Veados cercados por paredes de fogo, lagartos incapazes de escapar do calor, habitats reduzidos a madeira carbonizada e cinzas: a vida selvagem está pagando caro pelas queimadas nas florestas da França.
A oeste de Bordeaux, dezenas de milhares de hectares de vegetação nativa foram consumidos pelas chamas neste verão europeu. As autoridades temem que uma onda de calor prevista para os próximos dias dê novo fôlego ao incêndio.
Além de casas, áreas agrícolas e veículos destruídos pelo fogo, a fauna da região da Gironda também sofreu “perdas extremamente significativas”, segundo a ministra francesa da Ecologia, Monique Barbut.
Ainda não há um balanço oficial do que foi consumido pelo fogo, mas o rastro de destruição dá pistas da dimensão dos impactos. “Está claro que os números serão catastróficos”, afirmou Barbut.
De acordo com o engenheiro Laurent Tillon, do Escritório Nacional de Florestas da França, quase nada poderia ter sobrevivido à intensidade do incêndio em municípios fortemente atingidos, como Le Porge, na costa. “A potência e a energia liberadas foram grandes demais”, afirmou ele.
A região abriga desde espécies como o grande e chamativo lagarto-ocelado até o musaranho-pigmeu, um dos menores mamíferos da Terra.
Espécies ameaçadas, como o sapo-de-unha-negra, que vive enterrado no solo, estariam entre os animais incapazes de suportar o calor extremo, a fumaça e as chamas, disseram especialistas em ecologia à AFP.
Os insetos morreram em massa, com efeitos duradouros para os animais que se alimentam deles, como as aves, afirmou Grégoire Lois, ornitólogo do Museu Nacional de História Natural, em Paris. “No ano que vem, aquela área será completamente inóspita”, disse Lois.
Outra consequência dos incêndios florestais é que enormes volumes de cinzas poluem rios e córregos e prejudicam a vida aquática.
Céline Sissler-Bienvenu, especialista em proteção animal e gestão de crises, destacou entre os animais sensíveis o cágado-de-carapaça-estriada — uma espécie longeva que foi fortemente afetada pelos grandes incêndios ocorridos na mesma região em 2022.
Sem refúgio
Animais de deslocamento mais rápido, como os veados, conseguem fugir da ameaça imediata das chamas, mas enfrentam um perigo secundário: acabam empurrados para áreas desconhecidas. Alguns ficam desorientados e acabam cercados por outros focos de incêndio, enquanto outros correm para rodovias e linhas férreas, correndo o risco de colisões fatais.
A inalação de fumaça e de gases tóxicos também ameaça a saúde animal, tanto no curto como no longos prazos, especialmente para espécies menores.
A perda do habitat e das áreas de alimentação representa outro desafio para os sobreviventes. “Eles precisam encontrar um lugar em territórios que já estão ocupados por outros animais, com recursos limitados”, explicou Lois.
Barbut afirmou que reintroduzir espécies expulsas pelo fogo é uma tarefa complicada “quando já não existem mais florestas”.
“A vida selvagem precisa de um habitat”, disse a ministra.
Fonte: Folha SP.
Foto: Yves Herman – 28.jul.26/Reuters.


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