Calor extremo ameaça agricultura global, alertam agências da ONU

O calor extremo está levando os sistemas agroalimentares globais ao limite, ameaçando os meios de subsistência e a saúde de mais de 1 bilhão de pessoas. O alerta vem do relatório Calor extremo e agricultura, divulgado nesta quarta-feira, (22), data em que é comemorado o Dia da Terra pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, FAO, e pela Organização Meteorológica Mundial, OMM.

A FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) e a OMM (Organização Meteorológica Mundial) afirmaram que as ondas de calor estão se tornando mais frequentes, intensas e prolongadas, prejudicando as colheitas, a pecuária, a pesca e as florestas. O aumento deste fenômeno é um dos efeitos mais evidentes da mudança climática provocada pelas atividades humanas.

“O calor extremo está reescrevendo o roteiro sobre o que agricultores, pescadores e silvicultores podem cultivar e quando podem cultivar. Em alguns casos, está até mesmo determinando se eles ainda podem trabalhar”, disse Kaveh Zahedi, chefe do escritório de mudanças climáticas da FAO.

“Em sua essência, esse relatório está nos dizendo que enfrentamos um futuro muito incerto”, disse ele à Reuters.

Conjuntos de dados climáticos recentes mostram que o aquecimento global está acelerando. Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados — com 2025 ocupando o terceiro lugar no ranking histórico.

Um planeta mais quente provoca extremos climáticos mais frequentes e severos. Atuando como um multiplicador de riscos, o calor extremo intensifica as secas, os incêndios florestais e os surtos de pragas e reduz drasticamente a produtividade das colheitas quando os limites críticos de temperatura são ultrapassados. Além disso, oceanos mais quentes do que o normal provoca mais tempestades, desregulando a previsibilidade climática da qual as lavouras dependem.

Queda na produtividade com mais aquecimento

O relatório afirma que as temperaturas mais altas estão diminuindo a margem de segurança da qual as plantas, os animais e os seres humanos dependem para funcionar, com queda na produtividade da maioria das principais culturas quando as temperaturas ultrapassam cerca de 30°C.

Zahedi citou o Marrocos, onde seis anos de seca foram seguidos por ondas de calor recordes. “Isso levou a uma queda na produção de cereais em mais de 40%. Isso dizimou a colheita de azeitonas e frutas cítricas. Basicamente, essas colheitas fracassaram”, disse.

As ondas de calor marinhas também estão se tornando mais frequentes, reduzindo os níveis de oxigênio na água e ameaçando os estoques de peixes. Em 2024, 91% dos oceanos do mundo sofreram pelo menos uma onda de calor marinha, segundo o levantamento.

Os riscos aumentam acentuadamente à medida que o aquecimento se acelera. Espera-se que a intensidade dos eventos extremos de calor dobre se para atingida a marca de 2°C de aquecimento e quadruplique a 3°C, em comparação com 1,5°C.

Zahedi disse que cada um grau de aumento na temperatura média global reduz a produção das quatro principais culturas do mundo — milho, arroz, soja e trigo — em cerca de 6%.

A FAO e a OMM disseram que respostas fragmentadas são inadequadas e pediram uma melhor governança dos riscos e sistemas meteorológicos de alerta antecipado para ajudar os agricultores e pescadores a tomar medidas preventivas.

“Se você conseguir colocar os dados nas mãos dos agricultores, eles poderão ajustar quando plantam, o que plantam e quando colhem”, disse Zahedi.

Mas o relatório ressalta que a adaptação por si só não é suficiente: a única solução duradoura para a crescente ameaça do calor extremo é uma ação ambiciosa e coordenada para cortar a emissão de gases de efeito estufa e conter a mudança climática.

Relatório revela que calor extremo no Brasil abalou produção de soja e pecuária

Evento climático registrado em 2023 e 2024 resultou em queda de 10% na produção da soja; bovinos e suínos sofreram com estresse térmico; aumento da temperatura da água elevou mortalidade de peixes como salmão; país também sofreu com incêndios florestais e chuvas intensas.

Temperaturas 5 °C acima da média no Brasil

O estudo analisou os impactos de um evento de calor extremo longo e severo que atingiu grande parte do Brasil entre 2023 e 2024.

Em alguns lugares, ao longo de vários meses, as temperaturas máximas diurnas ultrapassaram em 5 °C o valor médio climatológico, com múltiplos episódios de ondas de calor registrados.

Os impactos sobre as principais culturas do Brasil, que são soja e milho, foram significativos, pois as ondas de calor coincidiram com os ciclos de desenvolvimento nas principais áreas produtoras do Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste.

Queda de 10% na produção de soja

Análises indicam que as temperaturas máximas diurnas ultrapassaram o limiar crítico para a soja, de 30 °C, em mais de 60% dos dias, entre outubro de 2023 e maio de 2024.

Devido ao estresse térmico, a safra final foi de 147,7 milhões de toneladas, uma redução de quase 10% em relação às expectativas iniciais, conforme dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Outras safras como amendoim, milho, batata, cana-de-açúcar e feijão enfrentaram um aumento de pragas e doenças.

Porcos e vacas sob estresse térmico

O setor pecuário também ficou sob pressão severa. Na região Centro-Oeste, os suínos, um dos animais mais sensíveis ao calor, estiveram sob intenso estresse térmico por 20 ou mais dias a cada mês, ao longo da maior parte do período de 2023–2024.

O estresse térmico em suínos provoca uma desaceleração na ingestão de ração e no ganho de peso. Esses efeitos podem ser compensados pelo prolongamento do ciclo de crescimento, mas isso aumenta o custo. No caso do gado, o estresse térmico resulta em queda da produção de leite, e essas perdas não podem ser recuperadas.

Períodos prolongados de exposição ao calor extremo, em ambas as espécies, podem causar danos fisiológicos de longo prazo e prejudicar a reprodução, o que representa uma perda econômica adicional e irreversível para os produtores.

Água mais quente limita oxigênio dos peixes

A criação de truta-arco-íris e salmão-do-atlântico também foi impactada. À medida que as temperaturas da água sobem, essas espécies sofrem um estresse duplo, pois a água mais quente contém menos oxigênio, ao mesmo tempo em que acelera o metabolismo dos peixes, elevando, assim, sua demanda por oxigênio.

Sob maior estresse fisiológico, os peixes se alimentam menos e tornam-se mais suscetíveis a doenças causadas por microrganismos oportunistas. Durante os anos de 2023 e 2024, a temperatura da água atingiu o nível mais alto em dez anos na estação experimental de criação de salmão em Campos do Jordão.

As temperaturas elevadas provocaram altas taxas de mortalidade nos peixes, desde os embriões até os adultos.

Incêndios florestais e chuvas catastróficas

O calor também causou incêndios florestais catastróficos, que devastaram uma área equivalente ao tamanho da Itália e resultaram em grave poluição do ar por micropartículas.

O evento climático que causou o calor também resultou em chuvas e inundações catastróficas no Rio Grande do Sul, entre abril e maio de 2024. O estado é responsável por mais de 70% da produção brasileira de arroz e as inundações causaram uma queda de produtividade de 3,6%.

O relatório da FAO e da OMM afirma que a frequência, intensidade e duração dos eventos de calor extremo aumentaram muito no último meio século, com impactos preocupantes nos sistemas e paisagens agroalimentares.

Calor extremo refere-se a situações em que as temperaturas diurnas e noturnas sobem acima dos intervalos habituais por um período prolongado. Isso causa estresse fisiológico e danos físicos diretos em culturas alimentares, no gado, nos peixes, nas árvores e nos seres humanos.

Fontes: Folha SP, ONU News.

Foto: Divulgação..

Seja o primeiro

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *