O Brasil perde cerca de R$ 110 bilhões por ano do Produto Interno Bruto (PIB) em razão de eventos climáticos extremos, como secas e chuvas intensas, segundo estudos do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento e do Instituto Clima e Sociedade (iCS), divulgados pelo ((o)) eco.
As projeções indicam que, em um cenário de aquecimento global de +2 °C, essas perdas podem chegar a R$ 144,6 bilhões anuais, com o aumento da frequência e intensidade dos eventos extremos.
E o problema não para por aí: à despeito da dimensão do impacto econômico, o país ainda investe pouco para evitar esses prejuízos. O gasto climático federal representa cerca de 1% do orçamento da União, enquanto os recursos destinados à resposta emergencial chegam a ser quase 10 vezes maiores que os investimentos em prevenção e adaptação, ainda de acordo com os mesmos estudos.
Os dados ajudam a explicar por que os efeitos dos desastres continuam se acumulando — e porque a proteção financeira é limitada.
Hoje, menos de 10% das perdas econômicas em desastres climáticos recentes no Brasil estão cobertas por seguros, de acordo com a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg). O restante do prejuízo acaba sendo absorvido por famílias, empresas e pelo poder público.
Desastre x custo
Em novembro de 2025, um tornado no interior do Paraná destruiu parte da infraestrutura urbana de municípios como Rio Bonito do Iguaçu, que precisou ser reconstruída do zero. As perdas econômicas diretas ultrapassaram R$ 114 milhões, segundos dados estimados na época, incluindo prejuízos em lavouras, comércio e equipamentos públicos.
Esse evento revela um problema estrutural: o país ainda opera com baixa proteção financeira diante de um cenário de risco crescente.
“A baixa cobertura se explica pela combinação de vários fatores: baixa renda, falta de cultura de proteção, baixa penetração do seguro, subseguro, desconhecimento do produto, concentração de riscos em áreas vulneráveis e dificuldade de precificação”, afirma a presidente da Federação Nacional das Empresas de Resseguros (Fenaber), Rafaela Barreda, em entrevista ao Um Só Planeta.
Sem essa rede de proteção, os efeitos se espalham. “Os principais riscos são maiores perdas para famílias, pequenas empresas e poder público, além de atrasos na reconstrução, pressão fiscal e perda de produtividade”, diz a executiva.
Risco climático já afeta crédito e investimento
Em regiões mais expostas, o risco climático já influencia decisões de crédito e investimento. Um imóvel sujeito a alagamentos pode perder valor como garantia; uma empresa instalada em área vulnerável pode enfrentar mais dificuldade para se financiar.
“O risco climático já entra nas análises de crédito, porque afeta inadimplência, valor das garantias e continuidade dos negócios”, explica Barreda. Empresas passam a pagar juros mais altos, produtores rurais enfrentam maior volatilidade e projetos em áreas de risco exigem mais garantias.
Do campo à indústria
Municípios atingidos por secas extremas registram perdas médias de cerca de 2% do PIB ao ano, com impactos que podem durar até cinco anos. No setor agropecuário, essas perdas podem ultrapassar 7,5% do valor adicionado, segundo os estudos do Centro Celso Furtado e do iCS.
Já episódios de chuvas intensas provocam quedas imediatas de aproximadamente 1% do PIB municipal, além de danos materiais, perda de arrecadação e deslocamento de populações.
“Os efeitos mais diretos já aparecem em perdas de safra, paralisações operacionais, danos a ativos e aumento de custos de financiamento, proteção e resseguro”, afirma Barreda.
Infraestrutura, mineração e mercado imobiliário também estão entre as áreas mais expostas.
Risco de efeito em cadeia na economia
Rafaela Barreda alerta que repetição de desastres pode pressionar simultaneamente empresas, seguradoras e bancos, criando um efeito em cadeia. “Sim, existe esse risco, especialmente se houver eventos extremos recorrentes, de grande escala e em regiões ou setores muito concentrados”, afirma Barreda.
Sem cobertura adequada, o peso recai sobre o Estado. “A instabilidade pode surgir pelas perdas não seguradas, onde o sistema fica inteiramente dependente de governos e novas linhas de crédito”.
A chamada “lacuna de proteção”, diferença entre perdas totais e valores segurados, ajuda a entender por que os efeitos econômicos dos desastres são tão amplos no Brasil. Além de fatores como renda e acesso limitado a seguros, há desafios técnicos. Com um clima mais instável, prever e precificar riscos se torna mais complexo. “O prêmio gerado em uma região muitas vezes não é suficiente para subsidiar outra, o que cria desequilíbrios técnicos”, explica Barreda.
Fonte: Um Só Planeta.
Foto: Reprodução/Instagram @athleticopr


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