Ao longo de mais de uma década, a China despejou areia e sedimento sobre recifes submersos no Mar do Sul da China e construiu, de forma silenciosa e sistemática, uma série de ilhas artificiais hoje equipadas com pistas de pouso, hangares, radares e baterias de mísseis. O projeto, monitorado por imagens de satélite independentes, foi oficialmente negado por Pequim em diversas ocasiões, mas os dados documentam uma expansão contínua que alterou permanentemente a geografia e a geopolítica de uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo.
Como as ilhas artificiais foram construídas
A técnica combina corte do fundo coralino e deslocamento de sedimentos para zonas rasas. Esse material vai se acumulando como aterro, criando uma superfície emergida.
Depois entram diques e muros de contenção ao redor do recife para segurar o avanço do preenchimento. Com mais camadas de material, máquinas compactam o solo para dar firmeza.
Na etapa final, a área recebe pavimentação e infraestrutura, como vias internas e superfícies preparadas para operação contínua em mar aberto.
O que a China construiu nas ilhas artificiais do Mar do Sul da China?
As ilhas artificiais mais desenvolvidas estão localizadas nas Ilhas Spratly e nas Ilhas Paracel, dois arquipélagos disputados por múltiplos países da região. Análises de imagens de satélite conduzidas pela Asia Maritime Transparency Initiative (AMTI), vinculada ao Center para Strategic and International Studies dos Estados Unidos, documentaram a transformação progressiva de recifes rasos em bases militares de grande porte, com capacidade de projeção de poder sobre toda a região.
Nas Ilhas Spratly, três pontos se destacam pela escala das instalações construídas. O Recife Fiery Cross, o Recife Mischief e o Recife Subi foram transformados em bases com pistas de 3.000 metros capazes de receber aeronaves de combate, abrigos endurecidos para aviões, sistemas de radar, instalações de armazenamento de combustível e quartéis para tropas. A infraestrutura instalada nos três locais é praticamente idêntica, sugerindo planejamento coordenado com objetivos estratégicos definidos. Nas Ilhas Paracel, a principal base chinesa na Ilha Woody conta com uma pista de 2.700 metros, baterias de mísseis superfície-ar do tipo HQ-9 e dois grandes portos reformados para uso militar e civil.
Qual é a dimensão real da expansão territorial realizada pela China?
Os números levantados pela Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China ajudam a dimensionar o projeto. Entre 2013 e 2015, a China criou mais de 12 quilômetros quadrados de terra nova no Mar do Sul da China, volume que supera em muito o total acumulado por todos os demais países com reivindicações na região ao longo dos 40 anos anteriores. Isso coloca a expansão chinesa em uma categoria completamente diferente de qualquer outro esforço de reclamação de terra na área.
A escala do projeto fica ainda mais clara quando se observa o detalhamento das obras em pontos específicos. Na Ilha Tree, nas Ilhas Paracel, foram dragados aproximadamente 25 acres de terra nova, com instalação de heliporto, painéis solares, turbinas eólicas e uma fábrica de cimento, indicando que a construção ainda estava planejada para continuar. Na Ilha North, uma grande mureta de contenção protege cerca de sete acres de terra reclamada da erosão, e os planos incluíam a construção de uma ponte para conectar a ilha à vizinha Ilha Middle, projeto que havia sido interrompido por danos causados por um tufão.
Como a comunidade internacional reagiu à construção das ilhas artificiais?
A resposta dos países vizinhos e das organizações regionais ao projeto das ilhas artificiais foi marcada por uma tensão constante entre a preocupação com a expansão e a dificuldade em estabelecer respostas coordenadas e efetivas. O Mar do Sul da China é disputado por China, Vietnam, Filipinas, Malásia, Brunei e Taiwan, e cada um desses países enfrenta o dilema de equilibrar relações econômicas com Pequim e a defesa de suas reivindicações territoriais.
Na 50ª Reunião de Ministros das Relações Exteriores da ASEAN, realizada em Manila em 2017, desentendimentos internos quase inviabilizaram a emissão de um comunicado conjunto. Após longas negociações, o grupo reconheceu preocupações com a reclamação de terras e pediu contenção, mas a linguagem do documento final foi deliberadamente cautelosa, refletindo a pressão de membros com laços estratégicos distintos em relação à China. A dificuldade em produzir uma resposta unificada tem sido uma constante desde então.
Veja os principais pontos de tensão que envolvem a disputa territorial:
Direito internacional ignorado: em 2016, um tribunal arbitral internacional concluiu que as reivindicações da China sobre o Mar do Sul da China não tinham base jurídica válida segundo a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar. Pequim rejeitou a decisão e não reconhece a jurisdição do tribunal.
Negações oficiais contrastadas por evidências: em 2017, o ministro das Relações Exteriores Wang Yi afirmou publicamente que a China não estava envolvida em obras de reclamação de terras. Imagens de satélite do mesmo período mostram dragagem ativa e construção de novas estruturas em andamento.
Reação limitada dos vizinhos: o Vietnam também realizou obras de reclamação de terra na região, mas em escala muito menor. As Filipinas e outros países com reivindicações sobrepostas têm protestado diplomaticamente, com impacto prático limitado sobre o avanço das obras.
Pressão dos Estados Unidos: a Marinha americana tem realizado operações de liberdade de navegação próximas às ilhas artificiais, navegando dentro das zonas de 12 milhas náuticas que a China reivindica ao redor das estruturas, o que Pequim classifica como provocações ilegais.
Impacto ecológico e o custo ambiental
Além do embate geopolítico, o dano ambiental aparece como efeito difícil de contornar. Há estimativas de perda de 12 a 18 km² de recifes, inclusive em áreas bem preservadas da região.
O problema não se limita ao ponto aterrado. As nuvens de sedimento geradas durante o despejo podem se espalhar e afetar sistemas mais distantes, alterando padrões de luz, correntes e deposição no entorno.
Pesquisas científicas chinesas também indicam que essas práticas podem eliminar o ecossistema da área ocupada e prejudicar correntes e padrões de sedimento, acelerando a degradação de zonas vizinhas.
A Administração Estatal Oceânica da China sustenta que os projetos passam por avaliação e que os corais não devem ser prejudicados, atribuindo a degradação a tendências globais como a acidificação dos mares e a mudança climática.
O que a expansão das ilhas artificiais da China revela sobre a geopolítica regional?
A transformação de recifes em bases militares no Mar do Sul da China representa uma das mudanças geopolíticas mais significativas da Ásia nas últimas décadas. As ilhas artificiais não são apenas construções de engenharia, mas posições avançadas que ampliam o alcance militar da China, estendem sua presença sobre rotas marítimas por onde passa cerca de um terço do comércio global e criam fatos consumados difíceis de reverter por meios diplomáticos ou legais.
O projeto foi conduzido de forma gradual, deliberada e sem interrupções relevantes ao longo de mais de doze anos, o que revela uma estratégia de longo prazo sustentada independentemente das críticas externas. A rede de bases hoje distribuída pelas Ilhas Spratly e Ilhas Paracel oferece à China capacidade de vigilância, projeção aérea e controle de acesso marítimo sobre uma área enormemente estratégica. Para os países vizinhos e para as potências com interesses na região, a questão central não é mais como impedir a construção, mas como lidar com uma disputa territorial cujos fatos no terreno, ou melhor, no mar, já foram estabelecidos.
Fontes: CPG – Click Petróleo e Gás, Catraca Livre.
Imagem gerada por inteligência artificial.


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