Redução de desastres: especialistas defendem “cultura da prevenção”

Neste 13 de outubro, as Nações Unidas assinalaram o Dia Internacional para a Redução do Risco de Desastres. Sob o lema “Resiliência começa em casa”, a mensagem deste ano enfatiza que ninguém deve ser obrigado a escolher entre uma casa segura e uma que se pode pagar.

Apesar de a mortalidade média por desastres ter caído 65% na última década, o número de pessoas afetadas aumentou, segundo o Escritório da ONU para a Redução do Risco de Desastres, Undrr.

O caminho inclui mapear áreas vulneráveis, preparar serviços essenciais, ampliar sistemas de alerta e incorporar a natureza ao planejamento urbano para reduzir os impactos de chuvas intensas, secas e ondas de calor.

“Isso mostra que ainda tratamos como surpresa riscos que já são conhecidos e recorrentes”, diz Rafael Loyola, integrante da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e diretor da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS).

“Precisamos abandonar a cultura da tragédia e adotar uma cultura de prevenção. Hoje, o Brasil gasta mais de três vezes com resposta e reconstrução do que com prevenção de desastres, nos níveis federal, estadual e municipal”, complementa.

Segundo Loyola, a mudança exige monitoramento permanente de áreas de risco, investimentos em drenagem e contenção de encostas, arborização urbana, recuperação de áreas naturais e aprimoramento dos sistemas de alerta à população.

Também é necessário preparar hospitais, escolas, estradas e redes de abastecimento de água e energia para funcionar em condições adversas.

Idosos e pessoas com deficiência

Todos os anos, milhões de casas são danificadas ou destruídas, deslocando famílias e aprofundando a pobreza. Alguns dos impactos mais severos recaem sobre pessoas mais velhas, pessoas com deficiência, famílias de baixos rendimentos e outros grupos vulneráveis.

Entre 2005-2014 e 2016-2025, a taxa de mortalidade passou de 2,12 para 0,75 mortes por 100 mil habitantes. Nesse mesmo período, a quantidade de pessoas afetadas por desastres quase duplicou, passando de 1,227 para 2,449 por 100 mil habitantes.

O número de países que reportam dispor de estratégias nacionais de redução do risco de desastres aumentou de 56, em 2015, para 151, enquanto 128 nações informam ter sistemas de alerta antecipado para vários tipos de perigos, em comparação com 55 em 2015.

Adaptação

A preparação para eventos extremos precisa considerar as características e vulnerabilidades de cada região. As projeções para o segundo semestre de 2026, sob influência do El Niño, reforçam essa necessidade.

Para André Ferretti, gerente sênior de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário e integrante da RECN, a adaptação climática depende de ações articuladas entre diferentes setores.

“Ao contrário da mitigação, que tem foco na redução das emissões de gases de efeito estufa e pode ser feita em qualquer lugar do mundo, com efeitos positivos para todos, a adaptação exige ação local. É preciso olhar para cada território, mapeando riscos e vulnerabilidades.”

Segundo o especialista, as estratégias precisam envolver áreas como meio ambiente, saúde, educação, agropecuária e infraestrutura, com participação dos governos federal, estaduais e municipais, dos setores econômicos e da sociedade.

Uma das ferramentas disponíveis é a plataforma Natureza ON, desenvolvida pela Fundação Grupo Boticário em parceria com o MapBiomas, com tecnologia Google Cloud.

A ferramenta permite consultar riscos de inundações, deslizamentos e indicadores de segurança hídrica em diferentes regiões do país, além de indicar Soluções Baseadas na Natureza que podem aumentar a resiliência dos territórios.

Natureza como infraestrutura

A supressão da vegetação, a impermeabilização do solo e a ocupação de rios e nascentes contribuíram para aumentar a vulnerabilidade de cidades à eventos extremos, segundo Juliana Baladelli Ribeiro, gerente de Projetos da Fundação Grupo Boticário e especialista em Soluções Baseadas na Natureza.

A recuperação de áreas verdes, a preservação de rios e nascentes, a criação de parques e a ampliação de áreas permeáveis podem reduzir riscos associados ao excesso de água e às altas temperaturas.

Essas áreas também contribuem para controlar a erosão, estabilizar encostas e regular a disponibilidade de água, a temperatura e a umidade do ar.

“São formas muito eficientes de lidar com os riscos associados ao excesso de água e às altas temperaturas, ao mesmo tempo em que geram benefícios para a qualidade de vida da população”, afirma Juliana.

Ela ressalta que os investimentos urbanos precisam considerar os riscos climáticos desde o planejamento.

“Sem considerar os riscos e os impactos das mudanças do clima no planejamento dessas obras, parte desse investimento pode, em vez de preparar as cidades, contribuir para ampliar sua vulnerabilidade a eventos extremos e aprofundar a injustiça climática”, alerta.

Economias perdem US$ 2,3 trilhões num único ano

De acordo com a ONU, cerca de 100 milhões de pessoas foram afetadas por desastres, em média, por ano, entre 2016 e 2025. Os países perderam, de forma direta, US$ 1 trilhão em suas economias, que, quando somadas às perdas indiretas, ascendem a US$ 2,3 trilhões num único ano.

Apesar de representarem cerca de 12% da população dos países que reportam estes dados, os países menos desenvolvidos concentram 28,7% das mortes notificadas.

Por sua vez, os países em desenvolvimento sem litoral representam 20,8% dos óbitos, apesar de corresponderem a apenas 5,1% dessa população.

O Undrr diz que estas discrepâncias evidenciam a importância da redução do risco de desastres liderada localmente, bem como da orientação, do financiamento e do apoio técnico direcionados aos países que enfrentam níveis elevados de risco e capacidade limitada para absorver choques.

Guterres apela à prevenção coletiva

Numa altura em que os desastres são mais frequentes e severos, António Guterres lembrou que a segurança começa nas próprias residências e que a preparação doméstica pode fazer a diferença entre a vida e a morte.

Neste sentido, o secretário-geral pediu aos governos para exigir códigos de construção que tenham em conta os riscos e o planeamento do território, a par do investimento do setor privado em construções resilientes e seguros acessíveis.

O chefe da ONU sublinha ainda que todas as comunidades devem ter acesso a sistemas eficazes de alerta precoce e que o acesso dos países em desenvolvimento aos recursos de preparação deve ser garantido.

Fontes: Agência Brasil, ONU News.

Foto: © CNES.

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