Brasil perde 4 em cada 10 copos de água tratada; desperdício agrava crise climática

Enquanto governos e empresas debatem transição energética, carros elétricos e expansão das energias renováveis, um desperdício continua escondido sob o asfalto das cidades brasileiras: a perda de água tratada nas redes de distribuição. Em média, de acordo com pesquisa do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, quatro de cada 10 copos de água produzidos no país desaparecem antes mesmo de chegar às torneiras.

E cada litro perdido também representa energia desperdiçada na captação, tratamento e bombeamento da água. Consequentemente, emissões de carbono que poderiam ser evitadas.

“No Brasil, o desperdício médio representa uma média nacional de 40,1% de perda na distribuição”, ressalta Marilia Lara, CEO e cofundadora da Stattus4, uma empresa brasileira de tecnologia voltada à detecção de vazamentos em redes de água.

“Se recuperássemos apenas metade desse volume, seria possível abastecer todos os 35 milhões de brasileiros que hoje não têm acesso à água potável”, reitera Marília.

A executiva é autora do artigo “Cada gota importa: combater a perda de água é urgente para o planeta”.

Água perdida significa carbono desperdiçado

A relação entre vazamentos e mudanças climáticas ainda é pouco debatida fora do setor de saneamento. Água e energia são recursos inseparáveis dentro da infraestrutura urbana. “No saneamento, água e energia são recursos indissociáveis: toda água perdida foi captada, tratada e bombeada, consumindo energia elétrica em cada etapa”, explica.

O setor de saneamento responde hoje por cerca de 2% a 3% do consumo total de energia elétrica do Brasil. Isso reduz perdas também representa reduzir emissões associadas à operação dos sistemas de abastecimento.

Em um dos projetos monitorados pela empresa, realizado em parceria com a Companhia de Saneamento do Paraná, a recuperação de 491 metros cúbicos de água por dia evitou o desperdício de aproximadamente 98,4 mil kWh por ano. Segundo os cálculos da companhia, isso impediu a emissão de 895 toneladas anuais de dióxido de carbono (CO₂). Além da eletricidade, os vazamentos também representam desperdício de produtos químicos utilizados no tratamento da água que nunca chega ao consumidor final.

O problema sob as ruas

Boa parte das perdas não aparece em grandes rompimentos visíveis nas ruas. Os chamados vazamentos invisíveis, subterrâneos e contínuos, são considerados hoje um dos maiores desafios do saneamento brasileiro. “Muitas concessionárias ainda operam no ‘reativo’, consertando só quando o cano estoura e a água aparece na rua, enquanto o grande vilão são os vazamentos não visíveis”, considera Marilia.

Tradicionalmente, a identificação desses vazamentos depende de técnicos percorrendo ruas com equipamentos acústicos conhecidos como geofones.

Segundo a executiva, um vazamento pode levar até 180 dias para ser identificado nesse modelo convencional.

Com sensores instalados em hidrômetros e redes subterrâneas, aliados a sistemas de Internet das Coisas e inteligência artificial, o prazo pode cair para apenas dois dias.

“A diferença é drástica: no método tradicional, um vazamento invisível pode levar até 180 dias para ser detectado. Com o ecossistema da Stattus4, reduzimos esse tempo para apenas dois dias”, diz. Marília argumenta que os algoritmos conseguem diferenciar ruídos urbanos, como trânsito e obras, dos sinais de vazamento com cerca de 70% de precisão.

Economia de água

A empresa afirma atuar atualmente em cerca de 150 municípios brasileiros, além de iniciar operações em Portugal. De acordo com dados, os sistemas monitorados pela companhia já ajudaram a recuperar aproximadamente 540 milhões de litros de água por dia. “Para dar uma dimensão visual: esse volume diário equivale ao consumo anual de uma metrópole como Paris”, compara Marilia.

Entre os casos citados está um projeto piloto realizado em Curitiba, em parceria com a Sanepar, envolvendo 22 quilômetros de rede e cerca de 2 mil ligações de água. Em seis meses, o índice de perdas reais no setor mais crítico caiu 70%, enquanto o indicador internacional de eficiência da rede (ILI) foi reduzido de 26,4 para 7,2.

O projeto também recuperou 491 m³ de água por dia e reduziu a perda financeira diária de R$ 1.713 para R$ 526 no trecho analisado.

Segurança hídrica e adaptação climática

Enfrentar perdas pode ser uma das formas mais rápidas e econômicas de ampliar a segurança hídrica urbana diante das mudanças climáticas.

“O impacto financeiro é massivo: cada R$1 investido em saneamento economiza R$9 em saúde pública”, estima Marilia. “Se considerarmos apenas 10% da rede brasileira utilizando nossa tecnologia, teríamos uma economia de 50 milhões de metros cúbicos de água por mês, com uma economia mensal de R$ 120 milhões”.

“Resolver o problema do desperdício de água é, em última análise, uma decisão sobre o tipo de futuro que escolhemos construir”, escreveu a CEO em artigo repercutido pelo prêmio internacional Zayed Sustainability Prize. “Quando identificamos vazamentos, economizamos água, energia, recursos públicos e reduzimos as emissões”.

Fonte: Um Só Planeta.

Foto: Pxhere.

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