Agroflorestas urbanas em São Paulo surgem como alternativa para reduzir enchentes e ilhas de calor nas periferias

As chuvas intensas que atingiram recentemente cidades de São Paulo e Minas Gerais, provocando mortes, desalojamentos e colapso urbano, expuseram um diagnóstico já consolidado entre especialistas: grande parte das cidades brasileiras foi construída para escoar água rapidamente — e não para absorvê-la.

Em meio ao aumento da frequência e da intensidade dos eventos extremos, iniciativas baseadas na natureza começam a testar uma alternativa, ainda incipiente, no país: o uso de agroflorestas urbanas como infraestrutura climática.

Na Região Metropolitana de São Paulo, o projeto Florestas Produtivas na Bacia do Tamanduateí, desenvolvido pelo Instituto Nova Era de Desenvolvimento Socioambiental (INE), busca regenerar áreas degradadas da Zona Leste da capital e do ABC paulista, utilizando sistemas agroflorestais capazes de atuar simultaneamente na recuperação ambiental, segurança alimentar e adaptação climática urbana.

A escolha do território não foi por acaso. A bacia do Tamanduateí concentra alguns dos efeitos mais visíveis da urbanização acelerada: rios canalizados, solo impermeabilizado, ocupação densa e frequentes episódios de enchentes. Nesse contexto, o projeto propõe substituir parte da lógica tradicional baseada exclusivamente em obras— como canalizações e piscinões — por soluções baseadas na natureza.

De acordo com a gestora executiva do Instituto Nova Era e coordenadora geral da iniciativa, Viviane Mendonça, o ponto de partida é reconhecer que o modelo urbano atual amplifica os impactos climáticos.

“Em um cenário de crise climática, o concreto da Região Metropolitana de São Paulo atua como um impermeabilizante que acelera enchentes. Os Sistemas Agroflorestais urbanos funcionam como sistemas de drenagem sustentável”, argumenta.

Na prática, explica ela, o funcionamento é hidrológico – a água circula, é armazenada e escoa pelo ambiente. “A cobertura vegetal e o sistema radicular profundo das árvores aumentam a porosidade do solo, transformando áreas compactadas em verdadeiras esponjas. Um sistema agroflorestal pode infiltrar até 10 vezes mais água da chuva do que solos convencionais, reduzindo o pico de vazão dos rios”, explica Viviane.

Esse mecanismo ganha relevância diante do novo padrão climático no Sudeste brasileiro, com chuvas mais concentradas em curtos períodos — cenário que, aliado à falta de adaptação urbana, amplia os impactos dos eventos extremos, infelizmente, resultado em mortes.

Infraestrutura urbana

Diferentemente de projetos tradicionais de reflorestamento, o conceito de florestas produtivas combina restauração ecológica com uso social do território. Em vez de áreas isoladas para conservação, os sistemas implantados integram produção de alimentos, regeneração do solo e participação comunitária.

Até o momento, o projeto contabiliza 24 empregos diretos, 176 participantes entre atividades contínuas e eventuais, além da recuperação e reconversão ambiental de 1.945 metros quadrados em áreas urbanas degradadas. Também foi implantado um corredor ecológico e iniciada a produção de mudas destinadas à recomposição vegetal e à agricultura urbana.

As ações incluem revitalização de nascentes, limpeza de cursos d’água, implantação de filtros biológicos e construção de viveiros comunitários voltados à produção de árvores nativas, hortaliças e plantas medicinais. Parte dessas iniciativas ocorre em áreas de preservação permanente e em territórios historicamente degradados pela expansão urbana e industrial, conforme detalhado no material técnico do projeto.

Além da dimensão ambiental, a proposta incorpora equipamentos públicos e espaços comunitários.

Jardins terapêuticos passaram a ser implantados em unidades básicas de saúde, enquanto moradores participam de formações em agrofloresta, compostagem, viveirismo e gestão de resíduos sólidos.

Para Viviane Mendonça, essa integração é decisiva para garantir permanência dos resultados. “O projeto rompe com a ideia de que preservação ambiental é algo separado das pessoas. Quando a comunidade participa do manejo e passa a produzir alimento, ela se torna gestora da própria infraestrutura verde”.

OS Sistemas Agroflorestais Urbanos (SAFs) reduzem ilhas de calor, melhoram infiltração de água e oferecem alimentos. Cidades como São Paulo, Belo Horizonte e partes da Europa já têm exemplos de SAFs urbanos em parques, terrenos ociosos e até em quintais, mostrando que, com planejamento, dá para replicar em escala urbana”, ressalta Viviane.

Adaptar cidades

Especialistas em planejamento urbano apontam que os impactos climáticos atingem de forma desproporcional áreas periféricas, onde há menor cobertura vegetal e maior exposição a enchentes e calor extremo. Nesse sentido, iniciativas como a da bacia do Tamanduateí podem ser u exemplo do conceito de justiça climática urbana, ao associar adaptação ambiental à melhoria direta das condições de vida.

“Nas periferias, a adaptação climática precisa ser tangível. Ao transformar uma área degradada em uma floresta que produz comida, o projeto combate a insegurança alimentar, gera economia local e fortalece a soberania alimentar”, afirma Mendonça.

Outro aspecto é o reaproveitamento de resíduos urbanos. Podas e materiais orgânicos que normalmente seriam descartados passam a funcionar como cobertura vegetal e insumo para regeneração do solo — reduzindo custos públicos e acelerando a recuperação ecológica.

Fonte: Um Só Planeta.

Imagem: Divulgação.

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