A desastrosa viagem de Roosevelt à Amazônia

Joe Biden não será o primeiro presidente americano a se lançar a uma viagem à floresta amazônica.

Com uma visita de menos de 24 horas à área, Biden foi a uma reserva amazônica nativa e teve um encontro com lideranças indígenas. Assim, ele se torna o primeiro presidente americano em exercício a pisar na floresta.

Antes de Biden, porém, há 111 anos, era um ex-presidente americano que desembarcava na maior floresta tropical do mundo para tentar se recuperar de uma derrota eleitoral. A empreitada de Theodore Roosevelt, porém, nada teria de breve.

A expedição deu à Amazônia um rio batizado de Roosevelt. E quase custou a vida ao ex-mandatário americano.

Presidente do Big Stick

Depois de dois mandatos (1901 a 1909), Theodore Roosevelt, ainda hoje o presidente mais jovem a chegar ao cargo, aos 42 anos, perdeu o pleito de 1912.

Aquela campanha, na qual ele chegou a ser baleado em uma tentativa de assassinato, era vista por ele mesmo como sua última chance de voltar à Casa Branca.

No poder, Roosevelt se notabilizara por sua política externa do Big stick (grande porrete, em tradução para o português), projetando globalmente a imagem do poderio militar americano contra possíveis intervenções europeias nas Américas.

Enquanto isso, aprofundava a presença norte-americana na região latina, empreendendo por exemplo a construção do Canal do Panamá.

Mas Roosevelt era também um naturalista e um taxidermista. Conhecido como “o presidente conservacionista”, ele colocou sob proteção federal 230 milhões de acres de terras públicas nos oito anos de gestão, incluindo 150 florestas nacionais.

Criou as primeiras 55 reservas federais de aves e caça, além de 5 parques nacionais. O Museu de História Natural de Nova York o descreve como um “pioneiro” da conservação natural e batizou seu salão de biodiversidade em homenagem a Roosevelt.

Uma criança de saúde frágil, Roosevelt se tornara um adulto aplicado em manter vigor físico e em mostrar resiliência diante de dificuldades.

Ao perder a mãe e a mulher no mesmo dia, por causas distintas, em vez de guardar luto, ele se lançou a uma expedição exploratória às áridas formações geológicas das Dakota Badlands. Mais tarde, quando deixou a presidência, passou mais de um ano em um safari pela África.

“Theodore Roosevelt perdeu sua última tentativa de voltar ao poder e estava neste estranho lugar em que ele já não era mais nada. Mas sempre foi um aventureiro e também um homem em busca de um sentido para a vida. E foi encontrá-lo em uma expedição a uma área remota da Amazônia”, afirma o pesquisador Pedro Libânio, da Casa Rui Barbosa, especialista na expedição que Roosevelt e sua equipe americana fizeram sob o comando do então Coronel Cândido Rondon, um lendário indigenista e expedicionário da Amazônia brasileira.

Deixar os ossos na América do Sul

Roosevelt chegou à América do Sul em 1913. Sua ideia inicial era dar uma palestra em Buenos Aires, mas ao chegar ao Rio de Janeiro, ele é informado de que Rondon lideraria uma expedição para tentar percorrer por completo o então chamado Rio da Dúvida.

Tratava-se de uma região até então jamais explorada na Floresta Amazônica. Seriam cerca de 1,6 mil quilômetros por dentro da floresta, em canoas. Ou, como Roosevelt definiu, “sua última chance de ser um menino”.

“Se rememorarmos a vida dele, veremos que ele se lança nessas expedições difíceis e perigosas sempre para provar algo aos outros, mas principalmente para provar algo a si mesmo. Ele foi para a América do Sul pensando que faria uma (outra) viagem, mas o ministro das Relações Exteriores do Brasil (Lauro Muller, do gabinete do presidente Hermes da Fonseca) lhe diz: ‘Ei, acabamos de descobrir a nascente deste rio, não temos ideia para onde ele vai.’ E este é Theodore Roosevelt. (…) Para ele, isso era simplesmente irresistível: a cabeceira de um rio, que não está em nenhum mapa e ninguém sabe o que vai acontecer em cada curva. Isso combina completamente com o personagem. Não havia como ele resistir a algo assim”, disse Candice Millard, autora de “The River of Doubt – Theodore Roosevelt’s Darkest Journey” (O Rio da Dúvida – A jornada mais sombria de Theodore Roosevelt), livro de 2005 no qual ela rememora a jornada, em uma entrevista à Theodore Roosevelt Presidential Library.

Mas esse tipo de excursão tinha uma série de riscos, e Roosevelt os conhecia. Sabia, por exemplo, que Rondon normalmente tinha que pagar sete vezes mais do que qualquer outro empregador em jornadas amazônicas – e mesmo assim podia ter dificuldade em recrutar seus homens.

Conhecia o perigo de piranhas, animais peçonhentos e tinha ele próprio – ou assim registrou-se na história – caçado uma onça pouco antes do início da descida do Rio da Dúvida. Nenhum alerta surtiu efeito para dissuadir o ex-presidente.

“Se para necessário que eu deixe meus ossos na América do Sul, estou pronto pra isso”, ele escreveu antes da partida. E foi literalmente o que quase aconteceu.

Rio Roosevelt

O início da jornada pareceu enganá-lo sobre o que estava por vir. Anotador compulsivo (dedicava-se quatro horas por dia às suas notas), ele fez uma descrição bucólica do princípio da expedição.

“Borboletas de vários tons esvoaçavam sobre o rio. O dia estava nublado, com pancadas de chuva. Quando o sol rompeu as fendas nas nuvens, seus raios transformaram a floresta em ouro”, escreveu Roosevelt em seu livro Through the Brazilian Wilderness (algo como Pela Selva Brasileira, em tradução livre).

Na verdade, o rio adentrava uma mata extremamente densa e era sinuoso, cheio de corredeiras e cachoeiras intransponíveis.

Para a satisfação de Roosevelt, porém, a expedição foi considerada um sucesso porque logrou mapear o curso do Rio da Dúvida, rebatizado em sua homenagem. O ex-presidente americano, no entanto, viu no ato uma injustiça.

Para ele, o Rio deveria ter recebido o nome de Rondon, que garantiu que ele voltasse da Floresta Amazônica para contar sobre os milhares de espécies animais e vegetais que encontrou ali. A jornada acabou em maio de 1914. Levaria mais doze anos até que novos exploradores voltassem a conseguir navegar por completo o Rio Roosevelt.

Fonte: BBC, g1.

Foto: Library of Congress.