Projeto vai mudar rota de aviões para tentar frear aquecimento global

Uma iniciativa liderada pelo Reino Unido vai testar, pela primeira vez, mudanças nas rotas de aviões para reduzir a formação de rastros de condensação — as linhas brancas deixadas por aeronaves no céu — e, com isso, diminuir o impacto climático da aviação. O programa, chamado Operação Blue Skies, utilizará previsões produzidas por IA (inteligência artificial) para identificar áreas da atmosfera onde esses rastros têm maior probabilidade de se formarem e, assim, orientar as aeronaves a fazerem pequenos ajustes de altitude.

Os testes serão realizados no espaço aéreo de Shanwick, controlado pelo NATS, o serviço de controle de tráfego aéreo do Reino Unido, na porção leste do corredor do Atlântico Norte. A primeira fase está prevista para ocorrer já neste ano, a partir de novembro, e haverá uma segunda rodada a ser iniciada em novembro de 2027. A iniciativa conta com um orçamento robusto de £ 5 milhões (cerca de R$ 35 milhões, na cotação atual).

Rastros de condensação aquecem o planeta

Os rastros de condensação, conhecidos em inglês como contrails, surgem quando o vapor de água presente nos gases de escapamento dos motores a jato entra em contato com o ar muito frio e úmido das camadas superiores da atmosfera. O vapor se condensa e congela em torno de partículas emitidas pelos motores, formando cristais de gelo que podem permanecer no céu por horas.

Tais formações têm efeitos diferentes sobre o clima. Durante o dia, podem refletir parte da radiação solar de volta para o espaço, produzindo algum resfriamento. Ao mesmo tempo, porém, também ajudam a reter o calor que seria dissipado para o espaço. No balanço geral, os rastros persistentes são considerados responsáveis por cerca de um terço do impacto climático da aviação.

É justamente esse efeito que a Operação Blue Skies pretende reduzir. Segundo a modelagem utilizada no projeto, o espaço aéreo de Shanwick responde por aproximadamente 5% do aquecimento global relacionado aos rastros de condensação, e uma parcela significativa desse impacto ocorre no inverno do Hemisfério Norte, entre os meses de novembro e fevereiro.

Aviões poderão mudar de altitude em até 600 metros

Na prática, os controladores de tráfego aéreo poderão instruir algumas aeronaves a fazer pequenos ajustes de altitude para evitar regiões da atmosfera consideradas favoráveis à formação de rastros persistentes. Como destaca a revista New Scientist, essas mudanças poderão chegar a 600 metros, ou 2 mil pés.

Essas orientações serão dadas pelos mesmos canais e procedimentos já utilizados no controle do tráfego aéreo. O acompanhamento poderá, inclusive, ajudar os pilotos a evitarem turbulência e outras condições meteorológicas adversas.

A proposta não é redesenhar completamente os voos, mas fazer desvios pontuais dentro das operações normais. Os testes ocorrerão principalmente durante períodos de menor movimento e deverão somar 20 a 40 dias de operação em cada inverno, entre as temporadas 2026-2027 e 2027-2028.

IA na previsão de rastros

Estima-se que 10 mil voos deverão atravessar a área durante cada período de testes. Centenas deles precisarão ser redirecionados para que os pesquisadores tenham uma quantidade de dados suficiente para medir os resultados. Por isso, para decidir quais aeronaves precisam alterar a trajetória, o projeto contará com modelos de inteligência artificial desenvolvidos pelo Google.

As ferramentas analisarão as condições atmosféricas e tentarão prever onde haverá maior probabilidade de formação de rastros persistentes. A lógica é relativamente simples: em vez de tentar eliminar os rastros depois que aparecem, a estratégia procura impedir sua formação ao evitar determinadas regiões da atmosfera.

“Podemos prever as regiões que irão formar rastros de condensação persistentes que contribuem para o aquecimento global e podemos redirecionar os aviões para evitá-las”, afirma Marc Shapiro, porta-voz da Contrails.org, uma organização de pesquisa que participa do projeto, durante uma coletiva de imprensa em 17 de agosto.

O projeto dá continuidade a testes anteriores das previsões de rastros feitas por inteligência artificial do Google. Nessas experiências, as informações foram usadas antes da decolagem e também no planejamento das rotas. A expectativa agora é verificar se a tecnologia funciona de forma coordenada em um espaço aéreo inteiro.

Menos aquecimento, mesmo com algum combustível extra

Uma das principais questões do experimento será descobrir se o benefício climático de evitar os rastros supera o aumento das emissões causado por eventuais mudanças de rota. Vale lembrar que alguns aviões poderão precisar consumir cerca de 100 kg adicionais de combustível ao atravessar a região devido aos desvios.

Isso representa algumas centenas de quilos extras de dióxido de carbono (CO₂) por voo. Ainda assim, os especialistas responsáveis pelo projeto sugerem que o efeito climático dos rastros evitados pode ser muito maior. Estudos anteriores indicam que redirecionar uma aeronave pode reduzir a formação de rastros em 50% a 60%. A operação em escala maior permitirá testar se esse potencial se confirma em condições reais.

A principal novidade da Operação Blue Skies é justamente a escala. Em experiências anteriores, as previsões de formação de rastros foram usadas para orientar voos individuais ou planejamentos antes da partida. Agora, as instruções serão aplicadas diretamente no tráfego de uma região inteira. Com isso, as companhias aéreas que estiverem operando na área de teste não poderão simplesmente optar por não participar, o que permitirá aos pesquisadores medirem o efeito da estratégia em uma situação próxima da operação cotidiana.

“Esta é uma iniciativa inédita no mundo, e é a engenhosidade britânica que está na vanguarda”, destaca Keir Mather, ministro da Aviação, Assuntos Marítimos e Transporte de Carga do Reino Unido, em comunicado. Para ele, testar alterações nas rotas sobre o Atlântico pode contribuir para reduzir os rastros deixados pelos aviões e, ao mesmo tempo, estimular inovação e empregos no setor.

Fonte: Revista Galileu.

Foto: Pexels.

Seja o primeiro

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *