Quatro montanhas submarinas foram descobertas no Pacífico, a maior com 2.681 metros. O caso revela que 74% do fundo dos oceanos ainda não foi mapeado

Em janeiro de 2024, dois técnicos a bordo do navio de pesquisa Falkor (too), do Schmidt Ocean Institute, estavam traçando a rota da embarcação de Golfito, na Costa Rica, até Valparaíso, no Chile. Era uma travessia de rotina entre um projeto e outro. Para aproveitar o tempo, decidiram checar anomalias gravitacionais no caminho — variações sutis na superfície do oceano que podem indicar irregularidades no fundo, onde uma montanha cria um imperceptível relevo na água acima dela.

O que encontraram nas coordenadas não fazia sentido. Não havia nada registrado ali em nenhum banco de dados oceanográfico existente. Segundo o Schmidt Ocean Institute, o sonar multifeixe confirmou quatro montanhas submarinas completamente ausentes de qualquer mapa batimétrico global. A maior delas tem 2.681 metros de altura, cobre 450 quilômetros quadrados e estava a 1.150 metros abaixo da superfície. Ninguém, em toda a história da oceanografia moderna, havia registrado sua existência.

Para ter referência de escala, 2.681 metros é mais alto que qualquer pico dos Alpes Suíços. A montanha estava lá o tempo todo, invisível para a ciência.

Fundo do oceano cobre 71% do planeta, mas ainda não foi mapeado em sua maior parte

O fundo dos oceanos cobre aproximadamente 361 milhões de quilômetros quadrados — cerca de 71% de toda a superfície da Terra. Em 2017, quando a Fundação Nippon e a GEBCO lançaram o projeto global Seabed 2030, o objetivo era mapear completamente o assoalho oceânico até o final da década. Naquele momento, apenas 6% dessa área havia sido mapeada com resolução moderna.

Isso significa que não existia um mapa detalhado de 94% do planeta. Para efeito de comparação, a superfície de Marte já foi praticamente toda mapeada com resolução de até alguns metros por pixel. A Lua foi fotografada com precisão de centímetros. O fundo dos oceanos da Terra, onde está a maior parte da biosfera do planeta, permanecia amplamente desconhecido.

Esse desconhecimento não é resultado de falta de interesse científico. É uma limitação física e tecnológica.

Por que mapear o fundo do oceano é um dos maiores desafios científicos da Terra

A luz solar não penetra a água além de algumas centenas de metros, o que torna impossível mapear o fundo oceânico com métodos ópticos tradicionais. O processo depende de sonar, um sistema que emite pulsos sonoros e mede o tempo que o eco leva para retornar, calculando a profundidade com base na velocidade do som na água.

Para obter resolução suficiente para identificar estruturas com cerca de 100 metros, um navio precisa navegar lentamente em trajetórias paralelas, cobrindo cada faixa do oceano com precisão. Considerando que a profundidade média dos oceanos é de aproximadamente 3.500 metros e que regiões como a Fossa das Marianas ultrapassam 11.000 metros, o desafio logístico se torna extremo.

A NOAA estimou que um único navio levaria cerca de 350 anos para mapear 93% do fundo oceânico com tecnologia moderna. O custo global para realizar esse trabalho com toda a frota disponível varia entre 3 e 5 bilhões de dólares, valor comparável ao de missões interplanetárias.

Projeto Seabed 2030 avança com colaboração global, mas ainda falta mapear 74% dos oceanos

Diferente de grandes programas centralizados, o Seabed 2030 opera como uma rede global colaborativa. O projeto coleta dados de qualquer embarcação equipada com sonar que esteja disposta a compartilhar informações, incluindo navios comerciais, embarcações de pesquisa, cruzeiros e até barcos de pesca.

Pescadores contribuem com dados de navegação. Navios cargueiros que cruzam rotas oceânicas regularmente enviam medições. Instituições de mais de 200 países disponibilizaram bancos de dados históricos. Em 2023, a empresa britânica ARGANS contribuiu com dados de altimetria cobrindo 8.000 quilômetros quadrados de áreas remotas.

Esse modelo permitiu acelerar o mapeamento. Em 2019, a cobertura passou de 6% para 15%. Em 2022, chegou a 23,4%. Em 2024, atingiu 26,1%, com 4,34 milhões de quilômetros quadrados adicionados em apenas um ano. Ainda assim, cerca de 74% do fundo oceânico permanece sem mapeamento detalhado.

Como anomalias gravitacionais revelam montanhas invisíveis no fundo do mar

A descoberta das quatro montanhas submarinas ilustra um método cada vez mais utilizado para localizar estruturas desconhecidas no fundo do oceano. Satélites conseguem medir variações milimétricas na altura da superfície do mar. Essas variações não são aleatórias: são causadas pela gravidade de estruturas submarinas.

Uma montanha submersa cria um leve “inchaço” na superfície do oceano acima dela. Uma depressão gera o efeito oposto. Com esses dados, cientistas conseguem mapear anomalias gravitacionais e identificar regiões que podem esconder relevos desconhecidos.

Foi exatamente esse método que levou os técnicos do Falkor (too) às coordenadas onde as montanhas foram encontradas.

A altimetria indicava irregularidades, mas não revelava detalhes. O sonar multifeixe confirmou quatro estruturas distintas, com alturas entre 1.591 e 2.681 metros. Nenhuma delas constava em qualquer base de dados global.

Montes submarinos abrigam ecossistemas desconhecidos e biodiversidade extrema

Montanhas submarinas não são apenas formações geológicas. Elas funcionam como hotspots de biodiversidade. As correntes oceânicas que interagem com suas encostas criam zonas de ressurgência, onde águas profundas e ricas em nutrientes sobem em direção à superfície.

Esse processo sustenta ecossistemas complexos. Corais de profundidade se fixam nas rochas, formando estruturas que abrigam centenas de espécies. Estimativas indicam que o número de montes submarinos conhecidos pode saltar de 44.000 para até 100.000 com novos dados de satélites como o SWOT.

Expedições recentes no Pacífico Sudeste identificaram mais de 300 novas espécies em regiões recém-mapeadas. Em um dos mergulhos, foi registrada pela primeira vez em vídeo uma lula do gênero Promachoteuthis, extremamente rara e conhecida apenas por poucos espécimes coletados ao longo de mais de um século.

Falta de mapas detalhados do fundo do mar impacta internet, tsunamis e infraestrutura global

O desconhecimento do fundo oceânico tem consequências diretas para a infraestrutura global. Cerca de 99% do tráfego de internet internacional depende de cabos submarinos de fibra óptica, que precisam ser instalados em rotas seguras, longe de relevo acidentado e zonas sísmicas.

Sem mapas precisos, essas rotas são planejadas com base em dados incompletos. Tsunamis também são afetados pela topografia do fundo do mar, que influencia a velocidade e direção das ondas. Modelos de previsão mais precisos dependem diretamente de mapas batimétricos detalhados.

Correntes oceânicas, tempestades costeiras e até padrões climáticos globais são influenciados pela interação com relevos submarinos que, em grande parte, ainda não foram registrados.

Corrida global para mapear os oceanos aposta em drones e inteligência artificial

Com 74% do fundo oceânico ainda desconhecido e uma meta estabelecida para 2030, o Seabed 2030 depende de avanços tecnológicos para acelerar o processo. Uma das principais apostas é o uso de drones de superfície autônomos, como os desenvolvidos pela empresa Saildrone, capazes de operar por meses sem tripulação e mapear profundidades de até 7.000 metros.

Outra frente é o uso de inteligência artificial. Pesquisadores utilizam redes neurais para reprocessar dados antigos, extraindo informações mais detalhadas de levantamentos feitos décadas atrás, quando a tecnologia era limitada.

Essas duas abordagens são vistas como essenciais para reduzir o tempo necessário para mapear o planeta, mas ainda não há garantia de que a meta de 2030 será atingida.

Novas descobertas indicam que o fundo do oceano ainda esconde milhares de estruturas desconhecidas

As quatro montanhas descobertas em janeiro de 2024 não foram um caso isolado. Em agosto do mesmo ano, um monte submarino de 3.109 metros foi identificado na Dorsal Nazca. Em 2023, outro com 1.600 metros havia sido encontrado ao largo da Guatemala.

O padrão se repete em todas as descobertas: dados indicam uma anomalia, a rota é ajustada e o sonar revela estruturas completamente desconhecidas. Isso levanta uma questão inevitável: não se trata mais de saber se existem mais montanhas submarinas desconhecidas, mas quantas ainda permanecem ocultas.

Com 74% do fundo dos oceanos ainda sem mapeamento detalhado, a maior parte do planeta continua sendo um território que a humanidade ainda não explorou.

Fonte: CPG – Click Petróleo e Gás.

Imagem: Reprodução.

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