Robôs ajudam cidades a evitar enchentes, no Brasil e no mundo

A adaptação climática é um desafio de gestão para as metrópoles, dado o aumento de eventos climáticos extremos, como chuvas fortes e inundações. Sistemas eficientes de escoamento de água são parte crucial deste planejamento, e inovações tecnológicas, como robôs, estão iniciando uma nova abordagem destes problemas urbanos.

Engenheiros vêm se inspirando na anatomia de vermes, baratas e aranhas para criar robôs de manutenção de galerias pluviais e de esgoto mundo afora. Estas máquinas relativamente simples possuem habilidades que permitem mapear pontos críticos e assim intervir de forma mais prática e eficiente, como no caso de entupimentos e ligações clandestinas de esgoto, que geram ameaças à saúde pública ao intensificar enchentes e poluir a água.

A combinação dos temporais é fatal e destrutiva – maior frequência de inundações, número de vítimas e prejuízo material em cada episódio. A previsão para os próximos anos é de chuvas mais concentradas na região Sudeste do Brasil, onde estão 44 das 100 maiores cidades do país, segundo o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática da ONU) divulgado em 2022.

Chuvas mais concentradas não acabam com a ameaça de secas e ondas de calor nessas cidades – apenas significam que a mesma chuva cai em menor intervalo de tempo. Sem armazenagem, a água provoca estragos e depois vai embora.

O perigo paira também sobre países ricos. Nos Estados Unidos, dados organizados desde 1910 mostram que nove dos 10 anos com mais chuvas extremas (concentradas em um dia) ocorreram desde 1996.

Neste cenário de urgência, entram em cena os robôs limpadores de galerias, para tentar garantir que a água escoe tão rapidamente quanto possível nos temporais, e retirando trabalhadores humanos de atividades perigosas.

 Prefeituras brasileiras usam atualmente diferentes versões dessa tecnologia, capaz de colaborar na limpeza e manutenção de galerias pluviais e de esgoto. Uma delas é um robô com quatro rodas, de 20 kg, feito de aço inoxidável que leva uma câmera adaptada para uso no subsolo, com capacidade para detectar imagens a 80 metros de distância. Atualmente, esse tipo de equipamento opera em cidades como Fortaleza, Vitória, Agudos (SP), Porto Alegre e Maceió.

O robô de Fortaleza foi criado pela empresa Robit, de Formosa (GO), e é operado pela empresa Norbrasil, que também trabalha em todo o País com outros modelos de robôs de vídeoinspeção, avaliando de galerias pluviais a dutos de petrolíferas. Outras cidades brasileiras têm equipamentos oferecidos por outros operadores e de outros fabricantes nacionais, como a Brasil Robots, de Ponta Grossa (PR), e estrangeiros, principalmente de Estados Unidos e China. Robôs do Japão, da França e da Índia também disputam esse mercado, que tende a crescer.

Segundo Gustavo Gemenes, geógrafo e gestor ambiental da Norbrasil, o robô em uso por sua empresa ajuda a detectar onde está o lixo na tubulação, mas é preciso que um caminhão especial de hidrojateamento seja usado para desobstruir a passagem. “O robô também procura ligações clandestinas de esgoto, buscando ajudar na melhoria de balneabilidade de praias, como fizemos em 2013 no Leblon e Ipanema, e em rios como o Pinheiros, em São Paulo. Ele não faz milagre, mas acha as ligações clandestinas”, diz Gemenes, em entrevista a Um Só Planeta.

Em Fortaleza, o projeto teve início em março de 2022. Até dezembro, percorreu cerca de 50 km nas galerias subterrâneas da cidade, especialmente em regiões com alto índice de alagamento e próximo às praias, onde os resíduos acumulados podem também prejudicar a balneabilidade. As atividades estão focadas na Bacia da Vertente Marítima, faixa localizada ao longo do litoral, entre os Rios Cocó e Ceará.

Samuel Alves da Silva, encarregado técnico da Norbrasil em Fortaleza, conta que o robô fez tanto sucesso que foi realizada uma votação popular para escolha do nome do equipamento, que acabou sendo batizado de Pluvi. Coordenado pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma), com financiamento do Banco Mundial, a expectativa é que o robô percorra 150 km até 2025. O equipamento pode percorrer apenas 100 metros por viagem. Mas, por enquanto, isso foi o suficiente para essa tecnologia colaborar para retirada de 182 toneladas de lixo das galerias da cidade.

“As galerias pluviais têm caminhos que desembocam em rios e mares. Se estiverem sujas, vai haver prejuízo para a drenagem. Fortaleza tinha pontos de alagamento históricos, mas hoje não temos mais tão fortes”, diz Luciana Lobo, secretária da Seuma, em entrevista ao jornal Diário do Nordeste. Além de lixo e detecção de ligações clandestinas de esgoto, é possível avaliar a situação geral da estrutura das galerias, para possíveis reparos.

Conforme o problema se torna mais complexo, os robôs precisam de maior capacidade e autonomia. No Reino Unido, o projeto Pipebots visa a colocar grupos de robôs, com diferentes tamanhos e configurações, trabalhando em equipe e com um mínimo de supervisão humana para manter desentupidos os dutos subterrâneos. Os testes devem começar em 2024. Esse tipo de tecnologia poderá ajudar muito a evitar enchentes nos próximos anos – mas, diante da crise climática, as máquinas não vão substituir planejamento urbano mais cuidadoso, com menor concentração de pessoas, mais áreas verdes, maior área de solo permeável e coleta de água da chuva nas grandes cidades.

Fonte: Um só Planeta.

Foto: Robit / Divulgação.

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