Barro Colorado, no Panamá. Contudo, esse estudo foge da curva.

As principais causas do declínio de insetos

As razões pelas quais a abundância e as populações de espécies de insetos estão diminuindo no Brasil são provavelmente as mesmas que no resto do mundo: destruição de habitat, mudanças climáticas e pesticidas.

O Brasil também é um dos maiores usuários de agrotóxicos do mundo. O país tem a reputação de usar pesticidas altamente perigosos, e em 2019 o governo brasileiro aprovou nada menos que 474 novos pesticidas – alguns dos quais são proibidos em outros países; em 2018, o Brasil usou mais de 60 mil toneladas métricas de agrotóxicos perigosos proibidos para uso na União Europeia – que, contudo, não proibiu sua fabricação e exportação.

“Muitas áreas de conservação são afetadas pela pulverização aérea em plantações adjacentes”, diz Lewisohn, acrescentando que isto provavelmente causa um declínio não documentado de insetos. Além disso, os agrotóxicos podem ser espalhados pelos próprios insetos. Agostini diz que insetos adultos podem carregar pesticidas de volta para os ninhos, acabando com a vida da próxima geração.

Há muita coisa em jogo. O Brasil é um dos países mais biodiversos do mundo. E os insetos, em sua infinidade, sustentam todos os serviços ecológicos – de reciclar resíduos até construir o solo fértil, passando por polinizar plantas e servir como presas para inúmeras outras espécies. Como o famoso entomologista E. O. Wilson escreveu em 1987, são “as pequenas coisas que movem o mundo”.

Fonte: Mongabay, Notícias Ambientais.

Foto: André Lucci Freitas.

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