Quase todos os recifes de coral de águas rasas do mundo, famosos por seu colorido e biodiversidade exuberante, estão classificados como criticamente ameaçados, mostra um relatório publicado na quinta-feira (22) sobre o colapso de ecossistemas.
O estresse térmico provocado pela mudança climática é, de longe, o principal vetor, segundo especialistas que elaboram a Lista Vermelha de Ecossistemas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês).
Essa foi a primeira avaliação global do grupo sobre ecossistemas de recifes de águas rasas. Os cientistas agruparam os recifes em 127 regiões, com base na localização e nas espécies únicas presentes em cada uma.
Eles constataram que 96% estão criticamente ameaçados, incluindo os da Grande Barreira de Corais, na costa da Austrália; do Triângulo de Coral, no Pacífico ocidental; do Sistema Arrecifal Mesoamericano, no Caribe; e da Flórida, nos Estados Unidos.
A classificação significa que eles enfrentam um risco extremamente alto de colapso nos próximos 50 anos. A IUCN define colapso como a perda quase total ou completa dos corais duros vivos, o que deixa os recifes incapazes de se sustentar.
Sem o aquecimento adicional previsto em decorrência das mudanças climáticas, 24% dos ecossistemas recifais estariam criticamente ameaçados, em vez de 96%.
Cientistas estimam que os recifes de águas rasas servem de habitat para cerca de um quarto das espécies oceânicas em algum momento de seu ciclo de vida. Centenas de milhões de pessoas dependem desses ecossistemas para pesca de subsistência e para a proteção costeira.
Os pesquisadores da IUCN ressaltaram que os recifes ainda não estão perdidos. A conclusão se baseia na trajetória atualmente estimada das mudanças climáticas, considerando as emissões globais de gases de efeito estufa, provenientes sobretudo da queima de petróleo, gás e carvão. Se os países fizerem mais para desacelerar o aquecimento, o futuro dos recifes poderá melhorar.
“Há aqui uma janela de oportunidade pequena e cada vez mais estreita para evitar os piores desfechos, se agirmos rapidamente”, disse Mishal Gudka, líder científico da avaliação e pesquisador da Universidade de Melbourne, Austrália.
A pesca excessiva e a poluição também ameaçam os recifes, e reduzir essas pressões ajudaria a torná-los mais resilientes.
Nos últimos anos, alertas sobre a capacidade dos recifes de coral de resistir às mudanças climáticas têm ficado cada vez mais contundentes.
Os corais construtores de recifes são animais minúsculos que formam estruturas de calcário e abrigam algas fotossintéticas em seus tecidos. Essas algas fornecem ao coral a maior parte de seus nutrientes. No entanto, sob determinadas condições de estresse, incluindo o calor excessivo, o coral expulsa as algas em um processo conhecido como branqueamento. Se as condições adversas persistem por tempo demais, o coral fica sem alimento e morrerá.
Após uma intensa onda de calor oceânico em 2023, quando ocorreu o quarto evento global de branqueamento em massa, constatou-se que duas espécies importantes dos recifes da Flórida, os corais chifre-de-alce e chifre-de-veado, estavam funcionalmente extintas na região. Os anos de 2023, 2024 e 2025 foram os três mais quentes já registrados.
“Especialmente nos últimos dez anos, vimos um enorme aumento na escala dos eventos de branqueamento”, disse Gudka. “A cada novo evento, o intervalo entre eles fica menor, e cada vez mais recifes são afetados.”
Os cientistas correm contra o tempo para encontrar maneiras de ajudar os corais a sobreviver em oceanos mais quentes, por exemplo, auxiliando na reprodução de variedades mais resistentes ao calor. Outras intervenções propostas incluem encontrar formas de criar sombra sobre os recifes durante ondas de calor intenso.
É importante considerar todas as ferramentas possíveis, disse Gudka. Mas, mesmo que os pesquisadores façam avanços significativos, há grandes desafios para ampliar essas soluções a uma escala capaz de substituir os ecossistemas que estão sendo perdidos.
John Parkinson, cientista da Universidade do Sul da Flórida, cuja pesquisa se concentra em ajudar os corais a sobreviver em temperaturas mais altas, disse que as conclusões da IUCN estavam de acordo com o que ele esperava.
Os corais são diversos, com centenas de espécies e diferentes níveis de tolerância ao calor até mesmo dentro de uma única espécie. É crucial que os cientistas tentem salvar o que puderem, afirmou Parkinson, mas seu papel é limitado.
“Na comunidade dedicada à intervenção e à restauração, acho que todos reconhecemos que nada disso fará diferença a menos que as mudanças climáticas e as emissões de gases de efeito estufa sejam enfrentadas”, ressaltou.
O anúncio sobre os recifes de coral ocorreu um dia depois de um relatório científico das Nações Unidas concluir que o abandono dos compromissos climáticos pelos Estados Unidos aumentou a probabilidade de o mundo aquecer mais do que se estimava anteriormente.
Brasil tem cinco regiões de recifes de corais costeiros sob ameaça
Cinco ecorregiões de recifes de corais brasileiras foram classificadas como criticamente em perigo pela Lista Vermelha de Ecossistemas, lançada na 17ª Conferência das Partes das Nações Unidas (COP17) da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), em Yerevan, na Armênia.
O Brasil teve oito ecorregiões de recifes de corais analisadas, mas três não contavam com dados suficientes para receber uma classificação geral de risco.
As cinco áreas sob alerta são:
– Parrachos;
– Atol das Rocas e Fernando de Noronha;
– Costa dos Corais;
– Baía de Todos os Santos e Baixo Sul;
– Abrolhos.
A classificação Criticamente em Perigo significa que, apesar de abrigarem corais vivos e funcionarem como ecossistemas recifais, é necessário agir com urgência para protegê-las.
Essa foi a primeira avaliação global, para esses ecossistemas, promovida pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).
O documento lista as ecorregiões conforme o risco de colapso, considerando a distribuição dos corais, as restrições geográficas, a degradação e outros critérios ambientais. Os locais são classificados como: Vulneráveis (VU), Em Perigo (EN), Criticamente em Perigo (CR) ou Colapsados (CO).
Houve dados insuficientes para Parcel de Manuel Luís, Costa Semiárida e Queimada Grande. Para a analista de Conservação do WWF-Brasil, Ana Lídia Gaspar, a falta de informação não pode ser lida como ausência de risco.
“A avaliação aponta a necessidade de ampliar o conhecimento sobre essas áreas para compreender melhor sua situação e orientar medidas de conservação”, reforça a pesquisadora.
As cinco regiões criticamente em perigo foram avaliadas sobre as mudanças ocorridas nos últimos 50 anos e as projeções de estresse térmico provocado pelo aquecimento dos oceanos nas próximas cinco décadas.
A avaliação concluiu que, nos últimos 50 anos, Parrachos, Costa dos Corais e Atol das Rocas e Fernando de Noronha já apresentavam condições para uma classificação CR. Já Baía de Todos os Santos e Baixo Sul e Abrolhos ficariam classificados como EN.
O nível de perigo crítico foi alcançado pelas cinco ecorregiões devido às projeções para os próximos 50 anos de estresse térmico, com base em um cenário intermediário apontado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
Ameaças
As ondas marinhas de calor são apontadas como principais ameaças aos recifes brasileiros, tendo como referência importantes eventos de estresse térmico que resultaram em branqueamento severo e mortalidade de espécies-chave de corais, como os ocorridos em 2019/2020 e 2024.
“Pressões humanas locais, como a sobrepesca, o desenvolvimento costeiro, o turismo e o aporte de sedimentos e nutrientes provenientes do continente, contribuem para a degradação da qualidade da água, reduzindo a resiliência e a capacidade de recuperação dos recifes”, aponta a avaliação sobre as ecorregiões brasileiras.
O estudo destaca também pressões adicionais, como a exploração de petróleo e gás, mineração e navegação, além da invasão de espécies exóticas como os corais-sol e o peixe-leão.
“De modo geral, os recifes costeiros estão expostos a pressões cumulativas maiores do que os recifes situados mais longe da costa”, acrescenta o documento.
Metodologia
A avaliação global analisou apenas recifes de coral fóticos, que ocupam regiões mais rasas e ensolaradas. Não foram incluídos recifes profundos, rochosos e corais de água fria.
Em todo o mundo, foram analisados 127 ecorregiões em mais de 80 países e territórios, agrupados em dez macrorregiões. Desse total, 122 ecorregiões foram classificadas como Criticamente em Perigo, o equivalente a 96%.
Quando consideradas apenas as mudanças ocorridas nos últimos 50 anos, sem as projeções do IPCC, 30 ecorregiões já estão criticamente em perigo e outras 116 estão ameaçadas.
Ferramenta
A Lista Vermelha de Ecossistemas é uma das ferramentas para a revisão do tratado internacional da biodiversidade de Kunming-Montreal, estabelecido em dezembro de 2022, do qual o Brasil é signatário.
A avaliação serve como referência para relatórios e adoção de políticas nacionais capazes de proteger os recifes, recuperar as populações de espécies marinhas e reduzir as pressões locais.
A análise destaca, no entanto, que ações locais devem ser vistas como complementares à ação climática global.
“Medidas locais não são capazes de impedir as ondas de calor marinhas, portanto, cortes rápidos nas emissões continuam sendo essenciais”, destaca a análise.
Fontes: Folha SP, The New York Times, Agência Brasil.
Foto: Napat Wesshasartar – 8.mai.24/Reuters,


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