Um pouco por todo o mundo, multiplicam-se as consequências dos fenómenos meteorológicos extremos, potenciados pelas alterações climáticas. Do aumento das temperaturas médias globais à ocorrência de situações de seca ou de incêndios florestais intensos – não esquecendo, por outro lado, as tempestades cada vez mais frequentes, com chuvas e ventos fortes de elevada capacidade de devastação –, todos estes fenómenos apresentam efeitos negativos cada vez mais evidentes no quotidiano das populações.
Mas o impacto nas populações não se mede apenas pela destruição causada por ocorrências desta natureza e, consequentemente, pelos custos inerentes a todo o processo de reconstrução, recuperação e reposição das infraestruturas e dos bens materiais de todo o tipo. Até porque, muitas vezes, acaba por ter também influência na saúde mental dos cidadãos.
Em declarações à Euronews, Teresa Pereira, psicóloga e doutorada em Psicologia Aplicada, com investigação nas áreas da psicologia e das alterações climáticas, explicou que existe “um termo que engloba o conjunto de respostas emocionais da população perante a antecipação e também, no fundo, a vivência dos fenómenos associados às alterações climáticas”.
A isto se apelida de “ecoansiedade”, conceito que “começou por ser referido por um filósofo ambiental chamado Glenn Albrecht, em 2007” e, precisamente dez anos depois, em 2017, foi definido “oficialmente” pela Associação Americana de Psicologia (APA) “como sendo um medo crónico da degradação ambiental”.
De acordo com Teresa Pereira, um termo que “pode caracterizar-se por uma variabilidade emocional”, que acaba por se manifestar, por exemplo, por via de sintomas de “ansiedade, preocupação, medo, raiva ou culpa”. Mas, também, através de outros mais “fisiológicos” ou da “alteração das rotinas da vida quotidiana dos indivíduos”, nomeadamente mudanças “nos padrões de sono, perdas de apetite, uma procura constante de informação sobre as alterações climáticas” ou uma “diminuição do rendimento académico”, no caso dos mais jovens.
Mas o que pode “despertar” a ecoansiedade?
Os “efeitos da degradação ambiental sobre a saúde mental”, detalhou ainda Teresa Pereira, devem ser considerados “a três níveis”. Um deles prende-se com as consequências “diretas” do fenómeno climático, ou seja, “quando as pessoas vivenciam diretamente” estas situações “e, nesse caso, podem surgir sintomas como ansiedade, depressão e, eventualmente, perturbação de stress pós-traumático”.
Mas o impacto pode ser sentido igualmente em pessoas que sejam afetadas pelas consequências dos fenómenos climáticos extremos apenas a um “nível mais indireto”, já que “não vivenciam ou não presenciam diretamente” essas ocorrências.
Por último, é preciso também ter em conta quando, afirmou a doutorada em Psicologia Aplicada, “através dos meios de comunicação social ou da informação que lhes chega por outras pessoas”, os cidadãos acabam por ter mais conhecimento sobre estes fenómenos e sobre os seus impactos. “Habitualmente, a ecoansiedade enquadra-se mais neste terceiro nível”.
Por outras palavras, “o fato de nós obtermos esta informação de que as alterações climáticas são um fenómeno cada vez mais presente na nossa vida diária acaba por gerar a vivência de ecoansiedade nas pessoas, mesmo não tendo presenciado diretamente um evento extremo”.
Ecoansiedade é uma resposta “normal”
Apesar da variedade de sintomas e das diferentes formas através dos quais a ecoansiedade se pode manifestar, “é muito importante haver, na população em geral, uma consciencialização” para o fato de este ser “um fenómeno expectável e que revela uma resposta adaptativa”, especialmente no caso daqueles que viveram as consequências de fenómenos climáticos extremos na primeira pessoa.
Ou seja, “é normal que as pessoas, perante um fenómeno de tão grande dimensão que afeta as suas vidas, revelem estas respostas emocionais”, explicou a psicóloga Teresa Pereira.
Neste sentido, é importante notar que a ecoansiedade “não é uma patologia”. Ainda assim, em casos em que este tipo de comportamentos interferem “de forma mais significativa com a vida diária” dos indivíduos – ou resultem, até, numa certa “paralisia” –, “pode ser necessário recorrer à ajuda de profissionais de saúde mental”, para que possam ter um acompanhamento especializado.
Mas, em muitos casos, a “validação e suporte da comunidade, de família, de professores e dos pares”, aliados a outras estratégias, pode ser ainda mais essencial.
Promoção essa que passa, também, pelos estabelecimentos de ensino. “Hoje em dia, nos currículos das escolas, temos, genericamente, uma abordagem um pouco mais focada nas dimensões cognitivas, de conhecimento daquilo que são as alterações climáticas. Mas é importante, também, trazer uma dimensão afetiva, perceber de que forma é que nos sentimos afetados e de que forma é que nos podemos envolver de forma mais ativa” para responder às mesmas, defendeu a psicóloga.
Particularmente com os mais jovens é, assim, importante não adotar “uma atitude alarmista” – embora esta seja uma premissa aplicável à população em geral. Mas o mais recomendável é que se adote “uma abordagem o mais positiva possível, e realista”, bem como se mostre “disponibilidade para discutir o tema” de uma forma “fundamentada, focada nas soluções” que já estão a ser desenvolvidas para tentar mitigar as consequências dos fenómenos climáticos extremos.
O que pode ajudar a lidar com a ecoansiedade?
Segundo detalhou Teresa Pereira em declarações à Euronews, com base naquilo que é a investigação científica existente sobre o tema, a ecoansiedade pode ainda motivar os indivíduos a adotar “comportamentos de proteção ambiental, isto é, pró-ambientais”. E uma das “três estratégias comuns que são mais eficazes para lidar com a ecoansiedade”, com base em alguns estudos, ainda preliminares, que têm sido desenvolvidos nos últimos anos, está precisamente relacionada com esse tipo de iniciativa.
De acordo com a psicóloga, “alguns investigadores referem que a ação, o envolvimento em ações de proteção do ambiente é o maior antídoto para a ecoansiedade”, ao criarem “um sentido de utilidade”, mas também de “controlo e esperança”.
Outra das formas possíveis para tentar lidar com esta resposta emocional pode passar pelo “envolvimento em grupos, em associações com foco mais ambiental, [pelo contacto com] outras pessoas que relatem ecoansiedade”, de forma a adquirirem “maior suporte social”.
Por fim, é de referir que existem já “muitos estudos que associam o contacto com a natureza, com espaços verdes e azuis, a maiores níveis de bem-estar”, pelo que também essa pode ser uma estratégia válida para combater “alguns sintomas de ansiedade, e depressivos, que possam estar associados a esta, no fundo, antecipação dos efeitos das alterações climáticas”.
Um “mapeamento” da ecoansiedade
Ao longo dos últimos anos, a investigação académica tem-se vindo a debruçar cada vez mais sobre a forma como a ecoansiedade impacta as populações. A literatura, salientou ainda a doutorada em Psicologia Aplicada, tem por base variáveis e metodologias diferentes, o que dificulta, muitas vezes, comparações fiáveis. No entanto, fornecem alguns indicadores que permitem avaliar como esta realidade se vai afirmando em diferentes pontos do mundo.
Um estudo de âmbito europeu, publicado no European Journal of Public Health em 2023, com base em dados retirados da 10.ª ronda do Inquérito Social Europeu (recolhidos entre 2020 e 2022), avaliou o nível de preocupação de “52.219 participantes com mais de 15 anos de idade, provenientes de 25 países”, face às alterações climáticas. A investigação concluiu que existem “diferenças significativas nos níveis de ecoansiedade entre os países europeus”, sendo Alemanha (55,3%) e Espanha (55,2%) os países onde estes foram mais elevados, com Eslováquia (22,6%) e Estónia (24,7%) a estarem na base da tabela.
Outra análise de 2021, divulgada na The Lancet Planetary Health, realizou um inquérito junto de 10 mil crianças e jovens, com idades entre os 16 e os 25 anos, em dez países – Austrália, Brasil, Finlândia, França, Índia, Nigéria, Filipinas, Portugal, Reino Unido e Estados Unidos da América –, com vista, nomeadamente, a recolher “dados sobre as opiniões e sentimentos dos participantes em relação às alterações climáticas”. O estudo concluiu que os “países que expressaram maior preocupação e maior impacto no funcionamento tendiam a ser mais pobres, localizados no Sul Global [economias emergentes] e mais diretamente afetados pelas alterações climáticas”.
Fonte: Euronews.
Foto: Direitos de autor AP Photo.


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